da leitura com as minhas filhas

Há quase quatro anos, escrevi sobre como procurava introduzir o hábito da leitura como algo regular, religioso mesmo, com as minhas filhas. A mais velha tinha na altura três anos e a pequenina era ainda muito pequenina: tinha doze meses.

Hoje, têm sete e quatro anos e eu tenho motivos para achar que, nisto do incentivo à leitura, fiz algumas coisas bem. A mais velha é uma leitora autónoma – o que não quer dizer que tenhamos deixado de lhe ler, de todo – e a mais nova é tão ou mais viciada em livros como a mãe, o pai e a irmã. Ou os três juntos.

Fiquem por agora com este texto, enquanto termino um outro, em que conto como vai a leitura das pequenas, cá em casa, no momento presente.

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Quero que a minha filha goste de ler. Ainda mais do que eu gosto. Tenho utilizado muitas estratégias para atingir este objectivo. Já há muito, o feedback que recebo indica que vou no bom caminho. Ela gosta que se lhe conte histórias (que eu conte, para ser mais precisa), mas gosta sobretudo de ver folhear o livro, de ver passar as páginas, de ouvir ler. De me ouvir ler-lhe.

(Um pequeno apontamento: falo na minha filha, no singular, porque a pequenina acaba de completar o primeiro ano de idade – e para tudo é preciso esperar pelo momento. A minha experiência como mãe de uma futura leitora cinge-se, por enquanto, à mais velha, que tem três anos.)

É claro que ela recebeu livros como prenda de nascimento e de primeiro aniversário: as Histórias e Contos Completos de Hans Christian Andersen e As Melhores Histórias dos Irmãos Grimm, respectivamente, mas trata-se de artigos “de luxo”, lá virá a sua hora.

Não foi assim que começou.

Tratei de fazer do livro um objecto normal, do dia-a-dia dela, tal como os guizos, a chupeta, a fralda que roçava com os dedos para adormecer.

O primeiro livro que ela teve era de pano, sobre o “Fundo do Mar”. As “folhas” faziam barulho e os seus cantos eram de borracha, para massajar as gengivas aquando do aparecimento dos primeiros dentes. Tinha uma asa, para ela poder agarrar, como todos os outros guizos que se destinam a bebés de três ou seis meses.

Seguiu-se um outro livro, com ilustrações giríssimas de animais marinhos (também), que era um brinquedo para o banho. Até no banho – um rápido duche – havia espaço para ler.

Quando se tornou possível interagir um pouco mais, ou seja: quando atingiu a idade que a irmã tem agora, apareceram os primeiros livros “a sério”: pequenos, à medida das mãos dela; cartonados, para serem mais resistentes, claro; com imagens, pouco texto, mas o suficiente para ela perceber que nos livros existia informação e que essa informação lhe interessava: as vozes dos animais, os seus filhotes, os elementos da Natureza, a relação entre os meios de transporte e a função a que estão destinados, o inevitável Natal, os frutos, as cores, os vegetais… Rapidamente os leu sozinha: abria na página com a imagem do perú e “lia”: “galu, galu”. Fazia as minhas delícias.

Vendo que estes estavam a “entrar”, arrisquei outros, que já contavam uma pequena história: uns livros da Anita, pequeninos, também cartonados (o que, além do mais, lhe facilitava o folhear), com oito ou dez páginas daquelas belíssimas ilustrações acompanhadas de uma ou duas frases muito simples, que resumiam os livros da Anita que conhecemos de toda a vida. Rapidamente começou a comentar a leitura: “totó”, quando a protagonista ia brincar para a neve sem casaco nem gorro, apontava para a imagem do gato quando eu lia que ele fora visitar a Anita, convalescente, etc.. Associava o livro à pessoa que lho oferecera.

Quando tinha dezoito meses, a sua capacidade de concentração já me permitia ler-lhe as histórias de um livro que recomendo a todas as mães e que encontrei nas prateleiras de um supermercado: Boa Noite, Ursinho. Um vistoso “calhamaço” com três histórias lindíssimas que a mãe Urso lê ao seu filhote para o colocar nas asas de Morfeu: histórias sobre a hora de dormir, que surge como uma coisa boa, sem bruxas, lobos maus ou outros seres capazes de despertarem pesadelos. Aprendeu-as de cor, como seria de esperar, de tantas vezes que lhas li por sua própria insistência, exigência, até.

Entretanto, o cuidado que tinha ao manusear os livros foi evoluindo também e isso permitiu alargar o leque: aos dois anos e pouco já folheava sozinha livros de folhas finas, sendo de registar que nunca rasgou nenhum.

Quando a irmã nasceu, a três meses do seu terceiro aniversário, perguntámo-nos que prenda lhe deveria trazer, o que a faria mais feliz, que presente seria mais especial. Rapidamente concluímos que aquilo que lhe dá mais prazer são os livros.

Mais tarde, quando se tornou vital criar em casa um espaço chamado “quarto dos brinquedos”, tentei uma nova “casca de banana”: junto às quatro prateleiras que já tem repletas de livros, coloquei o seu sofá, à sua medida, e uma manta que trouxe o Pai Natal, “para pores nos joelhos, se tiveres frio”. Tenho de confessar que fiquei admirada quando a vi ir directa a esse cantinho, colocar a manta nos joelhos e escolher um livro. Pode ter sido da novidade, de ter ficado assoberbada por ver os seus brinquedos, tantos, subitamente arrumados de maneira que tinha acesso a todos, o que até aí não acontecia, mas a verdade é que já se passaram vários meses e esse continua a ser o seu cantinho favorito. Dentro e fora de casa: um sofá e um livro são os ingredientes perfeitos para um bom pedaço de tempo.

Recentemente, de um momento para o outro, tivemos de sair de casa para dormir fora, situação que, sabíamos à partida, se prolongaria por uma semana. Ficou incrédula quando, à hora de dormir, nos apercebemos de que não havia livro – apenas conseguimos encontrar dois, “de bebé”, que é o que chamamos aos livros que não têm praticamente texto, que apresentam a história muito resumida. Lá lhos li, acrescentei histórias sem livro e lá passou a primeira noite.

Quando, no dia seguinte, com mais calma, fui a casa munir-me dos “precisos” para a semana, escolhi uma série de livros e levei-lhos, dentro de uma mochila. Ao chegar, disse-lhe que lhe trazia uma surpresa. Ao perceber que se tratava de uma mochila cheia de livros por onde escolher para cada noite, o seu rosto iluminou-se num sorriso!

Quais são as suas preferências? Os contos tradicionais, sem dúvida alguma. Os Três Porquinhos, Capuchinho Vermelho, O Gato das Botas, por aí adiante. Tipicamente, ouve-os vezes sem conta, seguidas, até eu os saber de cor. Primeiro em silêncio. À terceira ou quarta vez, começa a fazer uma perguntita sobre o enredo. Quando as perguntas começam a ser muitas, é sinal de que já percebeu, já assimilou todos os detalhes que lhe são importantes. Então, passa-se a outro conto. Este processo demora vários dias, claro.

Para minha surpresa (e estou a ser sincera) há novas colecções de livros, muitas vezes inspiradas em séries de televisão, que são muito bonitos, de que ela também gosta muito e que encerram informação importante e bem transmitida sobre os valores da amizade, da entreajuda, do trabalho. Quanto a mim, o problema é que são livros que se baseiam em filmes, sendo que o filme é frequentemente mais completo e mais interessante do que o livro, contrariando aquilo a que estamos habituados.

Com os contos tradicionais, o problema que surge é de outra natureza. A fúria editorial é tamanha que algumas edições recriam as histórias. Por exemplo: tenho uma versão de Os Três Porquinhos em que, em vez de cada irmão construir a sua casa, constroem os três as três casas, em sucessivas tentativas de escaparem ao lobo mau, o que desvirtua completamente, na minha opinião, a mensagem central do conto: o arquétipo de que a união faz a força.

Não sei dizer se a minha estratégia é a perfeita, se há mais e melhores coisas que eu poderia ou deveria fazer, mas uma coisa é certa: não raras vezes, encontro-a sentada num sofá, no chão, com um livro, que “lê”, em voz alta, a si própria. Conhece mais verbos introdutores do diálogo (dos complicados) do que os meus alunos de sexto ano que obtêm classificação “C” na Prova de Aferição. Sem nunca ter convivido com famílias judias, sabe que existe e o que é um menorah.

Um livro é o que escolhe para oferecer, nos aniversários, aos amiguinhos, porque, para ela, um embrulho que faça adivinhar um livro é o que lhe desperta mais curiosidade, o que abre com maior avidez.

[texto escrito em 2009]

O Senhor Palha

Conto japonês

Era uma vez, há muitos e muitos anos, é claro, porque as melhores histórias passam-se sempre há muitos e muitos anos, um homem chamado Senhor Palha. Ele não tinha casa, nem mulher, nem filhos. Para dizer a verdade, só tinha a roupa do corpo. Ora o Senhor Palha não tinha sorte. Era tão pobre que mal tinha para comer e era magrinho como um fiapo de palha. Era por esse motivo que as pessoas lhe chamavam Senhor Palha.

Todos os dias o Senhor Palha ia ao templo pedir à Deusa da Fortuna que melhorasse a sua sorte, mas nada acontecia. Até que um dia, ele ouviu uma voz sussurrar:

— A primeira coisa em que tocares quando saíres do templo há- de trazer-te uma grande fortuna.

O Senhor Palha apanhou um susto. Esfregou os olhos, olhou em volta, mas viu que estava bem acordado e que o templo estava vazio. Mesmo assim, saiu a pensar: “Terei sonhado ou foi a Deusa da Fortuna que falou comigo?” Na dúvida, correu para fora do templo, ao encontro da sorte. Mas, na pressa, o pobre Senhor Palha tropeçou nos degraus e foi rolando aos trambolhões até o final da escada, onde caiu por terra. Ao levantar-se, ajeitou as roupas e percebeu que tinha alguma coisa na mão. Era um fio de palha.

“Bom”, pensou ele, “uma palha não vale nada, mas, se a Deusa da Fortuna quis que eu o apanhasse, é melhor guardá-lo.”

E lá foi ele, com a palha na mão.

Pouco depois, apareceu uma libélula zumbindo em volta da cabeça dele. Tentou afastá-la, mas não adiantou. A libélula zumbia loucamente ao redor da cabeça dele. “Muito bem”, pensou ele. “Se não queres ir embora, fica comigo.” Apanhou a libélula e amarrou-lhe o fio de palha à cauda. Ficou a parecer um pequeno papagaio (de papel), e ele continuou a descer a rua com a libélula presa à palha. Encontrou a seguir uma florista, que ia a caminho do mercado com o filho pequenino, para vender as suas flores. Vinham de muito longe. O menino estava cansado, coberto de suor, e a poeira fazia-o chorar. Mas quando viu a libélula a zumbir amarrada ao fio de palha, o seu pequeno rosto animou-se.

— Mãe, dás-me uma libélula? — pediu. — Por favor!

“Bem”, pensou o Senhor Palha, “a Deusa da Fortuna disse-me que a palha traria sorte. Mas este garotinho está tão cansado, tão suado, que ficará certamente mais feliz com um pequeno presente.” E deu ao menino a libélula presa à palha.

— É muita bondade sua — disse a florista. — Não tenho nada para lhe dar em troca além de uma rosa. Aceita?

O Senhor Palha agradeceu e continuou o seu caminho, levando a rosa. Andou mais um pouco e viu um jovem sentado num tronco de árvore, segurando a cabeça entre as mãos. Parecia tão infeliz que o Senhor Palha lhe perguntou o que tinha acontecido.

— Hoje à noite, vou pedir a minha namorada em casamento — queixou-se o rapaz. — Mas sou tão pobre que não tenho nada para lhe oferecer.

— Bem, eu também sou pobre — disse o Senhor Palha. — Não tenho nada de valor mas, se quiser dar-lhe esta rosa ela é sua.

O rosto do rapaz abriu-se num sorriso ao ver a esplêndida rosa.

— Fique com estas três laranjas, por favor — disse o jovem. — É só o que posso dar-lhe em troca.

O Senhor Palha continuou a andar, levando três suculentas laranjas. Em seguida, encontrou um vendedor ambulante a puxar uma pequena carroça.

— Pode ajudar-me? — disse o vendedor ambulante, exausto. — Tenho puxado esta carroça durante todo o dia e estou com tanta sede que acho que vou desmaiar. Preciso de um gole de água.

— Acho que não há nenhum poço por aqui — disse o Senhor Palha. — Mas, se quiser, pode chupar estas três laranjas.

O vendedor ambulante ficou tão grato que pegou num rolo da mais fina seda que havia na carroça e deu-o ao Senhor Palha, dizendo:

— O senhor é muito bondoso. Por favor, aceite esta seda em troca.

E, uma vez mais, o Senhor Palha continuou o seu caminho, com o rolo de seda debaixo do braço.

Não tinha dado dez passos quando viu passar uma princesa numa carruagem. Tinha um olhar preocupado, mas a sua expressão alegrou-se ao ver o Senhor Palha.

— Onde arranjou essa seda? — gritou ela. — É justamente aquilo de que estou à procura. Hoje é o aniversário de meu pai e quero dar-lhe um quimono real.

— Bem, já que é aniversário dele, tenho prazer em oferecer-lhe a seda — disse o Senhor Palha.

A princesa mal podia acreditar em tamanha sorte.

— O senhor é muito generoso — disse sorrindo. — Por favor, aceite esta jóia em troca.

A carruagem afastou-se, deixando o Senhor Palha com uma jóia de inestimável valor refulgindo à luz do sol.

“Muito bem”, pensou ele, “comecei com um fio de palha que não valia nada e agora tenho uma jóia. Sinto-me contente.”

Levou a jóia ao mercado, vendeu-a e, com o dinheiro, comprou uma plantação de arroz. Trabalhou muito, arou, semeou, colheu, e a cada ano a plantação produzia mais arroz. Em pouco tempo, o Senhor Palha ficou rico.

Mas a riqueza não o modificou. Oferecia sempre arroz aos que tinham fome e ajudava todos os que o procuravam. Diziam que a sua sorte tinha começado com um fio de palha, mas quem sabe se não terá sido com a sua generosidade?

William J. Bennett
O Livro das Virtudes II – O Compasso Moral
Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996