Da conjugação simultânea dos verbos Ler e Ouvir

Eu leio.

Tu ouves?

Quem lê histórias em voz alta, seja para os seus alunos, seja para os seus filhos, acaba sempre por se fazer esta pergunta.

Como saber se a história está a “entrar”?

É sabido que eu sou uma viciada sem qualquer tipo de sentimento de culpa nisto de contagiar com o vírus do gosto pela leitura. E os meus alvos preferenciais são… as minhas filhas e os meus alunos. Se é verdade que a experiência que vivo com umas e com outros tem muitas coisas em comum, também é verdade que é muito diferente em muitos aspectos.

Desde logo, pela idade dos meus “alvos”, que impõe escolhas e mecânicas diferentes.

Com as minhas filhas, sendo elas crianças iguais a todas as outras da sua idade, li milhões de vezes as mesmas histórias. Mas elas são muito diferentas e, se a reacção da mais velha, que “papagueava” a história mal eu virava a página, não me deixava dúvidas de que ouvia, e bem, as histórias que eu lhe lia, milhões de vezes cada uma, já a mais nova, fiel ao seu estilo “deixem-me estar”, ouvia apenas, calada. Ouviria? Um dia decidi que tinha de saber se ela prestava atenção, se a história “entrava”. Recordo-me lindamente, como compreenderão. Estávamos a ler o fantástico “Boa Noite, Ursinho!”. Na primeira história, “Uma Longa Sesta”, a Mamã porco-espinho faz uma fantástica compota de maçã. Eu “li” pêra. A rapariga saltou. A reacção dela foi exactamente como se tivesse levado um valente choque eléctrico pela perna abaixo. “Não é pêra, é maçã!” Repeti a brincadeira pela história adiante e a reacção dela repetiu-se também. Fiquei a saber que sim: ela ouvia, retia a história com todos os detalhes e esta brincadeira tornou-se numa das nossas preferidas à hora de ler.

Coloco-me este problema com os meus alunos. É sabido, porque já o partilhei aqui, que lhes leio todas as aulas. Mesmo todas. Estamos a acabar o terceiro volume de “As Crónicas de Nárnia”, de C. S. Lewis – e estamos, eu e eles, cada vez mais apaixonados por estas histórias. Os pais dizem-me que eles adoram, que têm lido imenso em casa (a mãe de uma aluna contou-me que, durante as férias do Natal, ela leu uns dez livros). Mas… será que ouvem? Será que a história entra neles como entra em mim? Como saber? Não posso fazer com eles o mesmo que fiz com a minha pequenita, porque não estão a ouvir a história pela milésima vez, não poderiam saber que eu tinha lido a palavra errada.

Já o disse, repito, repetirei até à exaustão: estes livros são riquíssimos. A história é empolgante, a escrita é maravilhosa.

A descrição da travessia do deserto, no capítulo 8 é extraordinária.

“E lá continuaram, ora a trote, ora a passo, ora a trote, tlim-tlim-tlim, range-range-range, cheiro a cavalo com calor, cheiro a pessoa com calor, brilho ofuscante, dores de cabeça, sem nada de diferente quilómetro após quilómetro. Tashbaan recusava-se a parecer mais distante. As montanhas recusavam-se a parecer mais próximas. Era como se aquilo fosse continuar para sempre – tlim-tlim-tlim, range-range-range, cheiro a cavalo com calor, cheiro a pessoa com calor.”

Este é apenas um pequeno parágrafo, mais ou menos a meio de uma descrição que se estende ao longo de cinco ou seis páginas. É um texto forte. O cansaço, o calor, o brilho ofuscante da luz, a sede, a distância imensa, a imensidão do areal. Eu li e achei: “Atravessar o deserto deve ser uma coisa horrível!” Mas e eles? Terão pensado o mesmo?

“Ora bolas! Não era uma aula de Português? Aplicava uma ficha, um guião de leitura que permitisse aferir quanto e como os alunos tinham compreendido!”

Não! Nem morta! Eu quero que eles experimentem ler pelo puro prazer da leitura. Não vou estragar uma história de que estão a gostar tanto (parece) com uma ficha de trabalho.

Hoje lemos o capítulo 13, “A Batalha em Anvard”.

O Eremita da Fronteira Sul narra os acontecimentos: quem ataca, quem defende, que cavaleiros caem, que cavalos fogem, quantos soldados atacam a linha inimiga. E, no final da batalha, lá está Rabadash (que, para quem não conhece a história, é o mau) suspenso das muralhas do castelo. “A cota de malha estava repuxada para cima, de modo que o apertava terrivelmente debaixo dos braços e lhe cobria metade da cara. Na realidade, parecia um homem apanhado a vestir uma camisa demasiado pequena.”

E foi aqui. A turma rebentou numa gargalhada. Não uma daquelas gargalhadas em uníssono, como quando uma anedota chega ao fim e está na hora de nos rirmos todos. Não. Uma gargalhada de cada um, dos que estavam de pescoço erguido, a ver, e dos que estavam com o queixo pousado nas mãos, cruzadas sobre a mesa.

E eu soube: eles ouvem, sim. Eles sabem que Rabadash não merecia menos do que aquele final ridículo.

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