Tens namorada, Jerónimo?

Ainda sou uma criança. O que não significa que seja um bebé.
Bebé é a minha irmã Rosa, que ainda não sabe andar nem falar, e que faz xixi nas fraldas. Uma coisa é ser-se criança, outra é ser-se bebé.
Gosto de ir ao mercado com os meus pais. Paramos numa e noutra banca a fazer compras.
— Olá, Jerónimo — diz o peixeiro.
— Olá — respondo.
— Então, já tens namorada?

***

Hortênsia, a senhora que vende fruta, dá-me sempre alguma coisa: uma tangerina, uvas, uma banana…
— Obrigado — digo, para os meus pais não dizerem que sou mal-educado.
— Gostas?
— Sim.
— Ainda bem, Jerónimo… Já arranjaste uma namorada? — pergunta ela, também.

***

No outro dia, o telefone tocou e, como estava perto, atendi.
— Estou?
— Sou o Leonardo.
Leonardo é um amigo do meu pai. Jogam os dois aos fins-de-semana numa equipa de futebol de salão.
— Como vai isso, Jerónimo?
— Tudo bem.
— E então, como está a tua namorada?

***

No domingo, fomos comer a casa dos meus avós. Foi muito agradável. Também lá estavam os meus tios e primo, que é da minha idade. Quando acabámos de comer, o meu tio, que estava sentado ao meu lado, deu-me uma cotovelada.
— O teu primo já tem namorada. E tu, Jerónimo?

***

O porteiro do meu prédio chama-se Nando. Embora todos o tratem assim, é bastante idoso: tem cabelos brancos e é muito surdo.
Quando vou para a escola de manhã, lá está ele a varrer a entrada do prédio.
— Olá, Jerónimo.
— Olá, Nando.
— Um dia destes vou apresentar-te a uma neta muito linda que tenho — diz-me ele. — Pode ser que se tornem namorados….

***

Pensei muito e, por fim, decidi-me.
Na escola, aproveitei a meia hora do recreio. Em vez de ir jogar, como de costume, fui para junto da Lorena, que estava a desembrulhar a sua sandes.
— A minha é de queijo — disse-lhe. — E a tua?
— De mortadela.
— Se quiseres, podemos dividi-las.
— Está bem.
Como a Lorena aceitou a minha proposta, pensei que isso significasse qualquer coisa. Por isso, perguntei-lhe:
— Queres ser minha namorada?
— Não — respondeu ela.
— Porquê? — insisti.
— Porque desde ontem que sou a namorada do Assis.
Que fracasso! E eu que, ainda por cima, não gosto nada de mortadela!

***

Propus namoro à Noélia, à Mila, à Carolina e à Isabel.
Mas a Noélia já era namorada do Xavier. A Mila namorava com o Luís, a Carolina com o Gustavo e a Isabel com o Ricardo.
Afastei-me delas, um pouco envergonhado.

***

A Bárbara é a minha melhor amiga. Vivemos muito perto e, depois da escola, fico muitas vezes a brincar com ela, a fazer os trabalhos de casa, ou a ver um filme na televisão.
— Bárbara, tens namorado? — perguntei-lhe.
— Não.
Respirei, satisfeito. Sabia que a Bárbara não me deixaria ficar mal.
— Queres ser minha namorada, Bárbara?
— Não.
Fiquei de boca aberta e levei algum tempo a reagir.
— Porquê?
— Porque nunca me vou casar. Quero ser sempre solteira.

***

Porque é que todos os adultos me perguntam se tenho uma namorada?
Não se dão conta de que ainda sou uma criança?
Não percebem que as crianças como eu gostam é de correr no recreio, caminhar nas poças quando chove, ou ir ao parque de diversões?
Além disso, penso fazer como a Bárbara: quero ficar sempre solteiro!

Alfredo Gómez Cerdá
Soy… Jerónimo
Madrid: Bruño, 2006
(Tradução e adaptação)

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