Uma Páscoa atribulada

Nova Iorque, Lower East Side, 1912. A área sudeste de Nova Iorque acolheu milhares de emigrantes durante as grandes ondas de emigração para a América. Esta zona pobre da cidade tornou-se na área com maior densidade populacional do mundo. Aqui viviam pobremente muitas comunidades estrangeiras, entre elas a de Judeus e era na Lower East Side que se encontrava a maior comunidade Judaica do mundo. Num modesto apartamento, vivem Ella, de doze anos, Henny, de dez, Sarah, de oito, Charlotte, de seis e Gertie, de quatro anos, com a mãe e o pai, um comerciante de coisas usadas. O dinheiro não abunda, mas a mãe dirige a casa habilmente. Uma casa onde reina a alegria e a harmonia e onde se comemora com seriedade todas as festas religiosas do calendário judaico.

– Então, não te levantas? – perguntou Ella.
Era um dia normal de escola e Sarah costumava ser sempre a primeira a levantar-se.
– Não me sinto bem.
– O que é que tens? Dói-te outra vez a garganta?
– Sim, quando engulo. Também me dói a cabeça e sinto o nariz a arder por dentro.
– Pareces estar muito quente. É melhor chamar a mãe.
A mãe não se mostrou muito preocupada. Já estava habituada a que as filhas ocupassem a “cama dos doentes”, como chamavam ao sofá que estava na cozinha. Das cinco irmãs, era Sarah a que lá passava mais tempo. Nessas alturas, e com a ajuda de uns lençóis, a mãe transformava o sofá em cama, e ia ao quarto buscar as doentes. Henny olhava para Sarah com inveja. Detestava ir à escola e estava sempre à espera de que acontecesse alguma coisa que a impedisse de ir.
– Mãe – disse – enquanto a Sarah estiver doente não vais precisar de ajuda?
– Acho que serias mais um estorvo do que uma ajuda, Henny.
Henny foi para junto de Sarah, no sofá.
– Que sorte! Eu também gostava de ficar doente.
– Só dizes isso porque não sabes como é horrível.
A mãe estava atenta a Sarah. Veio junto dela, pôs-lhe a mão na testa e sentiu-a a escaldar.
– Ella – disse – corre à loja do pai ainda antes de ires para a escola e diz-lhe que chame o Dr. Fuchs.
Mergulhou um pano em água fria, torceu-o, dobrou-o em quatro e pô-lo na testa de Sarah.
Quando as outras saíram, Gertie tentou distrair Sarah, mas ela não reagia.
– Deixa-a dormir – disse a mãe. – É o melhor que pode fazer. Anda, podes ajudar-me a tratar das loiças para o Pesach (refeição ritual da Páscoa hebraica e que celebra a fuga do Egipto.) – É já daqui a uma semana.
Só uma semana e havia ainda tanto que fazer!
Durante a festa da Páscoa, que dura oito dias, não se pode comer pão ou outros alimentos feitos com massa levedada. Nos dias anteriores à Páscoa, as famílias judaicas limpam tudo para eliminar qualquer resto de massa fermentada: até as panelas, sertãs e pratos têm de ser substituídos. Cada família judaica crente tem tanta loiça, que mais parece possuir uma loja de loiças. A família tem de ter dois serviços para uso diário, um para o leite e derivados, e outro para os pratos de carne, e ainda mais dois serviços para o Pesach. Isto para não falar da loiça bonita para os dias de visitas.
Quando as meninas voltaram da escola, o Dr. Fuchs estava em casa. Com a sua voz sonora mas simpática, ordenou a Sarah que deitasse a língua de fora e dissesse “aa”. As irmãs e a mãe estavam à sua volta a ver. Quando acabou o exame, o Dr. Fuchs voltou-se para a mãe:
– Parece escarlatina. O melhor é examinar também as outras meninas.
– Escarlatina! – exclamou a mãe.
Escarlatina significava quarentena e isolamento. Significava também que tinha de cozinhar dietas, provavelmente pratos fermentados, e a Páscoa estava à porta. Como iria conseguir conciliar tudo? Mas não deixou transparecer a sua preocupação na presença das filhas, que já estavam em fila diante do médico para serem examinadas.
Henny foi a primeira. Parecia estar bem de saúde. Gertie e Charlotte não aparentavam ter nada. O médico examinou Ella durante mais tempo e, no final, meneou a cabeça.
– Lamento, mas a pequena também tem escarlatina.
– Já era de esperar – respondeu a mãe calmamente. – Dormem juntas na mesma cama.
– Tem de deitar as duas num quarto separado – disse o Dr. Fuchs à mãe. – E tente manter as outras afastadas. Eu torno a passar amanhã e vejo como é que elas estão. Não tenha medo, que vai conseguir ultrapassar tudo isto. Pense que tem um bom médico!
O Dr. Fuchs riu da sua piada para animar a mãe, pegou na mala e saiu, rindo ainda.
Henny tinha agora uma boa desculpa para ficar afastada da escola, mas não estava nada contente com isso. “Quarentena”, pensava. “Nenhuma das minhas amigas pode aproximar-se de mim.” Também não podia chegar perto das duas irmãs nem passar o dia inteiro a brincar com bebés como Charlotte e Gertie!
Embora exteriormente se mostrasse calma e andasse de um lado para o outro como se nada fosse, a mãe estava preocupada. “Mantenha as doentes afastadas das que estão saudáveis”, ordenara o Dr. Fuchs. O melhor era deixar Ella e Sarah dormir no seu quarto e ficar junto delas. As crianças doentes precisam muitas vezes da mãe durante a noite.
Podiam usar a cama desdobrável que tinham para as emergências. O pai podia dormir no sofá da cozinha ou, se não quisesse, dormia na cama de Ella e de Sarah, no quarto das meninas.
A mãe preparou o quarto que ia ser o das doentes por muitas semanas. Depois, vestiu outra roupa, levou as doentes para a cama e tornou-lhes tudo tão confortável quanto podia. Em seguida, voltou a mudar-se e foi para a cozinha.
– Ouviram todas o que o médico disse – explicou então às filhas que não estavam doentes. – Não podem ir nunca ao quarto onde Ella e Sarah estão. Não quero que fiquem também doentes. Henny, leva esta receita à farmácia, por favor. Tens de esperar até que o remédio esteja pronto para depois o trazeres. Dá um salto ao pai, e diz-lhe que as meninas estão com a febre escarlatina. Charlotte e Gertie, vocês vão ajudar-me a arrumar outra vez os pratos. Por ora, não precisamos deles.
– Mãe – perguntou Charlotte – vamos, mesmo assim, festejar a noite de Seder (Seder (hebreu “Ordem”) Refeição de festa da festa das duas primeiras noites da Páscoa)?
– Claro que sim! – respondeu a mãe.
– A Ella e a Sarah já vão estar boas? – perguntou Gertie.
– Não, acho que não. É claro que já vão estar melhor – acrescentou rapidamente – mas vão ter de continuar de cama.
Nessa noite, a mãe foi acordada por um choro abafado. Despertou imediatamente, como sempre acontecia quando uma das filhas precisava dela, e reconheceu a voz de Sarah.
– Não chores – acalmava-a a mãe – que eu estou à tua beira.
– Enxota-o! Enxota-o! – chorava Sarah.
– Sim – respondeu a mãe. – Já o enxotei.
Não fazia nenhum sentido dizer a uma criança a arder de febre que não havia nada para enxotar.
Ella sentou-se na cama e perguntou:
– Está a delirar, mamã?
– Está. Se calhar teve sonhos maus. Daqui a pouco já se acalma.
– Tive um sonho tão mau! – soluçou Sarah. – Uma coisa estava a crescer cada vez mais e eu não conseguia pará-la. Os meus dedos iam ficando cada vez mais inchados, e a cara também. Pensei que ia rebentar. Fiquei tão assustada que chamei por ti!
– Eu estou aqui, não tenhas medo. Volta a adormecer. Eu sento-me à tua beira e mando tudo embora.
Dito isto, a mãe sentou-se na cama de Sarah, no silêncio da noite, segurando-lhe as mãos, até as duas crianças adormecerem. Depois, pousou cuidadosamente a mão de Sarah e voltou para a sua cama.
De manhã, as duas meninas pareciam melhor, embora a cara de Sarah estivesse cheia de manchas vermelhas. Ella achou muita graça à figura da irmã, até ao momento em que se deu conta de que ela própria também tinha manchas na testa e à volta das orelhas.
Mais tarde, veio um funcionário do Ministério da Saúde e afixou na porta da cozinha um selo de quarentena. Charlotte e Gertie iam constantemente lá fora e ficavam a olhá-lo, cheias de respeito.
Nessa tarde bateram à porta.
– Quem é? – gritou a mãe.
– Sou eu, o Charlie. Não tenha medo, que não quero entrar. Só venho para conversar um bocadinho.
A mãe saiu para falar com Charlie, o empregado do marido.
– Como estão a Ella e a Sarah? – perguntou.
– A Sara não passou nada bem esta noite.
– Isto é muito difícil para si – disse Charlie com simpatia. – Há alguma coisa em que possa ajudá-la? Quer que vá comprar alguma coisa?
– Obrigada, Charlie, mas o meu marido já foi hoje às compras.
– Eu trouxe uma coisinha para as doentes, para elas se irem entretendo um pouco. Está a ver o embrulho aí ao canto, ao pé da porta? Sim, é esse – disse, quando a mãe pegou no embrulho. – E não se preocupe demasiado, mãe!
As doentes alegraram-se com o presente. Dentro do embrulho havia duas ardósias pequenas com esponja e uma caixa com giz de cor.
– O Charlie é amoroso. Pensa em tudo – disse Ella.
Os três dias seguintes passaram depressa. O doutor vinha de manhã, examinava as doentes, brincava com as outras, e voltava a sair. Durante o dia, Sarah estava alegre e cheia de vivacidade, e ela e a irmã conversavam muito uma com a outra. Durante a noite, a febre subia e chamavam então pela mãe, que passou mais três noites sem dormir.
Ao pequeno-almoço do quarto dia, esta anunciou:
– Hoje à noite começa o Pesach.
A mãe tinha concluído todos os preparativos. A casa estava a brilhar e os pratos para o Pesach estavam limpos. O Sr. Basch, o merceeiro, tinha amontoado diante da porta uma quantidade de embrulhos com comida especial para o Pesach.
As doentes estavam melhor. As erupções na cara e no corpo estavam a diminuir.
Nessa tarde, Charlotte e Gertie estavam sentadas no sofá da cozinha a fazer desenhos engraçados. As duas meninas tinham estado o dia todo estranhamente sossegadas. Se a mãe não tivesse tanto que fazer, de certeza que teria notado e estranhado mas, como não se dera conta, foi apanhada de surpresa pelas palavras de Charlotte:
– Mãe, sinto-me esquisita. Dói-me tanto a garganta!
E, como se isto não bastasse, Gertie disse também:
– A mim não me dói a garganta, mas sinto-me tão cansada!
– Era engraçado se também apanhássemos a escarlatina – disse Charlotte. – Assim, a nossa casa tornava-se um hospital a sério!
A mãe não achou graça e disse apenas:
– Vamos pedir ao Dr. Fuchs que vos examine também. Ele já deve estar a chegar.
O Dr. Fuchs veio e examinou-as. Não havia dúvida: a mãe tinha mais dois casos de escarlatina para tratar.
Henny foi informar o pai. Quando regressou, já havia quatro camas no quarto das doentes, e Charlotte e Gertie tinham sido metidas na cama. Ella e Sarah deram-lhes as boas vindas efusivamente. Henny, pelo contrário, andava na cozinha de um lado para o outro. Porque é que era a única que não estava doente? Agora é que não tinha mesmo mais ninguém com quem brincar.
A primeira noite de Seder tinha chegado. Que vazia parecia a mesa, só com três talheres! Nos anos anteriores, tinham sido convidados pobres, amigos e parentes! Os copos de cristal brilhantes foram enchidos de vinho: um grande para o pai, um médio para a mãe, e um pequeno para Henny. Um guardanapo imaculado cobria o tabuleiro de Seder que o pai tinha previamente preparado. Na bandeja estavam três pedaços de pão matzo (pão israelita feito sem fermento), símbolo da união, pois todos os Judeus deviam ser irmãos. No canto superior direito da bandeja, o pai tinha posto os ossos do cordeiro da Páscoa, e no canto superior esquerdo, um ovo cozido com casca, ambos símbolo das oferendas que nos tempos antigos eram feitas pelos Judeus e sacrificadas nesse dia sagrado. No centro da bandeja havia rábano picante e ervas amargas. No canto inferior direito, um pequeno recipiente com uma mistura de amendoins, maçãs descascadas e vinho, que representavam a argamassa e os tijolos que os Judeus tinham feito para o faraó do Egipto, há muitos milhares de anos. No canto inferior esquerdo havia um raminho de salsa, símbolo da Primavera e da esperança.
A cadeira do pai e o sofá de couro foram chegados à frente para perto da mesa e forrados com almofadas. Enquanto tomavam a refeição, o pai e a mãe iriam recostar-se neles como se fossem rei e rainha.
Nessa noite, não precisavam de ter medo de que não houvesse Haggadahs que chegassem para todos. Haggadahs são pequenos livros muito finos que remontam a mais de dois mil anos e onde está registada a história do Pesach. Os Haggadahs da família estavam escritos em inglês e em hebraico para as crianças poderem seguir a leitura do pai.
Neste Pesach, a mais antiga e a maior das festas judaicas, que começava com um bonito e colorido festejo, havia quatro meninas doentes, de cama, a chorar, porque não podiam participar totalmente.
O pai vestiu a bata de linho branco, pois desde os tempos antigos que as vestes de festa dos Judeus eram brancas, e parou por um momento em frente da porta do quarto, aberta para as crianças poderem ver o seu aspecto solene.
– Não chorem – pediu-lhes. – Vamos deixar a porta aberta e eu vou ler em voz alta para poderem ouvir-me. Se escutarem com atenção, também estarão a participar.
As doentes enxugaram os olhos e passaram a escutar atentamente, embora nada pudessem ver da celebração.
Lavadas as mãos, fez-se a bênção do vinho, que em seguida foi bebido. O pai voltou a encher os copos e distribuiu pequenos ramos de salsa que todos mergulharam em água salgada e em seguida comeram. A água salgada simbolizava as lágrimas que os Judeus haviam vertido quando eram escravos no Egipto. O pai partiu o segundo matzo e escondeu um pedaço grande entre as almofadas da cadeira. Em todas as noites anteriores de Seder, as filhas tinham-lhe seguido os movimentos com atenção, pois aquela que conseguisse tirar o pedaço de pão sem o pai dar conta recebia deste, como recompensa, o que quisesse. O pai tinha sempre dificuldade de saber quem tinha sido o ladrão, mas esta noite não ia haver dúvidas.
Os Haggadahs estavam abertos e o pai começou a cantar em hebraico: Todos vós, que tendes fome, vinde e festejai, todos vós, que não podeis festejar o Seder, vinde e festejai connosco.
Em breve chegaram à parte da cerimónia em que o filho mais novo da família ou, na ausência deste, a filha mais nova, pedia uma explicação sobre a festa. Gertie ensaiara o seu papel durante semanas, e agora não estava à mesa para poder desempenhá-lo. O pai esperou e, em breve soou, vinda do quarto, a vozinha infantil a cantar, hesitante:
Pai, porque é que esta noite é diferente das outras?
Quando a menina acabou, o pai começou a ler com rapidez. Hoje soava apenas a sua voz mas, nas outras noites de Sedar, cantavam todos os convidados.
A celebração continuava e, enquanto o pai cantava, as páginas eram viradas umas atrás das outras, até que os Haggadahs foram finalmente postos de parte.
Teve início a refeição. Bebeu-se o segundo copo de vinho e voltaram a lavar as mãos. O pai estendeu um matzo e os três deram graças. Comeram as ervas amargas. A mãe trouxe para a mesa uma terrina cheia de ovos cozidos, pois os ovos simbolizavam vida e saúde. Foram mergulhados na água salgada e comidos. Após o primeiro prato, seguia-se sopa de galinha com almôndegas pequenas, feitas de farinha de matzo, depois havia galinha, legumes e fruta cozida a vapor.
Quando a refeição acabou, o pai procurou o pedaço de matzo escondido. Tinha desaparecido. Gertie gritou do quarto:
– Mas vocês prometeram-me que hoje eu podia roubar o afikomen (nome dado ao pedaço de pão matzo que é escondido propositadamente.)! Era a minha vez! E ele agora desapareceu e eu não vou receber nenhuma prenda!
– Não te zangues, Gertie – gritou Henny. – Tenho-o eu! E só o dou ao pai se ele nos oferecer às duas uma coisa!
Os olhos do pai piscavam, divertidos.
– Mas isto é uma violência! – disse. – O que posso oferecer-vos em troca do afikomen?
– Eu quero um tanque de roupa pequenino e uma tábua para poder lavar a roupa das minhas bonecas! – gritou Gertie imediatamente.
– Muito bem. E tu, Henny?
– Oh, eu queria uma moeda de cinco cêntimos. Mas jura-nos que vamos receber as prendas!
O pai prometeu e Henny entregou-lhe o afikomen. O pai partiu um pedaço para cada, como sobremesa, da mesma forma que nos tempos antigos era dado um pedaço do cordeiro da Páscoa a quem entrava no templo.
E era agora altura de abrir a porta ao profeta Elias, que um dia viria anunciar a chegada do Messias. Foi-lhe enchido um copo com vinho, pois dizia-se que na noite de Seder ele ia a todas as casas. Abria-se a porta para que entrasse e bebesse o vinho. As crianças não tiravam os olhos da porta e esperavam vê-lo, ou pelo menos ouvir o barulho das asas ao entrar.
As meninas nunca o viam nem ouviam, mas, de todas as vezes, estavam certas de que havia um pouquinho menos de vinho no copo do que antes de abrirem a porta.
– Pai! – gritaram. – O vinho não diminuiu?
– Sim – respondeu o pai. – Vejo que o profeta Elias esteve aqui!
Henny confirmou:
– De certeza absoluta que esteve aqui.
Já era tarde, as doentes estavam cansadas, por isso todos dispensaram as canções tradicionais. Henny e a mãe arrumaram tudo rapidamente e assim se passou a primeira noite de Seder.
A família tinha-se habituado à ideia de estar completamente só. Para a mãe, os dias haviam sido tão cheios de trabalho, que nem lhe sobrara tempo para pensar. Também tinha desistido de proteger Henny da febre escarlatina. Era esforço em vão, porque mal a mãe virava costas, Henny já estava no quarto das doentes. Além disso, o Dr. Fuchs tinha a impressão de que Henny não era atreita a esta doença, caso contrário já a teria contraído há muito tempo.
O único contacto que a mãe tinha para com o exterior era através da janela. Todos os dias, por volta do meio-dia, tocavam à campainha da porta. A mãe corria à janela da sala para cumprimentar os familiares que nesse dia vinham perguntar como iam as pequenas.
Charlie também batia à porta, dia sim, dia não, perguntava pelas crianças e deixava-lhes qualquer objecto pequeno: algumas folhas de papel de cor, ou uma carta engraçada, que fazia rir as meninas. Uma vez, Charlie trouxe cerejas cristalizadas, que elas adoraram. Outras vezes o pacote-surpresa trazia um brinquedo qualquer ou um jogo de tabuleiro.
– Charlie – dizia a mãe – nunca conheci ninguém que gostasse tanto de crianças! As meninas ficam felizes com os seus embrulhos, agradecem e mandam-lhe cumprimentos. Como podemos agradecer-lhe?
– São coisas sem importância – respondia Charlie embaraçado. – Só quero que as meninas fiquem contentes! – E desapareceu imediatamente pelas escadas abaixo.
Uma vez, o carteiro deixou um grosso envelope castanho que vinha dirigido às crianças. Nunca ninguém lhes tinha mandado nada pelo correio, e mal podiam acreditar que fosse para elas.
Ella abriu-o e retirou um exemplar novinho de uma revista infantil. Trazia presa uma carta, que Ella leu em voz alta. Era de Miss Allen, a bibliotecária, a pedir às crianças que se curassem depressa. Estava com saudades das suas carinhas alegres.
– É tão querida! – disse Sarah. – Gosto tanto dela!
– Todas nós gostamos dela – disse Ella, e a opinião era unânime.
O Pesach chegou ao fim e as meninas curaram-se. Tinha chegado o dia em que a casa iria ser desinfectada e, quando finalmente chegou, o funcionário do Ministério da Saúde foi recebido com vivas e aplausos.

Sydney Taylor
Die Mädchenfamilie
München, DTV Junior, 1988
Excertos adaptados