A prenda de fim-de-ano

Chegaram as férias. As da grande são oficiais, estão consagradas no calendário escolar. As da pequena são oficiosas, estão indexadas às da irmã. O que vale ter uma avó sempre desejosa de ver as meninas livres da “prisão”…

Uma teve boas notas, tem sempre. A outra não tem notas, mas traz todas as boas informações que poderíamos desejar, portanto…

Portanto é-me muito difícil resistir à tentação de as encher de prendas. Deve acontecer com todas as mães. Por mim, se não dou muitas prendas todos os dias é por causa do exagero, não só dos presentes em si, mas também do dinheiro que tal representaria.

Estes dias, pus-me a pensar e era preciso decidir. Um jogo, com que brinquem neste Verão tão tímido. Um brinquedo. Uma boneca nova. Há sempre a hipótese de um livro, que faz as delícias tanto de uma como da outra. Mas já temos tantos em casa. E a mais velha já está na fase em que os lê uma vez e depois disso já são repetidos. Nunca foi tempo de gastar dinheiro à toa, mas nos dias que correm ainda menos. E o dinheiro gasto em livros é tudo menos “à toa”, mas… Uma boa prenda seria tempo passado com elas, sem relógio nem Internet nem telemóvel. Mas para as minhas férias a sério ainda falta. Depois vão ser prolongadas, mas isso é outra coisa. E não é agora.

Decidi que merecem tudo isto. Porque merecem. E então, para cada uma, arranjei um Cartão da Biblioteca. O presente mais barato, aquele cujo valor é inestimável. Trouxe três: um para cada uma.

E então é onde passaremos hoje a tarde. Na Biblioteca Municipal Raul Brandão, aqui em Guimarães.

Ou não. Não sabemos onde os livros nos levarão…

cartão biblioteca

da leitura com as minhas filhas

Há quase quatro anos, escrevi sobre como procurava introduzir o hábito da leitura como algo regular, religioso mesmo, com as minhas filhas. A mais velha tinha na altura três anos e a pequenina era ainda muito pequenina: tinha doze meses.

Hoje, têm sete e quatro anos e eu tenho motivos para achar que, nisto do incentivo à leitura, fiz algumas coisas bem. A mais velha é uma leitora autónoma – o que não quer dizer que tenhamos deixado de lhe ler, de todo – e a mais nova é tão ou mais viciada em livros como a mãe, o pai e a irmã. Ou os três juntos.

Fiquem por agora com este texto, enquanto termino um outro, em que conto como vai a leitura das pequenas, cá em casa, no momento presente.

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Quero que a minha filha goste de ler. Ainda mais do que eu gosto. Tenho utilizado muitas estratégias para atingir este objectivo. Já há muito, o feedback que recebo indica que vou no bom caminho. Ela gosta que se lhe conte histórias (que eu conte, para ser mais precisa), mas gosta sobretudo de ver folhear o livro, de ver passar as páginas, de ouvir ler. De me ouvir ler-lhe.

(Um pequeno apontamento: falo na minha filha, no singular, porque a pequenina acaba de completar o primeiro ano de idade – e para tudo é preciso esperar pelo momento. A minha experiência como mãe de uma futura leitora cinge-se, por enquanto, à mais velha, que tem três anos.)

É claro que ela recebeu livros como prenda de nascimento e de primeiro aniversário: as Histórias e Contos Completos de Hans Christian Andersen e As Melhores Histórias dos Irmãos Grimm, respectivamente, mas trata-se de artigos “de luxo”, lá virá a sua hora.

Não foi assim que começou.

Tratei de fazer do livro um objecto normal, do dia-a-dia dela, tal como os guizos, a chupeta, a fralda que roçava com os dedos para adormecer.

O primeiro livro que ela teve era de pano, sobre o “Fundo do Mar”. As “folhas” faziam barulho e os seus cantos eram de borracha, para massajar as gengivas aquando do aparecimento dos primeiros dentes. Tinha uma asa, para ela poder agarrar, como todos os outros guizos que se destinam a bebés de três ou seis meses.

Seguiu-se um outro livro, com ilustrações giríssimas de animais marinhos (também), que era um brinquedo para o banho. Até no banho – um rápido duche – havia espaço para ler.

Quando se tornou possível interagir um pouco mais, ou seja: quando atingiu a idade que a irmã tem agora, apareceram os primeiros livros “a sério”: pequenos, à medida das mãos dela; cartonados, para serem mais resistentes, claro; com imagens, pouco texto, mas o suficiente para ela perceber que nos livros existia informação e que essa informação lhe interessava: as vozes dos animais, os seus filhotes, os elementos da Natureza, a relação entre os meios de transporte e a função a que estão destinados, o inevitável Natal, os frutos, as cores, os vegetais… Rapidamente os leu sozinha: abria na página com a imagem do perú e “lia”: “galu, galu”. Fazia as minhas delícias.

Vendo que estes estavam a “entrar”, arrisquei outros, que já contavam uma pequena história: uns livros da Anita, pequeninos, também cartonados (o que, além do mais, lhe facilitava o folhear), com oito ou dez páginas daquelas belíssimas ilustrações acompanhadas de uma ou duas frases muito simples, que resumiam os livros da Anita que conhecemos de toda a vida. Rapidamente começou a comentar a leitura: “totó”, quando a protagonista ia brincar para a neve sem casaco nem gorro, apontava para a imagem do gato quando eu lia que ele fora visitar a Anita, convalescente, etc.. Associava o livro à pessoa que lho oferecera.

Quando tinha dezoito meses, a sua capacidade de concentração já me permitia ler-lhe as histórias de um livro que recomendo a todas as mães e que encontrei nas prateleiras de um supermercado: Boa Noite, Ursinho. Um vistoso “calhamaço” com três histórias lindíssimas que a mãe Urso lê ao seu filhote para o colocar nas asas de Morfeu: histórias sobre a hora de dormir, que surge como uma coisa boa, sem bruxas, lobos maus ou outros seres capazes de despertarem pesadelos. Aprendeu-as de cor, como seria de esperar, de tantas vezes que lhas li por sua própria insistência, exigência, até.

Entretanto, o cuidado que tinha ao manusear os livros foi evoluindo também e isso permitiu alargar o leque: aos dois anos e pouco já folheava sozinha livros de folhas finas, sendo de registar que nunca rasgou nenhum.

Quando a irmã nasceu, a três meses do seu terceiro aniversário, perguntámo-nos que prenda lhe deveria trazer, o que a faria mais feliz, que presente seria mais especial. Rapidamente concluímos que aquilo que lhe dá mais prazer são os livros.

Mais tarde, quando se tornou vital criar em casa um espaço chamado “quarto dos brinquedos”, tentei uma nova “casca de banana”: junto às quatro prateleiras que já tem repletas de livros, coloquei o seu sofá, à sua medida, e uma manta que trouxe o Pai Natal, “para pores nos joelhos, se tiveres frio”. Tenho de confessar que fiquei admirada quando a vi ir directa a esse cantinho, colocar a manta nos joelhos e escolher um livro. Pode ter sido da novidade, de ter ficado assoberbada por ver os seus brinquedos, tantos, subitamente arrumados de maneira que tinha acesso a todos, o que até aí não acontecia, mas a verdade é que já se passaram vários meses e esse continua a ser o seu cantinho favorito. Dentro e fora de casa: um sofá e um livro são os ingredientes perfeitos para um bom pedaço de tempo.

Recentemente, de um momento para o outro, tivemos de sair de casa para dormir fora, situação que, sabíamos à partida, se prolongaria por uma semana. Ficou incrédula quando, à hora de dormir, nos apercebemos de que não havia livro – apenas conseguimos encontrar dois, “de bebé”, que é o que chamamos aos livros que não têm praticamente texto, que apresentam a história muito resumida. Lá lhos li, acrescentei histórias sem livro e lá passou a primeira noite.

Quando, no dia seguinte, com mais calma, fui a casa munir-me dos “precisos” para a semana, escolhi uma série de livros e levei-lhos, dentro de uma mochila. Ao chegar, disse-lhe que lhe trazia uma surpresa. Ao perceber que se tratava de uma mochila cheia de livros por onde escolher para cada noite, o seu rosto iluminou-se num sorriso!

Quais são as suas preferências? Os contos tradicionais, sem dúvida alguma. Os Três Porquinhos, Capuchinho Vermelho, O Gato das Botas, por aí adiante. Tipicamente, ouve-os vezes sem conta, seguidas, até eu os saber de cor. Primeiro em silêncio. À terceira ou quarta vez, começa a fazer uma perguntita sobre o enredo. Quando as perguntas começam a ser muitas, é sinal de que já percebeu, já assimilou todos os detalhes que lhe são importantes. Então, passa-se a outro conto. Este processo demora vários dias, claro.

Para minha surpresa (e estou a ser sincera) há novas colecções de livros, muitas vezes inspiradas em séries de televisão, que são muito bonitos, de que ela também gosta muito e que encerram informação importante e bem transmitida sobre os valores da amizade, da entreajuda, do trabalho. Quanto a mim, o problema é que são livros que se baseiam em filmes, sendo que o filme é frequentemente mais completo e mais interessante do que o livro, contrariando aquilo a que estamos habituados.

Com os contos tradicionais, o problema que surge é de outra natureza. A fúria editorial é tamanha que algumas edições recriam as histórias. Por exemplo: tenho uma versão de Os Três Porquinhos em que, em vez de cada irmão construir a sua casa, constroem os três as três casas, em sucessivas tentativas de escaparem ao lobo mau, o que desvirtua completamente, na minha opinião, a mensagem central do conto: o arquétipo de que a união faz a força.

Não sei dizer se a minha estratégia é a perfeita, se há mais e melhores coisas que eu poderia ou deveria fazer, mas uma coisa é certa: não raras vezes, encontro-a sentada num sofá, no chão, com um livro, que “lê”, em voz alta, a si própria. Conhece mais verbos introdutores do diálogo (dos complicados) do que os meus alunos de sexto ano que obtêm classificação “C” na Prova de Aferição. Sem nunca ter convivido com famílias judias, sabe que existe e o que é um menorah.

Um livro é o que escolhe para oferecer, nos aniversários, aos amiguinhos, porque, para ela, um embrulho que faça adivinhar um livro é o que lhe desperta mais curiosidade, o que abre com maior avidez.

[texto escrito em 2009]

Um segredo para a minha Mãe

Enquanto espero pelas festas, penso em todos os Natais calorosos e maravilhosos de quando era criança, e dou-me conta de que um sorriso me ilumina o rosto. Na verdade, são tempos que vale a pena recordar! Contudo, reparo que, à medida que fui ficando mais velha, as memórias do Natal tornaram-se menos vívidas e foram-se transformando numa época triste e deprimente… até ao ano passado. Foi  nessa data que creio ter recuperado a alegria própria da infância. A alegria que  eu sentia quando era criança…

♥♥♥

Todos os anos me canso à procura de algo para oferecer à minha mãe no Natal. Mais um roupão e uns chinelos, um perfume, umas camisolas? Tudo prendas interessantes, mas que não dizem Amo-te da maneira que deviam dizer. Desta vez, queria algo de diferente, algo que ela recordasse para o resto da vida… Algo que lhe devolvesse o sorriso na cara e a ligeireza no andar. A minha mãe vive sozinha e, por muito que eu queira passar algum tempo com ela, só consigo, com o meu horário, fazer-lhe visitas esporádicas. Portanto,  tomei a decisão de ser o seu Pai Natal secreto. Mal sabia eu como acertara!

Saí e comprei todo o tipo de pequenas prendinhas e, depois, passeei-me pelas zonas  mais caras do centro comercial. Arranjei pequenas ninharias, coisas que eu sabia que apenas a minha mãe iria apreciar. Levei-as para casa e embrulhei-as, cada uma de maneira diferente. Depois, fiz um cartão para cada uma  delas. Tudo de acordo com a canção “The twelve days of Christmas.” [“Os doze dias de  Natal”]. E dei  início à minha aventura.

♥♥♥

O primeiro dia foi tão emocionante! Deixei a prenda junto à porta do apartamento  dela. Depois, apressei-me a telefonar-lhe, fingindo que era só para saber como  estava de saúde. A minha mãe estava radiante! Alguém lhe tinha deixado ficar uma prenda e assinado “Pai  Natal secreto.”

No dia seguinte, a cena repetiu-se. Quatro ou cinco dias depois, fui a casa dela, e  o meu coração quase rebentou de alegria. Tinha disposto todas as prendas em cima da mesa da cozinha e andava a mostrá-las aos vizinhos. Durante todo o tempo da minha visita, a minha mãe não parou de falar no admirador secreto… Estava no sétimo céu!

Telefonava-me  todos os dias com notícias da nova prenda que tinha encontrado ao acordar! Tinha  decidido “apanhar” a pessoa responsável por tudo aquilo e ia dormir no sofá, com  a porta completamente aberta. Por isso, nesse dia, tive de deixar a prenda mais tarde, o que a deixou aflita: será que as prendas tinham acabado?

O último dia era um sábado e o cartão dizia-lhe para se vestir e que devia ir até  ao Applebee’s para jantar. Era sinal  de que iria, finalmente, conhecer o seu Pai Natal secreto. O cartão dizia, também, que pedisse à sua filha Susan (que sou eu) para a levar lá. Acrescentava, ainda, que reconheceria o Pai Natal secreto pelo laço vermelho que ele usaria.

Fui buscá-la e lá fomos nós. Depois de chegarmos e de nos instalarmos, a minha mãe olhou em volta. Perguntava-se, sem dúvida, quando iria conhecer o seu Pai Natal secreto… Devagar, tirei o casaco e exibi o laço vermelho. A minha mãe começou a chorar. Estava mais feliz do que nunca!

Senti-me tão contente quando tudo acabou!

E lembrei-me de uma coisa muito importante: a minha mãe ensinara-me, em criança, que era melhor dar do que receber. Por isso, todos os anos em que estive triste  durante as festas, foi porque procurei mais receber do que dar.

Agora,  podia, finalmente, sentir-me feliz.

Susan  Spence,2008

(Tradução  e adaptação)

Um presente antes do Natal

christmas wreath

Ding, dong!
Mal ouvem a campainha tocar, precipitam-se a correr para as escadas.
Ding, dong!
— Eu é que vou abrir — diz Gabriel à irmã mais velha.
— Não, sou eu, é a minha madrinha que vem cá almoçar!
Matilde é a primeira a chegar à porta e abre-a toda contente. Lá está a Madrinha carregada com um grande embrulho. O Pai e a Mãe vêm recebê-la. A Mãe ri-se e ralha um pouco com a Madrinha:
— Um presente? Antes do Natal? Dás demasiado mimo à tua afilhada.
A Madrinha entrega o presente à Matilde e, enquanto despe o casaco, explica:
— Não é um presente de Natal. É um presente de Advento. É para toda a família.
Matilde e Gabriel arregalam os olhos. Um presente de Advento, o que é que poderá ser? Já têm um calendário do Advento com muitas janelinhas que se abrem, uma por dia. Não pode ser outro!
— O que é um presente de Advento? — pergunta Matilde.
A Madrinha abraça-a e diz:
— É um presente que ajuda a esperar pelo Natal e que já dá um arzinho de festa à casa! Anda lá, abre!
Matilde desfaz o embrulho e descobre uma linda coroa feita de ramos de pinheiro, com uma belíssima renda de seda vermelha. No centro, encontram-se mais quatro embrulhinhos de tamanhos diferentes. O pai e a mãe sorriem.
— Nós já adivinhámos o que é! É uma boa ideia. Obrigado!
Intrigados, Matilde e Gabriel abrem os embrulhos. Encontram quatro velas vermelhas, uma muito grande, uma menos grande, uma média e uma pequenina. A Madrinha coloca-as nos castiçais que estavam escondidos na coroa.
— Aqui têm a vossa coroa do Advento. Sabem como usá-la?
— Cada um acende a sua vela — diz Gabriel. — O pai a maior, a mãe, a outra a seguir, a Matilde a média e eu a mais pequena.
— Pode ser. Porém, as quatro velas não representam as quatro pessoas da família, mas as quatro semanas do Advento. Sabem o que é o Advento?
— É o tempo antes do Natal— diz Matilde com ares de importância.
— É quando esperamos pelo nascimento de Jesus e pelos chocolates — acrescenta Gabriel com um ar de glutão.
— É isso mesmo — diz a Madrinha. — Hoje é o primeiro dia do Advento. Portanto, acende-se a primeira vela. A maior. No próximo Domingo, a segunda. E assim por diante. É uma forma de dizer que Jesus é a luz que ilumina a nossa vida!
O Pai pousa a coroa em cima da mesinha da sala e acende a primeira vela.
— Porque é que as velas não são todas do mesmo tamanho? — pergunta Matilde.
— Porque a primeira vai arder durante mais tempo do que a última — explica a Madrinha. — E assim, na noite de Natal, têm todas o mesmo tamanho! É mais lindo assim, não?

Christine Pedotti
24 histories de Noël pour attendre Jésus
Paris, Mame, 2007
(Tradução e adaptação)

O Tomás, que não acreditava no Pai Natal

Era uma vez um menino que não acreditava no Pai Natal e fazia troça de todos os outros meninos da escola, e dos irmãos e dos primos, e de qualquer pessoa que dissesse que o Pai Natal existia mesmo e vivia no Pólo Norte.

— Isso são histórias para bebés — dizia o Tomás.

E quando via alguém a escrever uma carta ao Pai Natal, tentava agarrar o papel e, se conseguia, rasgava-o mesmo! E dizia que não era nada um dos anões do Pai Natal que vinha buscá-la.

O Tomás ia para a escola todos os dias de autocarro. A mãe levava-o até à paragem e, se fosse preciso, ele ficava lá sozinho um bocadinho à espera que o autocarro passasse. Naquele dia foi assim que fez. Mas estava tão distraído que nem reparou que o autocarro era encarnado e não cor-de-laranja. E quando ia mostrar o «passe» ao condutor, deu um salto de susto:

— O que é que faz uma rena de nariz encarnado a conduzir um autocarro!? — gritou ele.

A rena é que não ficou nada incomodada com a má-criação do Tomás e respondeu a rir:

— Sempre guiei este autocarro!

— Mas para onde é que ele vai? — quis saber o Tomás, já muito aflito.

— Para o Pólo Norte, claro. Temos de que levar pessoas de todo o mundo para ajudar a tratar dos presentes para o Natal, e por isso vimos buscá-las a casa, porque há muito poucos aviões para lá… e são muito caros.

— Mas o Pai Natal não existe e o Pólo Norte também não! — exclamou o Tomás, furioso, a bater com força com as mãos no varão onde as pessoas se seguram para não cair.

Aí ouviu-se uma gargalhada enorme, que encheu o autocarro todo. O Tomás virou-se para trás e viu que os lugares estavam todos cheios de pessoas, de duendes e ursos, e de anões e de rapazes e raparigas como ele. Iam todos para o Pólo Norte ajudar o Pai Natal, e achavam que a frase do Tomás era a mais idiota que já tinham ouvido:

— Ah, és daqueles que não acreditam em nada que não vejam — disse um duende, de orelhas em bico e chapéu verde, enfiado quase até aos olhos.

— Também não precisas de esperar muito para acreditar, porque daqui a duas horas estamos lá — acrescentou um anão, de picareta pousada no banco do lado.

O Tomás pensou: «Desde esta história dos atentados, não deviam proibir de entrar nos transportes públicos as pessoas que trazem picaretas de pontas afiadas?!»

Mas calou-se e não disse nada, porque se havia coisa que detestava, era que fizessem troça dele. Fazer troça dos outros, como fizera com todos os que acreditavam no Pai Natal, era divertido, mas ser gozado era completamente diferente…

Sentou-se no primeiro banco que viu vazio. Ufa! Ainda bem que não tinha uma daquelas criaturas sentadas ao lado a seringar-lhe o juízo.

Quando um urso polar pequenino se virou para trás e lhe deitou a língua de fora, o Tomás ainda explodiu:

— Quando a minha mãe disser à polícia que desapareci, vocês vão ver!!!

Mas aí a gargalhada ainda foi maior:

— A polícia não anda atrás de meninos que estão à guarda do Pai Natal! — disseram todos em coro.

E o Tomás achou mesmo melhor não voltar a abrir a boca.

Foi olhando pela janela e percebeu que o autocarro já não tinha as rodas na estrada, mas voava pelos céus.

O dia tinha-se transformado em noite e o Tomás, que sabia alguma coisa de geografia, percebeu que estavam a ir para muito longe. Lá ao longe via neve, e estrelas… quando na terra dele ainda eram hora de estar na escola.

— Pólo Norte, última paragem! — ouviu-se a voz da rena-motorista a gritar.

Toda a gente se levantou e começaram a empurrar-se uns aos outros, tal era a pressa de sairem.

O Tomás esperou que se fossem embora e ficou ali sem saber o que fazer. Talvez o autocarro voltasse agora para Portugal e passasse outra vez na rua dele… E assim ele voltava para casa, sem se assustar mais. Porque o Tomás estava assustado… E um bocadinho envergonhado.

Mas não teve sorte nenhuma, porque, quando levantou os olhos, viu o Pai Natal em pessoa, de pé, parado ao lado do banco onde estava sentado.

— Não me vens ajudar a fazer presentes de Natal? — perguntou o senhor de barba muito branca.

«Realmente, parece o Pai Natal», pensou o Tomás, «se o Pai Natal existisse, claro». E porque o Tomás era teimoso e não gostava de dar o braço a torcer (quem é que gosta?), ainda estendeu a mão para puxar a barba, não fosse isto tudo ser um teatro e o Pai Natal um daqueles velhos que trabalham nos centros comerciais. Mas a barba não saía, e o Tomás percebeu que nada daquilo era um sonho e que estava mesmo no Pólo Norte. E que aquele era o Pai Natal de carne e osso.

E como o Tomás era casmurro, mas não era burro, percebeu que se tinha enganado e que, já que estava ali (e ainda por cima não tinha de ir à escola!), o melhor era divertir-se o mais que podia. Durante muitos dias, ajudou a fazer e a embrulhar presentes para todos os meninos do mundo, e ficou muito amigo de duendes, anões, ursos e renas, e de todas as outras criaturas estranhas que por ali apareciam.

Mas, uma noite, não conseguiu adormecer. Não queria dizer nada a ninguém, mas estava triste porque sabia que não tinha mandado nenhuma carta ao Pai Natal e que, por isso, não ia receber presentes.

— E até é bem-feito, para ver se aprendo a não ser estúpido — pensou baixinho o Tomás, cheio de remorsos por ter rasgado as cartas dos irmãos mais pequenos e de ter troçado tanto dos amigos.

Mas, na manhã seguinte, o Urso Polar Grande, que era tio dos mais pequeninos, veio ter com ele às escondidas e deu-lhe um papel e um lápis:

— Escreve depressa a tua carta, que eu depois meto-a no cesto das cartas que o Pai Natal ainda não abriu.

O Tomás nem queria acreditar na sorte que tinha! E escreveu, escreveu e escreveu, porque sabia que era tudo verdade.

Na noite de Natal, o Pai Natal levou-o com ele no trenó e deixou-o cair pela chaminé com os presentes para a mãe, para o pai e para os irmãos. A mãe nem ligou aos presentes dela, só queria pegar no Tomás ao colo e enchê-lo de beijinhos. O Tomás dizia:

— Blhec, mãe, não me lambuze todo… — mas continuava muito encostadinho a ela.

A mãe fez-lhe um leite com chocolate quente e, quando ia metê-lo na cama, disse:

— E já foste ver se o Pai Natal te deixou alguma coisa na tua Meia de Natal? – (nesta casa punham meias ao fundo da cama, em lugar de sapatos na chaminé).

Mas o Tomás abanou a cabeça e respondeu:

— Acho que não tenho nada, porque o Pai Natal deixou-me cá com todos os presentes e eu não vi nenhum para mim.

Só que, quando olhou para a meia, ela estava cheia de presentes até acima. O Tomás ficou tão comovido (que é quando os olhos picam de lágrimas e um nó bom aperta a garganta), que foi a correr para a janela para ver se ainda ia a tempo de agradecer ao Pai Natal.

Lá longe, viu um trenó e um homem de barbas brancas a dizer-lhe adeus. O Tomás, naquela excitação, chamou a mãe:

— Mãe! Mãe! É o Pai Natal! A mãe consegue vê-lo?

— Claro que consigo — disse a mãe.

E conseguia mesmo.

Isabel Stilwell
Histórias para contar em 1 minuto e ½
Lisboa, Verso da Kapa, 2005
adaptado

Lendo “O Dia-da-Presença”

Há vários aspectos a reter nesta história do Jorge. O mais importante é o paralelo que se estabelece entre brincar com os pais e festejar o aniversário. O aniversário festeja-se uma vez por ano, daí ser um acontecimento mágico. Para o acto de brincar com os pais ser igualmente mágico tem de ser igualmente raro. Sendo os filhos o bem mais precioso que temos na vida, como não arranjamos tempo para estar com eles – a brincar ou a fazer qualquer outra coisa?

Na verdade, levamos sempre uma vida tão agitada que os dias começam e acabam sem darmos conta e sem conseguirmos fazer nada que nos dê prazer. E todos os dias juramos que Hoje vai ser diferente. Hoje, quando for buscá-los à escola, vou estar de cara alegre, vou ter calma enquanto os ajudo a fazer os trabalhos de casa, não vou levantar a voz.

Mas acabamos por cair numa tentação, sempre a mesma: Então, que fizeste na escola? Com quem brincaste? Tens testes marcados? Quando são pequenitos, respondem com silêncio, mas à medida que vão crescendo verbalizam o que lhes vai na alma: Lá vem o interrogatório!

Eles têm razão. Coloquemo-nos no lugar deles: quando chegamos a casa, no final de um dia de trabalho, o que nos apetece é despir o dia. E se enfrentássemos uma série de perguntas sobre o patrão prepotente, o colega falso, o cliente que não paga, o fornecedor que falhou… Socorro! Deixem-me chegar a casa! Eu quero tirar os sapatos, mudar de roupa, chegar a casa! Já repararam como por vezes o simples gesto de fechar a porta de casa atrás de nós nos acalma, como se todos os problemas ficassem do lado de fora?

Os nossos filhos também precisam de sair do trabalho, que, no caso deles, é a escola, precisam de chegar a casa. Ao tentar saber tudo sobre o dia deles, estamos a impedi-los de fechar esse capítulo do dia, a obrigá-los a permanecer no trabalho.

Mas a verdade é que, quando são muito pequenos e os deixamos no infantário, parece que passamos o dia inteiro sem um braço ou sem uma perna e quando vamos buscá-los ao fim do dia precisamos de reaver aquele pedaço de vida deles de que estivemos ausentes. Então como conseguir isso sem fazer o tal interrogatório? Através da leitura.

Se conseguirmos criar o hábito de ler todos os dias com os nossos filhos, à noite, ao deitar, que é aquela hora mágica em que eles relaxam e se confessam, matamos muitos coelhos com a mesma cajadada. A história à hora de deitar pode funcionar como uma trégua, depois de todas as birras e ralhetes.

Criamos uma relação de proximidade com eles que vai fazer com que nos contem, sem que perguntemos, as coisas importantes que se passaram durante o dia. Mas fazemos muito mais do que isso. Fazemos com que eles associem a leitura a um momento de prazer, como um oásis de tranquilidade no fim de mais um dia agitado. Identificando a leitura com um momento de prazer, eles aprendem a gostar de ler e, na mais básica relação de causa e efeito, tornam-se bons alunos.

Devemos começar a ler-lhes muito cedo. Tão cedo quanto possível. Devemos ler aos nossos filhos a partir dos primeiros meses, das primeiras semanas, dos primeiros dias de vida. Nunca é cedo de mais. Mas também nunca é demasiado tarde para introduzir um novo bom hábito.

Ler a um filho é a contribuição mais importante que um pai ou uma mãe pode dar para o seu sucesso escolar. Embora diversos agentes educativos enfatizem a importância de fornecer um local de estudo adequado, com boa iluminação, silêncio, etc, uma criança que tenha competências de leitura e de escrita insuficientes nunca alcançará bons resultados escolares.

Um bom leitor tem um vocabulário rico e sabe utilizar correctamente a linguagem oral e escrita, de forma a veicular adequadamente as suas ideias – e obterá bons resultados académicos em todas as áreas, tanto das letras como das ciências. O motivo é muito simples: as capacidades de compreender um problema de Matemática, um texto em Ciências e de responder a um teste de História dependem da fluência de linguagem que a criança possui.

A pergunta que os pais fazem com mais frequência é esta: A partir do momento em que aprende a ler, não deve ser a própria criança a ler? Esta é uma pergunta legítima. Afinal, o que vai condicionar o sucesso escolar da criança é a sua própria capacidade para utilizar a língua – não a dos pais. Acontece que ler a uma criança é a melhor maneira de a tornar fluente na leitura autónoma. O aspecto que distingue as crianças que aprendem a ler sozinhas não é o seu QI, nem o nível socioeconómico ou académico dos pais, mas o facto de os seus pais lhes lerem regularmente, frequentemente, a partir dos materiais mais variados.

Muitos pais são muito cuidadosos com a leitura aos filhos, por exemplo à hora de deitar, mas deixam de lhes ler quando entram na escola, supondo que, uma vez que está a aprender a ler, a criança deve ler sozinha. Na verdade, os pais devem continuar a ler aos seus filhos ao longo de toda a infância e até à adolescência.

Uma criança em idade pré-escolar beneficia da leitura efectuada por um adulto porque é exposta ao nível de linguagem que um dia utilizará, da mesma forma que uma criança de dez anos beneficia ao ouvir um nível de linguagem mais difícil do que já consegue utilizar. Um texto complexo, em estrutura e vocabulário, para um aluno de oitavo ano pode ser complicado de ler, mas facilmente compreendido se for ouvido. Os mecanismos cerebrais envolvidos na audição e na leitura são diferentes.

Sabemos que educamos sobretudo pelo exemplo. Além de ler aos filhos, incutiremos neles o gosto pela leitura se eles nos virem ler. Se eles perceberem que, para nós, ler é bom, vão querer ler também.

E devemos criar em casa um clima favorável à leitura. Devemos ter livros, jornais, revistas… Todo o tipo de material de leitura. E devemos colocá-lo à mão de semear: nos locais onde as pessoas estão paradas, sem distracção… Um cesto com livros na casa de banho, outro junto à mesa da cozinha (quem nunca leu o rótulo de uma caixa de cereais?), basicamente… espalhemos material de leitura por toda a casa.