Aquelas sapatilhas

Até sonhava com aquelas sapatilhas. Eram pretas, com duas riscas brancas.
— Avó, quero aquelas sapatilhas.
— Cá em casa não se usa a palavra “quero”; só se usa a palavra “preciso”. E do que tu precisas é de um par de botas para o inverno.
O Bruno levava umas sapatilhas daquelas para a escola, e dizia que agora era ele o corredor mais rápido. O corredor mais rápido era eu, antes de as sapatilhas terem aparecido. O Nelo também trazia umas sapatilhas daquelas para a escola. O António e eu contávamos as vezes que ele ia à casa de banho, só para se exibir no corredor, para lá e para cá. A seguir, foram o Tiago e o Zeca que compraram um par…
Um dia, a meio do jogo de futebol, uma das minhas sapatilhas desfez-se.
— Parece que vais ter de arranjar um par novo, Jaime — disse o Prof. Alfredo.
Depois, foi ao armário dele e tirou para fora uma caixa enorme com sapatos e outras coisas, que costumava trazer para os miúdos que mais precisavam. Ajudou-me a encontrar o único par de sapatilhas que me servia — umas Velcro, iguais às que o meu primo Manel calçava. Tinham a imagem de um animal que eu nunca tinha visto em nenhum desenho animado.
Quando regressei à sala de aula, o Zeca olhou para as minhas sapatilhas e riu-se. O Tiago, o Bruno e os outros todos também se riram. O único que não se riu foi o António.
Em casa, a minha avó comentou:
— O Prof. Alfredo é muito simpático.
Disse que sim com a cabeça e virei costas. Não ia chorar por causa de umas estúpidas sapatilhas. Mas, mais tarde, quando estava a copiar as palavras difíceis, cada palavra me trazia à mente a palavra “sapatilhas”. Então, agarrei o lápis com tanta força que até tive medo que ele partisse.
No sábado seguinte, a minha avó disse:
— Vamos lá dar uma vista de olhos às tais sapatilhas que tu tanto queres. Tenho algum dinheiro de parte; não sei se chega, mas nunca se sabe.
Na sapataria, a minha avó virou as sapatilhas para ver o preço. Quando o viu, até se sentou.
— Se calhar, escreveram mal o preço – disse eu.
A minha avó abanou a cabeça. Foi então que me lembrei das lojas que vendem coisas em segunda mão.
— E se tiver havido algum miúdo rico a quem já não sirvam as que tem, ou que tenha tido dois pares pelo Natal e tenha decidido dar um?
Apanhámos o autocarro para a primeira loja. Botas pretas à cowboy, chinelos cor-de-rosa, sandálias, sapatos de tacão alto – não faltava calçado; só não havia era sapatilhas como as que eu queria. Apanhámos o autocarro para a segunda loja. Nem sequer havia sapatilhas à vista. Ao virar da esquina, vi uma terceira loja… e qualquer coisa na montra. Eram umas sapatilhas pretas com duas riscas brancas.

SAPATILHAS EM BOM ESTADO
5 Euros

O meu coração batia com força à medida que descalçava as minhas sapatilhas e as meias largueironas.
— Sinto-me tão contente! — disse a minha avó. — Qual é o número?
Enfiei o meu pé na primeira e encolhi os dedos para o calcanhar poder entrar.
— Parece-me que servem.
A minha avó ajoelhou-se e apalpou a sapatilha para ver se os meus dedos chegavam à ponta.
— Oh filho, tem paciência, mas eu não posso gastar dinheiro em sapatilhas que não te servem.
Enfiei a outra e tentei caminhar um pouco.
— Parecem-me bem — disse, quase sem respirar, e rezando para que os dedos encolhessem… para os pés caberem nas sapatilhas. Mas os meus dedos não encolheram. Comprei-as com o meu dinheiro, calcei-as e fui a mancar até à paragem do autocarro. Alguns dias mais tarde, a minha avó colocou um par de botas novas de inverno no meu armário e não disse nada acerca da figura que eu fazia a andar com aquelas sapatilhas.
— Às vezes as sapatilhas alargam — disse eu.
A minha avó deu-me um abraço. Mas, por muito que eu quisesse, as sapatilhas não alargaram. Acabei por levar as do Prof. Alfredo para a escola.
Um dia, estávamos nós a ter Matemática, deu-me para olhar para as sapatilhas do António. Uma delas já tinha fita adesiva e os pés dele pareciam mais pequenos do que os meus. Depois da escola, fui até ao parque para pensar. O António foi comigo. O António é o único miúdo da escola que não se ri das minhas sapatilhas. Fizemos alguns passes de basquete e a fita adesiva da sapatilha do António batia no cimento de cada vez que ele saltava. E eu pensei: “Não consigo”. Saltámos por cima dos baloiços. E eu pensei, outra vez: “Não consigo”. Corremos de um lado para o outro do parque e eu gritei:
— Não consigo!
— Não consegues o quê? — perguntou o António, já sem fôlego.
A minha avó chamou-me para jantar e convidou o António. Depois do jantar, fomos dar uma espiadela às sapatilhas.
— Porque não as usas? — perguntou-me.
Encolhi os ombros. Tinha as palmas das mãos a transpirar. Até conseguia sentir o quanto ele desejava ter aquelas sapatilhas.
Nessa noite, passei muito tempo acordado a pensar no António. Mal amanheceu, experimentei as sapatilhas mais uma vez. Antes de mudar de ideias, enfiei-as no bolso do casaco.
Começou a nevar quando atravessei a rua para ir a casa do António. Coloquei as sapatilhas em frente à porta, toquei à campainha e fugi. O António entrou na escola com as sapatilhas calçadas e um sorriso de orelha a orelha. Fiquei feliz por o ver contente e furioso quando olhei para as minhas Velcro. Quando, mais tarde, estávamos no intervalo, aconteceu uma coisa inesperada. De repente, ficou tudo cheio de neve. Então, o professor avisou:
— Deixem as sapatilhas no corredor e calcem as botas.
Foi quando me lembrei do que tinha na mochila. Botas novas. Botas novas e pretas, como nunca nenhum daqueles miúdos tinha calçado.
O António chegou perto de mim e disse: “Obrigado.”
Sorri, dei-lhe uma cotovelada, e desafiei-o:
— Toca a correr!

Maribeth Boelts
Those shoes
Cambridge, Massachusetts, Candlewick Press, 2007
(Tradução e adaptação)

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