Renascimento

Tinha estado um dia medonho de Inverno e a noite não parecia que fosse ser melhor. Os meus medos confirmaram-se quando, ao sair do trabalho, desabou uma chuva furiosa, como se à última hora quisesse vingar-se ainda de alguma coisa.
Durante a tarde ainda conseguira secar a roupa molhada à hora do almoço mas, invariavelmente, os sapatos teimavam em não secar. Apesar de ter trocado de meias — já não era a primeira vez que isto me acontecia — a chuva ameaçava voltar a penetrar nos sapatos. E já sentia as pontas dos dedos começarem a gelar.
Claro que, se não fosse o Natal, as encomendas que quadruplicam, os “faxes” do estrangeiro, os emails que precisam de resposta urgente, o trabalho que tem de ficar pronto dê por onde der, isto não teria acontecido.
Isto o quê?
Tudo: não teria apanhado com o aguaceiro, não teria apanhado com a água que o condutor daquele carro, tão apressado em ir para casa, me atirou para cima, não estaria encharcada e sozinha àquelas horas da noite, à espera de um autocarro que teimava em não chegar.
É incrível a quantidade de coisas de que me lembro em momentos destes, ainda para mais agora, que estamos no Advento.
Lembrei-me de quando era pequena e acompanhava a minha mãe nas muitas voltas que ela tinha a dar pela cidade. Por incrível que pareça, quanto mais frio e chuva e nevoeiro houvesse, mais eu gostava daquele passeio. Não sei se ela barafustava contra o tempo; é provável, se bem que raramente a tenha ouvido. Eram as luzes das ruas e das montras iluminadas, os pinheiros enfeitados, as caixas embrulhadas que faziam de prendas — e eu, tão ingénua, nem suspeitava que as caixas estavam vazias!
E o cheiro.
O cheiro de Natal é um cheiro muito especial. Acho que aquela mistura de canela com cravinho tem, antes de tudo, a função de aquecer o espírito. Quando chegávamos a casa, a minha mãe gostava de fazer um chá de especiarias. Às vezes eu bebia, outras vezes deitava-as no leite.
Mas porque me lembrei da minha mãe e das nossas andanças pela cidade durante o Inverno? O que tem isso a ver com os meus sapatos encharcados?
Era a minha mãe que me calçava as botas. Não sei bem que botas eram. Lembro-me sempre, e nunca hei-de esquecer-me de, apertados os cordões ou corrido o fecho ou enfiado o pé, da palmadinha carinhosa que me dava sempre no final:
— Pronto, aqui não entra água.
Não sei se entrava, nem se não. Para mim, era como se aquela palmada vedasse toda a água e todo o mal que dali pudesse vir. Podia passar por todas as poças de água da cidade, que nunca as minhas meias se molhavam. Provavelmente, usava botas de borracha, daquelas com uma cara de sapo e uns olhos em relevo. É o mais certo.
Já muito mais velha, ainda inventava mil e uma desculpas para que fosse ela a apertar-me os sapatos ou o casaco. Precisava daquela protecção, da certeza de que havia alguém que zelava por mim, que estendia a mão por cima da minha cabeça.
Quando morreu, senti que ia deixar de estar protegida. Senti-me órfã, embora a família até fosse grande. Senti-me desamparada. E tentava colmatar esse vazio no grupo de amigos, nas saídas semanais, nos vícios e dependências. Até hoje continuava a vaguear pelas minhas memórias, perdia-me e acabava por adormecer nelas sem encontrar a saída. O Advento e o Natal significavam uma tristeza e solidão da qual eu não conseguia sair.
Terá mesmo de ser assim? Não haverá uma forma de ultrapassar estes sentimentos?
A colega com quem partilho o gabinete levou hoje uma coroa do advento, oferta de um amigo que foi de viagem não sei onde.
— Importas-te que a acenda aqui?
Não, não me importava.
Ela acendeu a primeira vela. Passados uns minutos tinha-se espalhado pelo ar um cheiro a Natal, AQUELE cheiro a Natal. Fixei a vela. Não sei o que se passou naquele momento, mas foi como se aquela luz, aquele cheiro, tivessem sarado todas as minhas angústias e tristezas e iluminado o começo de um caminho. Nem sei se vi ou se senti.
— Desculpe, posso sentar-me?
Assustei-me. Ao meu lado estava um homem de aspecto simpático que eu não dera por chegar. E sorria.
— Claro… sim, claro!
E a água já a ameaçar as meias…
— Está cá um tempo!
E fixou os meus sapatos.
— Não me leve a mal… mas parece que tem os pés molhados.
— Sim, foi o aguaceiro.
— Não quero incomodá-la mas tenho aqui umas botas, as últimas desta colecção, que não consigo vender. Ou é a cor, ou o feitio, ou o número, enfim… Já desisti e resolvi levá-las para casa. Pode ser que encontre alguém a quem sirvam. Pelos vistos, não querem é ser vendidas, só dadas!
E riu-se. Um riso alegre, claro, saudável.
— Quer experimentá-las? É trocar uma semana de gripe por um par de botas. Se ainda quiser pensar na oferta…
Ri-me. Claro que aceitei as botas.
Calcei-as – já tinha uma gota de água em cada meia – e ajustei o pé. Eram o meu número!
— Pronto, aí já não entra água.
O que é que ele disse?
— Sabe que rebentou um cano mais acima e o autocarro teve de dar uma volta mais longa. Vai demorar mais tempo a vir — disse enquanto tirava qualquer coisa da mala de couro. Uma caneca térmica? — Antes de fechar a sapataria fiz um chá. É de especiarias, não sei se gosta. Aceita um copo?
E já me estendia um na minha direcção.
Agradeci e agarrei-o com as duas mãos. Fumegava e tudo! Ao inspirar, qualquer coisa estalou dentro de mim. Vi a vela da escritório, o cheiro, as botas, a minha mãe, a luz, e uma criança deitada, a sorrir, estendendo os braços na minha direcção, e senti uma alegria imensa. Tive a certeza de que não estava só, nem órfã, nem desamparada.
— Muito obrigada por tudo! — disse ao meu companheiro. Mas ele já lá não estava.
Só estava eu a apertar um copo nas mãos como se fosse um cálice sagrado.
— A menina entra ou vai esperar pelo próximo autocarro? Olhe que o próximo é só às seis da manhã!
E o motorista sorria.

One thought on “Renascimento

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s