Theo, o contador de histórias

Uma vez por semana, Theo, o contador de histórias, punha-se a caminho da aldeia para comprar pão fresco.
Noutros tempos ficava contente quando este dia chegava mas, de há algum tempo para cá, tinha-se tornado uma tortura.
Não que, com a idade, as pernas lhe pesassem. Não, Theo ainda conseguia fazer longas caminhadas. Continuava até a ir ao seu lugar preferido, lá em cima nas montanhas, sempre que tinha tempo.
Só que, à entrada da aldeia, Theo era sempre recebido por um bando de crianças aos risinhos:

“Contador de histórias ha, ha, ha!
Contador de histórias, hi, hi, hi!”

Theo desaparecia então o mais rápido possível para dentro da padaria. Mas as crianças esperavam até ele voltar a aparecer com um pão debaixo do braço.
Theo apressava-se a deixar a aldeia tão depressa quanto podia, perseguido pelos risos trocistas das crianças.
Noutros tempos, Theo tinha de contar primeiro muitas histórias até as crianças o deixarem regressar à montanha.
Porque Theo fora o contador de histórias mais maravilhoso de toda a região. Um dia, porém, esqueceu todas as suas histórias. Ninguém sabe como é que aquilo aconteceu, nem mesmo Theo.
Sentado no quarto, Theo pensava tristemente no tempo em que as crianças ainda gostavam dele.
— Nunca mais volto à aldeia — disse para si mesmo. — Prefiro morrer à fome.
Nas semanas seguintes, as crianças esperaram por Theo em vão à saída da aldeia. Regressaram a casa de cabeça baixa e pensavam para si: “Se calhar, fizemos Theo zangar-se.”
Entretanto, Theo tinha gasto todas as suas reservas e a fome já fazia a barriga dar horas.
— Não, nunca mais volto à aldeia — repetia constantemente para si mesmo.
Quando, por fim, o estômago vazio começou a doer-lhe, Theo foi à floresta apanhar cogumelos e frutos silvestres.
Vagueou por ali e acabou por esquecer completamente o que tinha ido procurar. Estava demasiado ocupado a pensar nas suas antigas histórias, mas a cabeça estava tão vazia como o estômago. As antigas histórias tinham sido contadas e há muito esquecidas.
Triste, deitou-se no musgo macio e adormeceu.
Quando acordou, Theo pensou ainda estar a dormir, pois diante do seu nariz estava de facto um homenzinho muito pequeno!
— És algum duende? — perguntou Theo.
— Claro! — respondeu o duende.
— Mas eles só existem nas histórias — disse Theo.
— Hum — fez o duende, coçando o nariz.
Depois de se ter coçado o suficiente, o duende perguntou:
— Tu és Theo, o contador de histórias que já não sabe histórias nenhumas, não és?
— Podes rir-te à vontade de mim, que já estou habituado — resmungou Theo.
Mas não era isso que o duende queria, pois ele adorava histórias, e prometeu a Theo que iria ajudá-lo. E quando os duendes prometem alguma coisa, costumam cumprir.
O duende remexeu nos bolsos das calças e tirou de lá um botão partido.
— Toma este botão mágico. Se o lançares três vezes ao ar, vais lembrar-te de novas histórias — disse o duende.
— A sério? — perguntou Theo.
— Claro — respondeu o duende. — Confia no botão!
Theo agradeceu ao duende e pôs-se imediatamente a caminho da aldeia. Mas quando finalmente chegou, já a lua estava no céu e todos dormiam.
“Que pena”, pensou Theo. “Queria tanto experimentar já o botão!
Viu então um gato velho sentado na beira da fonte.
“Talvez não seja mau treinar primeiro”, pensou Theo. Pegou no botão e lançou-o três vezes ao ar. Para seu espanto, sem ter de pensar muito, as histórias começaram simplesmente a brotar-lhe dos lábios.
Quando fez uma pausa e levantou os olhos, viu que já não estava sozinho. Todos os animais da aldeia tinham vindo escutá-lo. Até o velho touro se tinha escapado para vir ouvir as histórias, pois já conhecia Theo de antigamente.
Na manhã seguinte, ia na aldeia uma tal azáfama, que mais fazia lembrar um formigueiro. Todos estavam ocupados a caçar os seus animais e até as crianças tinham de ajudar. Só quando todos os animais se encontravam novamente nos currais e nas pastagens, é que as crianças repararam em Theo sentado na beira da fonte.
Theo e as crianças ficaram a olhar-se em silêncio durante algum tempo. Mas de repente um rapazinho começou a rir:

“Contador de histórias ha, ha, ha!
Contador de histórias, hi, hi, hi!”

E, a uma só voz, todas as crianças começaram:

“Contador de histórias ha, ha, ha!
Contador de histórias, hi, hi, hi!”

Desta vez Theo não fugiu mas continuou sentado e disse com uma voz suave:
— Vinde cá, que eu conto-vos uma história.
Agora foram as crianças que fugiram a sete pés.
— Vinde cá! Gostava de vos contar uma história! — gritou Theo, mas as crianças não se atreviam a sair do seu esconderijo; por isso, Theo contou as suas novas histórias ao gato, o único animal que tinha ficado à beira dele.
As crianças escutavam o contador de uma distância segura mas, quando ouviram as suas belas histórias, o medo desapareceu e, tal como na noite anterior, em pouco tempo Theo ficou rodeado de público. Os habitantes da pequena aldeia voltaram a ouvir as crianças pedir como outrora:
— Conta outra história! Não pares!
E o contador de histórias inventava sempre novas histórias maravilhosas.
A partir daquele dia, Theo voltou a visitar a aldeia e as crianças com mais frequência.
Certo dia, em que Theo estava rodeado de crianças e queria inventar outra história, descobriu, horrorizado, que o botão mágico tinha desaparecido. Theo começou a transpirar e não conseguiu dizer uma palavra.
Aquele triste silêncio foi interrompido subitamente por um risinho estridente. Assustado, Theo levantou-se.
Quando viu o duende sentado no muro da fonte, soltou um suspiro de alívio.
— Hi, hi, hi! Não era nenhum botão mágico o que te dei! Só que na altura não me ocorreu nada melhor. As histórias, foste tu que as inventaste sozinho. Só tu! — ria-se o duende.
Theo olhou atónito para o duende e perguntou em voz baixa:
— A sério?
— Claro!
Theo reuniu toda a coragem e começou uma nova história, uma história ainda mais bonita do que as anteriores.
A partir daquele dia, Theo não precisou de nenhum botão mágico para contar histórias. Do que precisava era de muitas crianças que o ouvissem e pedissem:
— Oh, por favor, não pares! Conta outra história!

Dieter Konsek
Theo, der Geschichtenerzähler
Wien, Picus Verlag, 1997
Tradução e adaptação

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