Histórias no mar

— Já se sente a chegada do Outono! — comentou o peixe-espada, com um sorriso de barbatana a barbatana.
Depois de um Verão atribulado, com algumas agressões dos veraneantes mais distraídos que pisavam as casas dos habitantes do fundo do mar, e de outros que, mais do que distraídos, atiravam garrafas para o sossego das águas, tudo parecia estar a acalmar.
As praias começavam a ficar vazias e já se notava os primeiros sinais de arrefecimento do tempo, com ventos mais fresquinhos e até algumas gotas de chuva. Tinham chegado as merecidas férias para os habitantes do fundo do mar. Era a sua vez de gozar a praia, vir à tona de água, dar saltos e aprender a mergulhar artisticamente com os amigos golfinhos. E adivinhava-se que poderiam dormir até mais tarde, sem o perigo de acordar com a visita inesperada de algum banhista.
Todos estavam atarefados. Todos menos a estrela-do–mar, que parecia um pouco triste:
— Eu cá vou sentir a falta de uma pessoa… — desabafava, piegas.
— Oh! — riu o carapau. — Aposto que alguém disse que tu eras linda! És mesmo vaidosa! Depois eu é que gosto de me armar em carapau de corrida.
A estrela-do-mar lá tinha as suas razões. É que todos os dias, durante o Verão, um menino a visitara e lhe contara muitas histórias. Falara-lhe de sítios que a estrela-do-mar não conhecia, da sua vida na cidade, como era a sua escola e os seus amigos. Sem sair do mesmo sítio, ela tinha viajado todo o Verão através das palavras daquela criança.
— Não é nada disso! — disse a estrela-do-mar. — É que este Verão aprendi a ouvir histórias!
— Histórias?! — disseram os peixes que estavam ali por perto. — Que significa “histórias”?
na verdade, essa era uma palavra que ninguém conhecia no fundo do mar. Ali, nunca ninguém contara ou escutara algum conto.
A estrela-do-mar explicou então, à sua maneira, que uma história era uma coisa que se contava e ajudava as pessoas a sonhar. Ninguém ficou satisfeito com a explicação.
— Vou dar um exemplo — disse. — Sentem-se todos à volta desta rocha. Fechem os olhos e escutem: era uma vez…
A estrela-do-mar começou então a contar uma das muitas histórias que tinha aprendido e as suas palavras soaram como música aos ouvidos dos presentes. Uns de olhos fechados, outros já com eles abertos, todos sentiram que as personagens da história estavam ali mesmo, a seu lado, e divertiram-se à grande com as peripécias que iam ouvindo.
O sucesso foi tal que todas as noites passou a haver um serão marinho de contos, onde todos podiam participar, inventando as suas próprias histórias e escutando as dos outros.
E tu? Já pensaste na sorte que tens por poder escutar histórias? Porque não inventas agora uma história só tua?

Rosário Araújo e Catarina França

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s