Gabriel García Márquez

No dia do seu 85º aniversário, o meu autor preferido de todos os tempos, nas suas próprias primeiras frases.

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas recordava-lhe sempre o destino dos amores contrariados.

José Palacios, o seu servidor mais antigo, encontrou-o a flutuar nas águas depurativas da banheira, nu e com os olhos abertos, e julgou que se tinha afogado.

Durante o fim-de-semana os urubus enfiaram-se pelas varandas da casa presidencial, desfizeram à bicada as redes de arame das janelas e remexeram com as asas o tempo estancado no interior e na madrugada de segunda-feira a cidade acordou do seu letargo de séculos com uma morna e mole brisa de morto grande e de apodrecida grandeza.

Esta é, incrédulos de todo o mundo, a história verídica da Mamã Grande, soberana absoluta do reino de Macondo, que viveu em situação de domínio durante noventa e dois anos e morreu com fama de santidade a uma terça-feira de Setembro passado, e a cujos funerais veio o Sumo Pontífice.

Um cão cinzento com uma mancha branca no focinho irrompeu pelas estreitas ruas do mercado no primeiro domingo de Dezembro, virou mesas de fritadas, espalhou estendais de índios e barracas de lotaria e, ao passar, mordeu quatro pessoas que se lhe atravessaram no caminho.

No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo ua noite de amor louco com uma adolescente virgem.

Com um esforço solene, o padre Ángel acordou.

O coronel destapou a caixa do café e verificou que não havia mais que uma colherinha.

De súbito, como se um remoinho se tivesse instalado no centro da aldeia, chegou a companhia bananeira, perseguida pela revoada.

Estava Eréndira a dar banho à avó quando começou o vento da sua desgraça.

No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5.30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo.

O voo 115 da Ladeco, procedente de Asunción (Paraguai), estava prestes a aterrar, com mais de uma hora de atraso, no aeroporto de Santiago do Chile.

A 22 de Fevereiro, anunciaram-nos que regressaríamos à Colômbia.

Como hoje é Domingo e parou de chover, penso que vou levar um ramo de rosas à minha campa.

Antes de entrar no automóvel, olhou por cima do ombro para ter a certeza de que ninguém a seguia.

Estava sentado no banco de madeira debaixo das folhagens amarelas do parque solitário, contemplando os cisnes poeirentos, com as duas mãos apoiadas no punho de prata da bengala, e a pensar na morte.

O comboio, um comboio que depois recordaria amarelo e poeirento e envolto numa fumarada sufocante, chegava todos os dias à aldeia às onze da manhã, depois de atravessar as vastas plantações de bananeiras.

A minha mãe pediu-me que a acompanhasse para vender a casa. Tinha chegado a Barranquilla naquela manhã, vinda da aldeia distante onde vivia a família, e não tinha a menor ideia de como me havia de encontrar.

Para que tu não esqueças…

Tradução do cartoon:

Menina:Tenho que lhe dizer uma coisa, senhor… Tem no seu braço uma tatuagem sem graça nenhuma. É só um monte de números.
Senhor: Bem, teria a tua idade quando ma fizeram. Mantenho-a como uma recordação.
Menina: Oh! … Uma recordação de dias mais felizes?
Senhor: Não, de um tempo em que o mundo ficou louco.
“Imagina-te a ti mesma num país em que os teus compatriotas seguem a voz de um político extremista que não gostava da tua religião.
Imagina que te tiravam tudo, que enviavam toda a tua família para um campo de concentração, para trabalhar como escravos, e serem assassinados sistematicamente. Nesse sítio tiravam-te até o teu nome para ser substituído por um número tatuado no teu braço.
Chamou-se a isso O Holocausto, quando milhões de pessoas foram mortas só pelas sua crenças religiosas…”
Menina: Então tu usas essa tatuagem para recordares o perigo das políticas extremistas!
Senhor: Não, querida. É para que tu o recordes.

Irena Sendler

Durante a 2ª Guerra Mundial, Irena conseguiu uma autorização para trabalhar no Gueto de Varsóvia, como especialista de canalizações.

Mas os seus planos iam mais além… Sabia quais eram os planos dos nazis relativamente aos judeus (sendo alemã!)
Irena trazia meninos escondidos no fundo da sua caixa de ferramentas e levava um saco de sarapilheira, na parte de trás da sua camioneta (para crianças de maior tamanho). Também levava na parte de trás da camioneta, um cão a quem ensinara a ladrar aos soldados nazis quando entrava e saia do Gueto.
Claro que os soldados não queriam nada com o cão e o ladrar deste encobriria qualquer ruído que os meninos pudessem fazer.
Enquanto conseguiu manter este trabalho, conseguiu retirar e salvar cerca de 2500 crianças.
Por fim os nazis apanharam-na e partiram-lhe ambas as pernas e os braços e prenderam-na brutalmente.
Irena mantinha um registo com o nome de todas as crianças que conseguiu retirar do Gueto, que guardava num frasco de vidro enterrado debaixo de uma arvore no seu jardim.
Depois de terminada a guerra tentou localizar os pais que tivessem sobrevivido e reunir a familia. A maioria tinha sido levada para aa câmaras de gás. Para aqueles que tinham perdido os pais ajudou a encontrar casas de acolhimento ou pais adoptivos.
No ano de 2007 foi proposta para receber o Prémio Nobel da Paz… mas não foi seleccionada. quem o recebeu foi Al Gore por uns diapositivos sobre o Aquecimento Global.

Mãe-coragem


Sonya Carson vinha de uma família de 24 irmãos, estudou até ao terceiro ano, casou com 13 anos e criou, sozinha, dois filhos, rapazes, num dos bairros mais violentos de Detroit, uma das cidades mais perigosas dos Estados Unidos. Trabalhava como empregada doméstica em várias casas e os filhos eram os piores alunos das respectivas turmas. Um dia, ela decidiu que trabalhava demasiado para ter dois filhos mandriões, que acabariam certamente num gang, tornando-se assassinos ou sendo assassinados. Apresentou-lhes um ultimato: não podiam sair para brincar com os amigos antes de aprenderem a tabuada. A televisão ficou limitada a três programas por semana e obrigou-os a ler semanalmente dois livros da biblioteca pública. Ler os livros e escrever um resumo à mãe. Eles não faziam ideia que a mãe não sabia ler o suficiente para perceber o que eles escreviam. Até porque ela enchia as folhas de sublinhados a vermelho, fazendo parecer que tinha lido com muita atenção. O mais novo andava no quinto ano e era o pior aluno da turma. Achou que as novas regras eram tortura. O que aconteceu, no entanto, é que ele descobriu nos livros um refúgio que o protegia da violência das ruas. Dentro das capas dos livros, ele podia ser o que quisesse e corria para casa, cada vez com mais pressa, para ler. Passado um ano, ele era o melhor aluno da turma. Estudou medicina e tornou-se no mais jovem chefe de neurocirurgia pediátrica. Chefiou a equipa de cirurgiões que, numa sessão de 22 horas, separou duas gémeas siamesas, unidas pelo cérebro. O que esta mãe não tinha em estudos compensava em bom senso.

Uma família como todas as outras… ou não…

Há alguns anos, nos Estados Unidos, um rapaz oriundo de uma cidade com 3645 habitantes obteve a classificação máxima num exame de acesso à universidade. Submeteram-se a este exame 400 000 alunos e apenas 58 obtiveram a classificação máxima. Um deles era Christopher Williams. Compreensivelmente, a família viu-se de repente rodeada de jornalistas que queriam saber quais os cursos de preparação para o exame que ele frequentara. O espanto de todos foi grande quando os pais disseram que ele não frequentara qualquer curso de preparação. Mas esta era apenas uma meia verdade. Ao longo de toda a infância e adolescência, os pais liam-lhe, e ao irmão, durante trinta minutos, todas as noites, até muito depois de eles já serem leitores autónomos.
Estes pais conseguiram, sem gastar dinheiro, fazer dos seus filhos pessoas excepcionalmente inteligentes, muni-los de uma cultura geral invejável, ao mesmo tempo que criavam com eles laços estreitos através da partilha de tempo de qualidade, que, por ser propiciado pela leitura, permitiu também conhecerem-se melhor, partilhar medos, preocupações, alegrias – porque as vidas das personagens das histórias que liam lembraram medos, receios, experiências que, se não fosse pela leitura, provavelmente não teriam sido partilhadas.
Digo que o fizeram com pouco dinheiro porque não é preciso comprar livros novos todos os dias. Podemos ler aos nossos filhos os livros que fazem parte das nossas bibliotecas pessoais, podemos recorrer às bibliotecas públicas, podemos comprar livros usados. Nem tem de ser tudo novo, nem tem de ser tudo nosso.
Por outro lado, a leitura tinha um carácter eminentemente lúdico, não eram pedidas fichas de leitura, não havia classificações de testes em jogo. Não havia pressão. Apenas a partilha, em família, de tempo.

Em suma, podemos dizer que todas as actividades extra escola em que inscrevemos os nossos filhos, que nos ficam caríssimas, que nos fazem correr com eles de lado para lado, fazendo do nosso fim de dia um tempo de discussões infindáveis, cheios de expressões feias como “despacha-te!”, “estamos atrasados!” e a traiçoeira “não tenho tempo!” – quando todos precisamos de parar, de chegar a casa, de despir o dia, não são, afinal, assim tão necessárias. Ficar-nos-ia muito mais barato e o retorno do investimento seria muito maior e muito mais duradouro se dispuséssemos do nosso tempo.

Os (meus) Contadores de Histórias


Hoje, quando começámos a Oficina, os alunos – as alunas, para ser mais precisa – fizeram-me um desabafo, com um ar muito infeliz:
“Isto é pouco. Nós só vamos ler a duas escolas, só no concelho de Vizela, não vamos a outros sítios, nem a todas as escolas de Vizela. Nós podíamos ir a mais escolas: a Guimarães, por exemplo…”
Eu já vi este filme. Meteram na cabeça. Passam-me a batata quente e eu tenho de arranjar maneira de lhes resolver o problema.
O mais espantoso é que estamos a falar de crianças de 12, 13 anos que vão, na única tarde livre que têm em toda a semana, ler aos Jardins de Infância e às escolas do 1º ciclo das suas freguesias – voluntariamente. (Quantos adultos fazem trabalho voluntário?)
Mas o que fazem sabe-lhes a pouco. Querem ler em lares de terceira idade, noutros infantários, noutras escolas. E eu arranjei um colégio em Guimarães onde serão bem recebidos às sexta-feiras de tarde. O único problema é que não posso transportar mais do que quatro alunos de cada vez. Mas posso levar quatro alunos de cada vez!

Bridget Peixotto

Num período de dois anos, entre 1913 e 1915, a América seguiu atentamente uma dura batalha judicial que haveria de mudar radicalmente a forma como as mulheres eram encaradas nos locais de trabalho.

Uma professora de Nova Iorque fora despedida a 22 de Abril de 1913 por estar grávida, com as autoridades escolares a defenderem o despedimento com base em ‘negligência do dever com o propósito de dar à luz’.
Numa atitude rara para a época, a professora não aceitou a decisão dos seus superiores e levou o caso a tribunal. Dois anos depois, o processo acabaria por instituir as bases de um direito que alastraria por todo o mundo: a licença de parto. Esta professora, pioneira na luta pelos direitos laborais das mulheres chamava-se Bridget Peixotto e era membro da comunidade de judeus nova-iorquinos de ascendência portuguesa.

Bridget casara a 12 de Fevereiro de 1912 com Francis Raphael Maduro Peixotto, um corretor de seguros — que, nascido em 1860, era 20 anos mais velho que ela. Quando casou, Bridget Peixotto trabalhava já há 18 anos no sistema de ensino primário nova-iorquino, tendo passado com distinção os exames de promoção aos escalões mais elevados do magistério primário.

No ano lectivo de 1912/1913, Bridget e Francis Maduro Peixoto moravam no número 41 de St. Nichols Terrace, em Manhattan, ela era professora principal da Escola Pública 14, em Thongs Neck, Bronx, auferindo um salário anual de 2400 dólares (o que daria hoje qualquer coisa como 4500 dólares mensais).

Em Fevereiro de 1913, Bridget Peixotto adoece gravemente enquanto está grávida e notifica de imediato as autoridades escolares, tal como obrigava a lei. Na altura, no entanto, as professoras não podiam continuar na profissão depois de darem à luz, uma vez que a sociedade não via com bons olhos que uma mulher casada, e mãe de filhos, trabalhasse fora de casa.

Bridget Peixotto acabou por ser suspensa e seguidamente despedida — enquanto estava ainda no hospital depois de ter sido mãe de Helen Esther Peixotto — por ‘negligência do dever com o propósito de dar à luz’.
Não se dando por vencida, Bridget Peixotto desafia a acusação e a própria ideia de que uma mulher não poderia continuar a ensinar depois de ser mãe. Citada na página 7 da edição de 29 de Maio de 1913 do New York Times, ela afirma:

“Contestarei o caso até ao fim. O Conselho Educativo, ao permitir que mulheres casadas ensinem ao mesmo tempo que as proíbe de cumprirem uma função fundamental do casamento, está a agir de forma ilegal. É absolutamente imoral e não será apoiado por nenhum tribunal. Em nenhum lado se pode proclamar a maternidade como uma negligência do dever. É permitido às mulheres casadas ensinarem nas escolas públicas, mas nega-se-lhes tempo para que tenham filhos.”

Em primeira instância, a verdade é que o Conselho Educativo manteve a decisão, votando 27 contra 5 a favor do despedimento de Bridget Peixotto. É então que ela avança para os tribunais. Depois de ver o processo arrastar-se infinitamente, com várias decisões judiciais a seu favor, por ordem do Supremo Tribunal, em 1914 Bridget Peixotto faz uma exposição ao Comissário Estadual para a Educação, John Huston Finley, que anos mais tarde seria director do New York Times. Em resposta, Finley dá-lhe razão e escreve: ‘A Senhora Peixotto foi acusada de negligência do dever, mas não foi declarada culpada de negligência — foi sim declarada culpada de ter dado à luz.’

Finalmente, em Janeiro de 1915, numa decisão histórica, John Finley dá ordens para que Bridget Peixotto seja reconduzida nas suas funções prévias com salário pago por completo. Três anos depois, em 1918, torna-se directora da escola, mantendo-se no magistério primário em Nova Iorque até se reformar, em 1948, quando atinge a idade limite de 70 anos.

Bridget Peixotto faleceu a 10 de Abril de 1972, em Nova Iorque, aos 92 anos de idade, deixando um legado invejável. No obituário que lhe dedicou dois dias após o seu falecimento, o New York Times afirmava que ela era ‘responsável pela institucionalização da licença de parto por todo o país’ e pelo mundo: ‘O seu caso permitiu que largos milhares de mulheres pudessem tirar uma licença para dar à luz. A decisão motivou também alterações no sistema do sector privado, fazendo com que hoje seja perfeitamente normal que uma mulher possa manter o emprego quando fica grávida.’