Burros & Livros

Chama-lhes “biblioburros”. Os animais são baratos, fiáveis, não precisam de gasolina e vão a quase todo o lado. Um homem leva livros em cima de asnos a aldeias porque acredita que, se houver bastantes pessoas a apaixonarem-se pelas histórias, poderá quebrar-se o ciclo de 40 anos de violência entre os guerrilheiros e as forças paramilitares.
Todos os fins-de-semana, Luís Soriano e dois burros carregados atravessam montes e vales no Norte da Colômbia, onde aldeias como El Dificil e El Tormento receberam estes nomes, e bem, porque a única forma de lá chegar é através de trilhos tortuosos.

A missão de Soriano é quixotesca e a carga dos burros é preciosa: caixotes com 160 livros destinados às aldeias isoladas, onde os residentes não têm virtualmente acesso à leitura, para além de alguns textos da escola primária, em folhas já marcadas por muitas dobras, e Bíblias.
Há cinco anos, esta biblioteca itinerante, a que Soriano chama “biblioburros”, é a única nesta pobre e remota zona rural. “As pessoas daqui adoram histórias”, diz Soriano, de 32 anos, antigo livreiro de uma aldeia do estado da Magdalena. “E eu tento, à minha maneira, manter vivo esse entusiasmo.”
Soriano apaixonou-se pelos livros aos seis anos, e licenciou-se em Literatura espanhola depois de ter estudado com um professor que se deslocava à aldeia, duas vezes por mês. Esta paisagem rude, onde viveu toda a sua vida, poderá fazer despistar qualquer meio de transporte com rodas, enquanto os animais, penosamente, lá vão progredindo. “Os animais são baratos, fiáveis, não necessitam de gasolina e podem ir praticamente a todo o lado”, observa.
Numa pasta vermelha, Soriano guarda uma lista dos títulos que os aldeãos pedem com maior frequência. Embora a sua biblioteca itinerante inclua romances, histórias e textos medicinais, os livros mais populares são as histórias infantis com acontecimentos incríveis, em locais improváveis, onde os animais se assemelham aos homens e são os heróis. Talvez seja por isso que Soriano e os seus burros se enquadram tão bem aqui.
Antes da sua volta semanal, à noite, Soriano coloca os livros em bolsas de plástico individuais, fechadas em capas de lona. Arruma as capas em pacotes do tamanho de pastas, aconchegando-as em caixotes de madeira que prende nas selas dos burros. Soriano tem apenas duas regras para quem quer ler os livros: lavar as mãos e não escrever nas páginas. Ele sabe quem levou este ou aquele livro, mas declara confiar mais no sistema da honestidade. “Talvez seja uma das únicas bibliotecas do mundo onde as pessoas vêm com as suas mochilas e não são controladas à saída”, observa Soriano.
Antigamente, Soriano levava uma vida mais normal, pois era dono de uma loja de abastecimento e tinha uma família para criar. Lia por prazer e tinha em casa uma biblioteca com cerca de 80 volumes. Depois, começou a emprestar os seus livros, vasculhando, pedindo e emprestando para obter mais. Acabou por aumentar a colecção para 4800 livros. A sua mulher, Diana, estava cada vez mais desesperada com falta de espaço para criar os três filhos. “Ela costumava perguntar-me: O que vais fazer, comer livros com arroz?”, conta Soriano.
Há três anos, Soriano encontrou um patrocinador. Addis Marilyn, director da biblioteca municipal de Santa Marta, uma cidade a cerca de 300 quilómetros, situada na costa das Caraíbas, ouviu falar do que ele fazia e convidou-o para trabalhar como uma sucursal sua. Aproveitando a ideia de Soriano, Marilyn patrocinou outros dois projectos de “biblioburros”. Actualmente, os três partilham um orçamento que ronda os sete mil dólares (5700 euros).
Soriano diz não ter tido sorte ao pedir ajuda às autoridades locais para montar uma biblioteca decente, mas o governo nacional interessou-se mais. Ainda há pouco tempo, um senador propôs-lhe criar uma rede de bibliotecas transportadas por burros para todas as zonas rurais da Colômbia.
Para se preparar para esta viagem, uma jornada de três horas até à aldeia de Las Planadas, além dos livros, Soriano embalou também 40 máscaras de porquinho que conseguiu obter com a ajuda de Marilyn. Pretende distribui-las às crianças da aldeia antes de estas lerem “Os Três Porquinhos”. Como idealista que é, Soriano pensa que, se houver bastantes pessoas a apaixonarem-se pelas histórias, poderá quebrar-se o ciclo de 40 anos de violência entre os guerrilheiros e as forças paramilitares.
Os soldados paramilitares, que alegadamente usam os lucros da venda de droga para financiar um sistema de intimidação e ameaças de morte, controlam grande parte das aldeias da região. Mas Soriano diz que ele e os seus burros se mantêm afastados de tudo isso e, em troca, os militares respeitam-no. Muitas das crianças não sabem ler, por isso, ele ensina-as frequentemente. Por vezes, também ensina os pais.
Alberto Mendoza, de 11 anos, ajoelha-se juntamente com os outros. A sua família, ao contrário das das restantes crianças, tem um livro em casa. “Temos um livro”, declara, “A Bíblia.” Numa visita anterior, Soriano mostrara a Alberto um livro ilustrado sobre um filhote de urso que passa uma tarde inteira a construir castelos na areia e a regar um jardim cheio de flores com o seu avô. Hoje, esse mesmo livro encontra-se pendurado numa árvore. Quando Soriano termina a história e diz às crianças que podem escolher os livros que querem, Alberto corre para a árvore e agarra o livro do ursinho antes que alguém consiga lá chegar.

Colômbia / Missão Quixotesca / Texto: Monte Reel
Exclusivo Público/Washington Post

Gabriel García Márquez

No dia do seu 85º aniversário, o meu autor preferido de todos os tempos, nas suas próprias primeiras frases.

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas recordava-lhe sempre o destino dos amores contrariados.

José Palacios, o seu servidor mais antigo, encontrou-o a flutuar nas águas depurativas da banheira, nu e com os olhos abertos, e julgou que se tinha afogado.

Durante o fim-de-semana os urubus enfiaram-se pelas varandas da casa presidencial, desfizeram à bicada as redes de arame das janelas e remexeram com as asas o tempo estancado no interior e na madrugada de segunda-feira a cidade acordou do seu letargo de séculos com uma morna e mole brisa de morto grande e de apodrecida grandeza.

Esta é, incrédulos de todo o mundo, a história verídica da Mamã Grande, soberana absoluta do reino de Macondo, que viveu em situação de domínio durante noventa e dois anos e morreu com fama de santidade a uma terça-feira de Setembro passado, e a cujos funerais veio o Sumo Pontífice.

Um cão cinzento com uma mancha branca no focinho irrompeu pelas estreitas ruas do mercado no primeiro domingo de Dezembro, virou mesas de fritadas, espalhou estendais de índios e barracas de lotaria e, ao passar, mordeu quatro pessoas que se lhe atravessaram no caminho.

No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo ua noite de amor louco com uma adolescente virgem.

Com um esforço solene, o padre Ángel acordou.

O coronel destapou a caixa do café e verificou que não havia mais que uma colherinha.

De súbito, como se um remoinho se tivesse instalado no centro da aldeia, chegou a companhia bananeira, perseguida pela revoada.

Estava Eréndira a dar banho à avó quando começou o vento da sua desgraça.

No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5.30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo.

O voo 115 da Ladeco, procedente de Asunción (Paraguai), estava prestes a aterrar, com mais de uma hora de atraso, no aeroporto de Santiago do Chile.

A 22 de Fevereiro, anunciaram-nos que regressaríamos à Colômbia.

Como hoje é Domingo e parou de chover, penso que vou levar um ramo de rosas à minha campa.

Antes de entrar no automóvel, olhou por cima do ombro para ter a certeza de que ninguém a seguia.

Estava sentado no banco de madeira debaixo das folhagens amarelas do parque solitário, contemplando os cisnes poeirentos, com as duas mãos apoiadas no punho de prata da bengala, e a pensar na morte.

O comboio, um comboio que depois recordaria amarelo e poeirento e envolto numa fumarada sufocante, chegava todos os dias à aldeia às onze da manhã, depois de atravessar as vastas plantações de bananeiras.

A minha mãe pediu-me que a acompanhasse para vender a casa. Tinha chegado a Barranquilla naquela manhã, vinda da aldeia distante onde vivia a família, e não tinha a menor ideia de como me havia de encontrar.

Crucifiquem-me

Como professora de Língua Portuguesa, quero que os meus alunos aprendam tudo sobre o texto narrativo, o texto poético e dramático. Quero que dominem a morfologia e a sintaxe. Que se exprimam oralmente e por escrito com crescente mestria.
Mas se eu não conseguir nada disto e se os meus alunos saírem da minha sala a gostar de ler, aí sim. Terei atingido o meu objectivo mais querido, aquele que me tira da cama todos os dias.
É por isso que lhes leio tanto, quase todas as aulas. E eles já me apanharam o pulso. Sabem que há sempre novidades, e sabem que eu estou sempre mortinha por lhes ler mais um conto.

Uma longa sesta

A Família Porco-Espinho leva a questão do sono tão a sério que faz questão de dormir durante todo o Inverno. Mas ainda havia tanto para preparar… o que o Chico, o filho mais velho, gostava mesmo de fazer era recolher maçãs para o famoso sumo e a não menos conhecida compota da Mamã Porco-Espinho, pois podia sempre dar uma dentada aqui e ali… só para ver se as maçãs estavam suficientemente maduras!
Realmente, a Mamã Porco-Espinho fazia tanto sucesso com o sumo e a compota que as amigas estavam sempre a pedir a receita.
– É segredo! – respondia-lhes ela, mas depois brindava-as com uma garrafinha de sumo ou uma bela compota…
Ora, talvez o segredo da sua receita fosse a colaboração de todos os membros da família: enquanto a Mamã cozia as maçãs para fazer a compota, o Chico ajudava o Papá a fazer o sumo, a Quica decorava e colava os rótulos nas garrafas e nos frascos, e o Tico, o bebé da família, provava o resultado final e dava a sua opinião!
– Ele é que tem sorte! – exclamavam o Chico e a Quica, rindo-se.
Mas o tempo corria depressa e a Família Porco-Espinho tinha mesmo de ultimar os preparativos. O Papá pedira aos gansos para guardarem as penas que lhes fossem caindo, e eles assim fizeram. Agora, em troca de umas compotas de maçã, a Família Porco-Espinho recebia um enorme saco cheio de penas de ganso, que utilizaria para fazer a colcha cor-de-rosa que a Quica tanto queria. E era ela própria quem ia fazê-la! Mas seguindo as indicações da mão e com a ajuda do Chico, depressa a acabou.
– Está a nevar! – gritou ela uma manhã, ao espreitar pela janela.
– Então, temos de nos despachar! – disse o Papá Porco-Espinho, colocando mais lenha no fogão de sala, para que a casa ficasse quentinha o Inverno todo.
– Vais dormir uma bela e longa soneca – explicava a Mamã ao Tico, que ia fazer a sua primeira hibernação.
– É que está a chegar o Inverno, vês? – continuava o Chico, apontando para o calendário. – E no Inverno costumamos hibernar, pois está muito frio para brincar… Hihihi!
Então, todos os membros da Família Porco-espinho vestem os seus pijamas, e o Papá programa o despertador que os acordará na Primavera. Era um despertador diferente, pois em vez de mostrar as horas, mostrava as estações do ano. A melancia representava o Verão, a castanha simbolizava o Outono, o azevinho indicava o Inverno, e a flor…
– Já está! Já programei o despertador para nos acordar na Primavera… Quando aparecerem as primeiras florzinhas, o despertador dará sinal – anunciava o Papá, olhando para os filhotes.
O Tico já dormitava, e o Chico e a Quica já bocejavam, sinal de que estava na hora… de iniciarem uma longa sesta.

– Dorme bem, Mamã!
– Dorme bem, Papá!
– Dorme bem, Chico!
– Dorme bem, Quica!
– Dorme bem, Tico!

Anna Casalis
Boa Noite, Ursinho!
Edições Asa, 2007

diz uma aluna…


A Oficina de Leitura é um projecto que tem vindo a fortalecer as crianças, desde os pequeninos aos mais velhos. Sem dúvida nenhuma, este Projecto tem uma boa função: normalmente, em todas as idades, sejam crianças, adolescentes ou adultos, não mostram interesse pela leitura. O nosso Projecto tem o desafio de despertar em todos o gosto pela leitura e nestes últimos tempos temos vindo a observar bons resultados. Vamos ler às escolas e os meninos pedem sempre mais, e vê-se na carinha de todos que gostam das histórias que lhes são lidas, e ver isso em todos ainda nos dá mais prazer de lhes ler, de passar mais tempo com eles.
Falo por mim, e penso que todos os que estão neste grupo o dizem também: nós, que chegámos a esta escola pequeninos, traquinas, sem interesse e sem preocupação pelas disciplinas, principalmente a disciplina de Língua Portuguesa que é o que se aplica aqui, a professora Eduarda Abreu conseguiu despertar em nós aquele gosto pela leitura que estava adormecido em nós, através de pequenos contos, exercícios de relaxamento… parecia que quando ouvia aquelas histórias suaves, maravilhosas a entrarem pelos meus ouvidos, parecia que entrava num mundo fora da realidade, e além do mais esquecia todos os problemas que uma criança tem, sejam em casa, na escola, tudo, era como se entrasse nas histórias ou vivesse um Conto de Fadas. Não sei se aconteceu com alguém, mas comigo aconteceu, num dos exercícios de relaxamento que a professora Eduarda fez eu consegui ver a imagem de uma pessoa muito próxima, não cheguei a conhecê-la, só a conhecia por fotografias, parecia que comunicava com ele e fiquei um bocado assustada, mas no entanto percebi que foi bom aquele momento, principalmente depois de desabafar com a professora Eduarda e ela me dar um ombro amigo.
Entrar nesta Oficina, para mim, foi um desafio muito bom de superar, fiquei mais culta, e de certa forma também contribuiu para a minha maturidade.
Não me arrependo de passar as sextas-feiras de tarde rodeada de meninos pequeninos, que me surpreendem de dia para dia, gostarem tanto da leitura, e eu que me arrependo de não ter podido passar assim pequenos momentos, que me lessem contos, para viver uma vida ainda mais feliz, mas aproveito agora, para que não me escape nenhum menino de se vir a arrepender do que eu me arrependi.
Queria que este projecto continuasse, para continuarmos a fazer a nossa função e dar a oportunidade a adolescentes da nossa idade entrarem também neste Projecto.
Peço mesmo, do fundo do meu coração que este Projecto continue!

Grampa-Lop

Deep within the forest of dreams lies a gnarled thicket of wood. The branches fold out far above to form a rich green umbrella that protects all the creatures that live here from the crystal spring showers of early April and May. The rains fall for an hour, maybe two, and then the sun, with rays like golden ribbons at a county fair, streams through the leaves to the ground below.

It was in this thicket that the rabbits of the forest lived and played all their lives. There were rabbits with big fluffy tails and rabbits with barely any tails at all — short ones, fat ones, skinny ones, fluffy ones, and one very old rabbit called Grampa-Lop.

Grampa-Lop was so old that his fur had long since turned to grey. He wore a tattered scad-wrapped around his neck, and always carried a twisted stick that he used for a cane.

Every afternoon at about two or three, Grampa-Lop would sit on his favorite stump and enjoy the warmth of the sun. He would sit quietly until — without his noticing — all the young rabbits would gather around his feet. They would try to be quiet, but it was so hard that a couple of them had to stuff their ears in their mouth to keep from laughing.

Grampa-Lop would lean back on the stump, look around, and begin in a very soft, low voice: “Once upon a time, in the land of mist and magical things, there was an enchanted forest…”

As he would slowly tell the tale, a very strange and wondrous thing would happen. Grampa-Lop would begin to stand straighter and straighter. The sunlight would flash from his brown eyes and sparkle throughout the forest. And his fur would glow.

The little rabbits would be totally enchanted as he recounted his tale, because suddenly the very old Grampa-Lop would become the Wizard of the Wood. Most of the rabbits would get so caught up in the story itself that they wouldn’t even know that he had finished. He would have to say, “Now, little bunnies, it’s time you were on your way.” And with that they would scamper back to the thicket in the wood.

Now, the older rabbits were becoming more and more concerned about the little ones. One day, after the little bunnies had disappeared as usual, the older rabbits all gathered together at the thicket.

“I wonder where they go?” they asked themselves. “Every day they disappear at the same time.”

“I bet they go off and see that old, useless rabbit, Grampa-Lop,”’ said one. “I just know they’re up to no good!”

They chittered and chattered for a while and then decided that when the little rabbits returned that afternoon they would find out exactly what was going on.

Sure enough, right on schedule, the little rabbits returned and, as agreed, the older rabbits asked where they
had been.

“Well,” one said, “we went into the forest to see Grampa-Lop and he told us a wondrous story of the woods. When he told us the story, the most wonderful, magical thing happened. Grampa-Lop became the Wizard of the Wood!”

“I knew it!” fumed one of the older rabbits. “That old rabbit is teaching these kids nothing but a pack of lies.”

“But it’s true!” chorused the little rabbits. “When he tells us stories, stars and sparks appear. It’s magic.”

The older rabbits hopped off to one side and muttered to each other, occasionally looking over their shoulders. Finally, they stormed back to the children.

“We’ve decided that you are lying because there is no such thing as magic. For that you are to go to bed right this instant, with no supper, and from now on you are forbidden to see this Grampa-Lop ever again!”
With tears streaming from their eyes, the bunnies all shuffled off to their beds. They had heavy hearts and very empty stomachs.

The next day, as usual, Grampa-Lop sat on his favorite stump, soaking up the warm sunshine and waiting for the little rabbits to appear. He sat, and he sat, and he must have dozed off, for he woke with a start as the sun was just about to set. Much to his amazement, there were no baby bunnies, none whatsoever.

“Maybe they forgot,” he thought, “but surely they’ll remember tomorrow.” With that, he hobbled off to his burrow in the wood.

The next day and the next, a saddened Grampa-Lop waited and waited for the children who never came. Finally, in desperation, he began hopping towards the thicket in the wood, searching for some sign of the bunnies.

As he hobbled down the twisted path, leaning heavily on his cane, he came upon one of the older rabbits.
“Good day to you,” he said as he bowed stiffly. “I’m looking for all the little rabbits of the wood. You see, I used to tell them stories but they’ve stopped coming to see me.”

“A good thing, too!” snorted the older rabbit. “All those bunnies ever learned from you was to lie and tell their own stories.”

Grampa-Lop was shocked. “But I never taught them to lie,” he said. “I only told them the wondrous and magical tales of the forest.”

“You won’t anymore,” huffed the rabbit as he hopped quickly back to the thicket.
With a tear trickling down his cheeks, a much older and sadder Grampa-Lop went back to his burrow in the wood.

With nothing to occupy his days now, Grampa-Lop wandered aimlessly about the forest. Once or twice he even went to the thicket in the wood, but as soon as he appeared, the older rabbits would herd the little bunnies to the opposite side.

“Go away!” they shouted. “Old, old rabbits aren’t wanted in our thicket.” With that, all the rabbits scurried to their burrows.

All alone, Grampa-Lop would hop away from the thicket and return to his part of the woods.

The baby bunnies did as they were told, but they could never forget the magic of the Wizard of the Wood. Sometimes, when they were all alone, they would whisper about how much fun it had been, but most of the time they would just shuffle about the thicket, making dust and feeling very sad.

The older rabbits tried to cheer them up, and sometimes they would even tell a story; but it just wasn’t the same.

It got so bad that the little bunnies began to bicker among themselves. It would start innocently with one bunny bumping another bunny, but it always ended in a tangle of arms, legs, and ears as they wrestled on the ground.

Finally, some of the older rabbits couldn’t stand it any more and called all the rabbits together.

“This has got to stop,” they said. “With all this moping and bickering, nothing is getting done. Food isn’t being collected, new burrows aren’t being built, and winter’s coming.”

“If we could just hear the magical stories of Grampa-Lop,” said one of the bunnies, “we wouldn’t get into so much trouble.”

“But there is no such thing as magic!” fumed the older rabbits. “You lied about that before.”

“We didn’t lie. We told you the truth, and if you’d go with us we’d show you that there really is magic.”
The older rabbits thought for a moment and then decided. “We will indeed go with you to your Wizard of the Wood, if only to prove that there is no such thing as magic.”

They all hopped into the forest and down the long, twisty trail to the stump where Grampa-Lop sat waiting.

He sat as he had always sat, sunning himself and gazing softly into the sky. The little bunnies quickly sat at his feet, while the older rabbits sat disbelievingly on an old, rotting log.

Grampa-Lop leaned back and, with a gleam in his eye, began in a very soft, low voice: “Once upon a time in a land of mist and magical things there was an enchanted forest…”

The older rabbits looked on in wonder as Grampa-Lop began to stand straighter and straighter. The sunlight began to flash from his bright brown eyes as he told the tale, and sparkles of magic began to twinkle in the forest around them. As the story wore on, his fur turned from grey to silver, and he truly became the Wizard of the Wood.

All the rabbits, young and old, were totally enchanted as the story came to a beautiful ending. The moment was so beautiful, some of the older rabbits even had tears in their eyes.

No one said a word, so afraid were they to break this magical spell; but one by one they rushed to Grampa-Lop and hugged him with all the love in their hearts.

The older rabbits never apologized for the wrong they had done the bunnies and Grampa-Lop, for everyone knew that sometimes even older rabbits make mistakes, too. But every day now, at exactly the same time, all the rabbits hop from the thicket and rush to listen to Grampa-Lop become the Wizard of the Wood.

LISTEN TO THE OLDER ONES,
THEIR GOLDEN STORIES TRUE;
THEN REMEMBER GRAMPA-LOP
AND THE MAGIC HE SHOWED YOU.

Stephen Cosgrove
Grampa-Lop
Los Angeles, Sloan Publishers, Inc., 1981

Os (meus) Contadores de Histórias


Hoje, quando começámos a Oficina, os alunos – as alunas, para ser mais precisa – fizeram-me um desabafo, com um ar muito infeliz:
“Isto é pouco. Nós só vamos ler a duas escolas, só no concelho de Vizela, não vamos a outros sítios, nem a todas as escolas de Vizela. Nós podíamos ir a mais escolas: a Guimarães, por exemplo…”
Eu já vi este filme. Meteram na cabeça. Passam-me a batata quente e eu tenho de arranjar maneira de lhes resolver o problema.
O mais espantoso é que estamos a falar de crianças de 12, 13 anos que vão, na única tarde livre que têm em toda a semana, ler aos Jardins de Infância e às escolas do 1º ciclo das suas freguesias – voluntariamente. (Quantos adultos fazem trabalho voluntário?)
Mas o que fazem sabe-lhes a pouco. Querem ler em lares de terceira idade, noutros infantários, noutras escolas. E eu arranjei um colégio em Guimarães onde serão bem recebidos às sexta-feiras de tarde. O único problema é que não posso transportar mais do que quatro alunos de cada vez. Mas posso levar quatro alunos de cada vez!

Conto Contigo

Havia há muito decidido desenvolver uma actividade de incentivo à leitura que envolvesse não só os alunos, mas também o seu agregado familiar. Comecei por “sondar” se os alunos estariam receptivos a ler os contos que eu queria que eles lessem. Logo no início do ano, na primeira aula, em jeito de boas vindas, li-lhes um conto, o Encontro com a Dama das Histórias, de que me pareceu terem gostado muito. Passados uns dias, li um outro e, desta vez, mostraram-se tão entusiasmados que decidi aceder ao seu pedido de lhes fotocopiar conto (O Relógio da Avó).
Quase todas as semanas, e porque eles sabem que tenho sempre contos novos “na manga”, lia-lhes mais um, no final de uma aula que acabasse uns minutos mais cedo, por exemplo.
Como prenda de Natal, ofereci-lhes um novo conto, com uma lindíssima mensagem natalícia: A Surpresa do Pai Natal. Foi como se lhes tivesse dado o Sol.
Entretanto, fui perguntando se falavam dos contos em casa, se liam com os pais os que levavam fotocopiados. Que sim, que os pais adoravam, que queriam voltar a lê-los. Estava preparado o terreno.

Escolhi alguns contos, juntei-lhes um pequeno papelinho: “Gostou de conto que o seu filho leu? Porquê?” e três linhas para o adulto explicar por que tinha ou não gostado. Pequenino o papel e pouco espaço para escrever. Não podia assustá-los pedindo um relatório…
Pensava eu que o terreno estava preparado e que os pais, pelo menos num número aceitável, viriam a aderir à actividade. Enganava-me, no bom sentido. Em resposta ao primeiro conto, recebi duas cartas: “a minha mãe disse que aquele espaço não chegava para escrever tudo o que ela queria.”; “está com a minha letra, mas foi o meu pai que escreveu e eu copiei para esta folha” (um apontamento pela mão do pai, no fim da página, confirmava). Foi uma surpresa muito grande e muito boa.
Os comentários ao terceiro e ao quarto contos eram já mais elaborados do que os primeiros, que, na maioria, se limitavam a dizer que gostaram porque “era bonito” ou porque “era interessante”.
Entretanto, começaram a pedir mais, pais e alunos: “a minha mãe já perguntou quando nos dá mais um conto”, “a minha irmã diz que já lhe marcou falta”.

Poderia dizer que, nesta altura, eu estava em êxtase. Mas ficaria sem palavras para descrever o que senti quando, um dia, a Psicóloga da escola me disse “não sabes o que aconteceu ontem”. E contou-me. No dia anterior havia decorrido a primeira sessão de uma acção de formação para os pais e encarregados de educação intitulada “Pais à Medida”. Entre outros temas, abordou a necessidade de os pais passarem tempo com os filhos – e de esse tempo ser de qualidade. Um pai concordava, exemplificando com a oferta televisiva, que absorve, tantas vezes para programas desadequados, a atenção das crianças/adolescentes, outro pai completava com os jogos de computador, com a Internet. E foi então que um deles disse: “Agora uma professora tem mandado uns contos para casa, para eles nos lerem. Estamos ali juntos enquanto eles lêem. Os contos são sempre muito bonitos. E depois acabamos por ficar meia hora ou mais a falar daquilo.” Outro pai concordava, acrescentava um comentário, uma mãe dizia também qualquer coisa. A Psicóloga confessou: “Eu fiquei pasma a olhar para eles. Deixei-os falar, nem disse nada.” E depois acrescentou “Agora sou eu quem quer ler esses contos”. Falou-me do entusiasmo com que os pais falavam dos contos, recontavam as histórias, diziam do bem que os contos estavam a fazer aos filhos.
Foi nessa altura que achei que podia começar a pedir comentários mais longos um bocadinho: aumentei o número de linhas de três para seis, nos tais papelinhos que acompanhavam o conto. Os pais corresponderam, tal como eu esperava, escrevendo comentários mais elaborados, mais completos.

Aproximando-se o fim do período, escrevi aos pais e também aos alunos agradecendo a colaboração e pedindo que respondessem a um pequeno inquérito, no sentido de fazer uma avaliação do projecto e da pertinência de lhe dar continuidade no terceiro período.
As respostas, que apresento nos gráficos das páginas seguintes, não deixam dúvidas. Os contos foram um sucesso, dentro e fora da sala de aula. Sobretudo fora da sala de aula, diria.
É por vezes muito difícil implementar uma actividade na escola que chegue realmente às casas dos alunos, mas desta vez isso aconteceu de uma maneira muito bonita. Mais ainda por ter sido através da palavra escrita, que tanta reserva suscita em algumas pessoas, de todas as idades.

E, se a participação dos pais foi tão surpreendentemente massiva, parece-me que podemos aprender que, contrariamente ao que por vezes achamos, os pais dos nossos alunos têm muito para dar. Precisam é de uma oportunidade.