O devorador de coragem

Em pleno centro da zona pedonal estava sentado um tipo gordo a olhar com má cara para as pessoas que passavam. Abria constantemente a boca, abocanhava no vazio, mastigava e engolia. Depois, coçava a enorme barriga, sorridente, e tornava a abrir a boca em busca de nova presa invisível. Uma e outra vez.

As pessoas que passavam por ele, ou que por vezes quase tropeçavam nele, estremeciam, assustavam-se, e apressavam-se a fugir. Parecia que estavam com medo. Mas o indivíduo ia ficando cada vez mais gordo. O que é que aquele monstro gordo estaria sempre a comer?

As pessoas indignavam-se.

— Que desaforo! — dizia uma a tremer. — Devia-se afugentar o fulano!

— Ora veja, parece que está a comer-nos!

— Sinto um calafrio pelas costas abaixo. Porque é que ninguém faz nada?

A opinião era unânime: aquele indivíduo tinha de desaparecer e com ele aquela sensação desconfortável que todos sentiam. No entanto, ninguém ousava fazer nada. As pessoas rondavam por ali, cheias de medo. O indivíduo gordo, no entanto, continuava a abocanhar e comia, comia, e o medo das pessoas crescia, crescia.

De repente, uma menina pequena dirigiu-se ao homem gordo.

— Quem és tu? — perguntou-lhe, destemidamente. — E o que estás aqui a fazer?

— Não me conheces? — ressoou o monstro. — Ah, ah, ah! Vais já ficar a conhecer-me, sua menina impertinente.

O indivíduo gordo ergueu-se em frente da menina, mostrando todo o seu tamanho. Abriu o focinho devorador, bateu os dentes e rugiu.

— Sou bem conhecido por toda a gente. Mas tu não me conheces, o Devorador de Coragem? Uááá!

Como soou horripilante! As pessoas assustaram-se. Mas a menina disse:

— Não tenho medo!

— Isso vai já mudar! — gritou o Devorador de Coragem, abrindo a boca na direcção da menina. — Apanho-vos a todos!

Mas a menina riu-se e disse em voz alta:

— Coragem, é só o que é preciso! — E repetiu uma e outra vez, e todas as pessoas se lhe juntaram:

— Coragem, é só o que é preciso!

A frase ecoava alto pela zona pedonal e, de repente, as pessoas começaram a sentir um pouco menos de medo.

O Devorador de Coragem olhou em volta, inseguro. Aquilo nunca lhe acontecera. Respirou com dificuldade. Custava-lhe cada vez mais a respirar!

— O que é que queres de mim? — perguntou a arfar. E a menina respondeu:

— Coragem, é só o que é preciso!

— Preci-ci-so! Co-co-ragem! — gemeu o monstro. Abocanhou novamente para o ar, depois esvaziou-se. Como um balão, explodiu em nada e — puff! — desapareceu.

— Agora comeu-se a ele mesmo! — exclamou a menina, rindo-se.

As pessoas sentiram-se aliviadas.

— Coragem, é só o que é preciso! — disseram a rir-se, e continuaram o seu caminho.

A menina apressou-se a ir para a escola. Já era muito tarde! Pensou na professora, que, de certeza, ia voltar a ralhar-lhe. E murmurou baixinho:

— Coragem, é tudo o que é preciso!

 

Elke Bräunling

Da wird die Angst ganz klein

Limburg, Lahn Verlag, 1998

Tradução e adaptação

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s