Memorial do racismo

Quando, em Junho, Nelson Mandela foi internado na sequência de uma infecção pulmonar, as televisões, naturalmente, não falavam de outra coisa. Todos os noticiários abriam e fechavam com notícias sobre o seu estado de saúde. Ou melhor: com a falta de notícias sobre a evolução da saúde de Mandela. Nessa altura, as minhas filhas, de sete e quatro anos, quiseram saber que pessoa era aquela que “monopolizava” noticiários inteiros. Expliquei-lhes quem foi, o que fez, onde, porquê… e elas perceberam a importância histórica desta figura. Ontem, quando ouvi que Mandela tinha morrido, percebi imediatamente que a minha aula de Português desta manhã teria de ser sobre ele. E tinha de ser esta manhã, porque sabemos que, ao longo de todo o fim de semana, não se falará de outra coisa e os meus alunos, de quinto ano, têm de saber ouvir as notícias. Nas pesquisas que efectuei sobre como falar de Mandela às crianças encontrei este texto de Leo Salvador, que descreve uma visita ao Museu do Apartheid, em Joanesburgo. Vale a pena ler.

apartheid

Na África do Sul, o tempo mede-se em “antes de 1989” e “depois de 1989”. Este foi o ano em que acabou o “apartheid”, o regime de segregação racial imposto pelos brancos. As marcas deste regime estão patentes no Museu do Apartheid, em Joanesburgo.

Quinze minutos depois de sair do aeroporto internacional de Joanesburgo, a maior cidade da África do Sul, chego ao Museu do Apartheid. Neste edifício retratam-se os 78 anos de segregação racial que feriram a convivência entre Sul-Africanos de 1911 a 1989. E escreve-se a história dos últimos 17 anos, nos quais se multiplicam os esforços por construir um futuro cheio de esperança e de paz.

Memorial

O edifício do museu tem um desenho moderno e atraente. Situa-se num espaço que já foi um complexo industrial de uma empresa mineira, conhecido como Gold Reef (Recife de Ouro). Os vestígios das minas de ouro pintam as colinas de amarelo. Mas, com o passar do tempo, algumas já se cobriram de verde. Outrora as minas surgiam como fungos. Actualmente estão esgotadas.

Enquanto me aproximo do museu ouço gritos que vêm de um parque nas vizinhanças. Lembram-me os clamores das manifestações escolares nos anos da discriminação racial. Os gritos que escuto agora também são de alunos, expressão de alegria e diversão.

O edifício ocupa 6000 metros quadrados, o equivalente a dois campos de futebol. Nele destacam-se sete lápides com 12 metros de altura. Lembram os sete pilares da nova constituição do país: liberdade, respeito, responsabilidade, diversidade, igualdade, reconciliação e democracia. Outros elementos, como o muro alto de pedra e a entrada, remetem-me para imagens de prisões. Na área exterior há fotografias que retratam os povos e culturas que conviviam antes do regime racista, a época das classificações das raças e os anos de sofrimento e terrores. Fazem memória da segregação e das detenções.

Pago a entrada. Recebo um bilhete que me classifica aleatoriamente como não branco e, de acordo com esta classificação, devo entrar pela porta que diz, em letras grandes, no dialecto afrikaans e em inglês «Nie-Blankes; Non-Whites». Outros entram pela que diz «Blankes; Whites». Ainda que a fingir, experimento a impotência de ser obrigado a entrar pela porta dos não brancos.

As duas portas dão para corredores paralelos, separados por uma parede de pequenas celas de arame, e, durante algum tempo, os grupos mantêm-se divididos. Nas celas pequenas, que parecem gaiolas, expõem-se passes de «não brancos» e de «negros». No centro descrevem-se as classificações raciais que o sistema do «apartheid» praticou: mestiços, asiáticos, malaios, chineses… E pormenoriza-se a divisão entre africanos, conforme as tribos: bantus, sotho, zulus, xhosa, tswana, ndebele… No final deste corredor, os que recebemos a classificação de não brancos deparamo-nos com uma fotografia à escala real de quatro homens brancos, sentados numa grande secretária. Recria a «Race Classification Board» (Comissão de Classificação Racial) que catalogava as pessoas segundo a cor da pele.

Entrar na história

Visito 22 espaços. Faço uma viagem tão emocionante quanto dramática pela história escrita por um sistema fundado na discriminação racial. Sinto-me regressar aos anos 70 do séc. XX. Imagino-me a esquivar-me às granadas de gás lacrimogéneo e às balas da polícia; a marchar juntamente com a multidão de estudantes, alguns com brinquedos na mão; a arrastar o corpo ferido de um amigo, para o proteger da polícia.

As fotografias, os vídeos, os textos e os objectos mostram-me diferentes episódios de segregação racial e de repressão. As televisões passam cenas de acontecimentos horríveis que aconteceram em todo o mundo no mesmo dia de 1976 em que o menino Héctor Peterson foi morto durante uma manifestação de estudantes em Soweto. Ou transmitem o discurso de Henrik Verwoerd, tido como o arquitecto do «apartheid». Ele explica a uma multidão que a África do Sul só será feliz se as raças viverem separadas.

Entro num veículo de assalto da polícia sul-africana que tantas vezes ocupou a primeira linha nos ataques aos manifestantes. Assisto a filmes captados desde o interior do blindado, quando circulava pelos bairros onde «depositaram» à força os negros, os «township».

Entro numa sala onde pendem 121 forcas de corda. Lembram todos os condenados à morte durante o «apartheid».

Termino a visita num espaço sereno e reconfortante: a sala da memória. Aqui está exposta a nova Constituição da África do Sul. E cada visitante pode contribuir criativamente para prolongar a exposição. Se tem gosto e jeito pode fazer um desenho ou uma escultura. Também pode optar por deixar as suas impressões num estúdio de gravação áudio, de modo que outros as possam ouvir.

Lição final

Saio do Museu do Apartheid com a ideia de que nele se confrontam tragédia e heroísmo, tirania e liberdade, caos e paz. Vejo-o como um farol de esperança, que mostra ao mundo como a África do Sul aprendeu a renascer; e como um testemunho do trabalho desenvolvido para construir um futuro onde todos convivam sem quaisquer distinções.

“Apartheid”

A era do «apartheid» na África do Sul começou em 1911, quando a minoria branca, composta por descendentes de britânicos e de holandeses, promulgou uma série de leis que afirmavam a sua superioridade e domínio sobre a população negra.

O «apartheid» negou os direitos dos negros: de ter uma terra, de participar na política e de gozar de igualdade de tratamento na educação, no trabalho, nos transportes públicos, no acesso à cultura e na prática da religião. A minoria branca obrigou os negros a viverem em bairros separados dos deles. E declarou ilegais os casamentos entre pessoas de raças diferentes.

A oposição ao «apartheid» surgiu logo em 1912, com a criação do Congresso Nacional Africano (ANC, em inglês). O seu líder, Nelson Mandela, foi condenado à prisão perpétua em 1964. Mas, entretanto, muitos países pressionaram o Governo sul-africano para pôr fim à política de segregação racial. O fim do «apartheid» dá-se em 1989. Um ano depois, Mandela é libertado.

Em 1993, o presidente sul-africano Frederik De Klerk e Nelson Mandela ganham o Prémio Nobel da Paz. No ano seguinte, Mandela conquista a presidência do país e forma o primeiro governo multirracial.

Leo Salvador

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Na primeira pessoa

Hoje apetece-me. Ando há muito para fazer isto, e hoje é dia.

Este é o primeiro de uma série de pequenos segmentos da Grande Reportagem SIC que foi para o ar em Janeiro de 2012. Falava sobre o projecto de leitura que implementei com muito sucesso junto dos meus alunos do 2º ciclo – e que continuo a implementar, tendo alargado o público-alvo.

Neste primeiro vídeo, sob o olhar atento de um relógio que pára, cada aluno lê uma primeira frase de um conto diferente, dando uma ideia da variedade de temas sobre os quais lemos.

Burros & Livros

Chama-lhes “biblioburros”. Os animais são baratos, fiáveis, não precisam de gasolina e vão a quase todo o lado. Um homem leva livros em cima de asnos a aldeias porque acredita que, se houver bastantes pessoas a apaixonarem-se pelas histórias, poderá quebrar-se o ciclo de 40 anos de violência entre os guerrilheiros e as forças paramilitares.
Todos os fins-de-semana, Luís Soriano e dois burros carregados atravessam montes e vales no Norte da Colômbia, onde aldeias como El Dificil e El Tormento receberam estes nomes, e bem, porque a única forma de lá chegar é através de trilhos tortuosos.

A missão de Soriano é quixotesca e a carga dos burros é preciosa: caixotes com 160 livros destinados às aldeias isoladas, onde os residentes não têm virtualmente acesso à leitura, para além de alguns textos da escola primária, em folhas já marcadas por muitas dobras, e Bíblias.
Há cinco anos, esta biblioteca itinerante, a que Soriano chama “biblioburros”, é a única nesta pobre e remota zona rural. “As pessoas daqui adoram histórias”, diz Soriano, de 32 anos, antigo livreiro de uma aldeia do estado da Magdalena. “E eu tento, à minha maneira, manter vivo esse entusiasmo.”
Soriano apaixonou-se pelos livros aos seis anos, e licenciou-se em Literatura espanhola depois de ter estudado com um professor que se deslocava à aldeia, duas vezes por mês. Esta paisagem rude, onde viveu toda a sua vida, poderá fazer despistar qualquer meio de transporte com rodas, enquanto os animais, penosamente, lá vão progredindo. “Os animais são baratos, fiáveis, não necessitam de gasolina e podem ir praticamente a todo o lado”, observa.
Numa pasta vermelha, Soriano guarda uma lista dos títulos que os aldeãos pedem com maior frequência. Embora a sua biblioteca itinerante inclua romances, histórias e textos medicinais, os livros mais populares são as histórias infantis com acontecimentos incríveis, em locais improváveis, onde os animais se assemelham aos homens e são os heróis. Talvez seja por isso que Soriano e os seus burros se enquadram tão bem aqui.
Antes da sua volta semanal, à noite, Soriano coloca os livros em bolsas de plástico individuais, fechadas em capas de lona. Arruma as capas em pacotes do tamanho de pastas, aconchegando-as em caixotes de madeira que prende nas selas dos burros. Soriano tem apenas duas regras para quem quer ler os livros: lavar as mãos e não escrever nas páginas. Ele sabe quem levou este ou aquele livro, mas declara confiar mais no sistema da honestidade. “Talvez seja uma das únicas bibliotecas do mundo onde as pessoas vêm com as suas mochilas e não são controladas à saída”, observa Soriano.
Antigamente, Soriano levava uma vida mais normal, pois era dono de uma loja de abastecimento e tinha uma família para criar. Lia por prazer e tinha em casa uma biblioteca com cerca de 80 volumes. Depois, começou a emprestar os seus livros, vasculhando, pedindo e emprestando para obter mais. Acabou por aumentar a colecção para 4800 livros. A sua mulher, Diana, estava cada vez mais desesperada com falta de espaço para criar os três filhos. “Ela costumava perguntar-me: O que vais fazer, comer livros com arroz?”, conta Soriano.
Há três anos, Soriano encontrou um patrocinador. Addis Marilyn, director da biblioteca municipal de Santa Marta, uma cidade a cerca de 300 quilómetros, situada na costa das Caraíbas, ouviu falar do que ele fazia e convidou-o para trabalhar como uma sucursal sua. Aproveitando a ideia de Soriano, Marilyn patrocinou outros dois projectos de “biblioburros”. Actualmente, os três partilham um orçamento que ronda os sete mil dólares (5700 euros).
Soriano diz não ter tido sorte ao pedir ajuda às autoridades locais para montar uma biblioteca decente, mas o governo nacional interessou-se mais. Ainda há pouco tempo, um senador propôs-lhe criar uma rede de bibliotecas transportadas por burros para todas as zonas rurais da Colômbia.
Para se preparar para esta viagem, uma jornada de três horas até à aldeia de Las Planadas, além dos livros, Soriano embalou também 40 máscaras de porquinho que conseguiu obter com a ajuda de Marilyn. Pretende distribui-las às crianças da aldeia antes de estas lerem “Os Três Porquinhos”. Como idealista que é, Soriano pensa que, se houver bastantes pessoas a apaixonarem-se pelas histórias, poderá quebrar-se o ciclo de 40 anos de violência entre os guerrilheiros e as forças paramilitares.
Os soldados paramilitares, que alegadamente usam os lucros da venda de droga para financiar um sistema de intimidação e ameaças de morte, controlam grande parte das aldeias da região. Mas Soriano diz que ele e os seus burros se mantêm afastados de tudo isso e, em troca, os militares respeitam-no. Muitas das crianças não sabem ler, por isso, ele ensina-as frequentemente. Por vezes, também ensina os pais.
Alberto Mendoza, de 11 anos, ajoelha-se juntamente com os outros. A sua família, ao contrário das das restantes crianças, tem um livro em casa. “Temos um livro”, declara, “A Bíblia.” Numa visita anterior, Soriano mostrara a Alberto um livro ilustrado sobre um filhote de urso que passa uma tarde inteira a construir castelos na areia e a regar um jardim cheio de flores com o seu avô. Hoje, esse mesmo livro encontra-se pendurado numa árvore. Quando Soriano termina a história e diz às crianças que podem escolher os livros que querem, Alberto corre para a árvore e agarra o livro do ursinho antes que alguém consiga lá chegar.

Colômbia / Missão Quixotesca / Texto: Monte Reel
Exclusivo Público/Washington Post

O pai de Andi

Não era normal! Os três amigos de Andi tinham pais famosos.

O pai de Alexandre era cirurgião. Um daqueles médicos a quem as pessoas ricas e importantes recorrem para tirar o apêndice.

O pai de Rafael tocava violino. Não apenas por prazer. Dava concertos pelo mundo inteiro e era sobejamente conhecido.

O pai de Gino era um realizador de cinema. Diz aos actores o que eles têm de fazer, foi como Gino, com certo orgulho, explicou a profissão do pai.

O pai de Andi era vendedor numa loja de roupa para homem. Um pouco baixo, usava óculos dourados e não era nada conhecido.

Andi só o via ao fim-de-semana, porque os pais tinham-se separado. Quando os colegas falavam dos pais, Andi ficava calado. O que é que ele havia de dizer? Na passada terça-feira, o meu pai vendeu um fato de flanela cinzenta?

Nas férias grandes, Alexandre foi para África, porque o pai queria fotografar leões. Rafael foi para Nova Iorque, onde o pai ia dar um concerto. E Gino foi para a Jugoslávia onde o pai estava a rodar um filme de cowboys.

O pai de Andi queria ir para a Toscânia. Pela bela paisagem e porque gostava de visitar igrejas antigas. Andi não tinha bem a certeza se queria ir, mas estava combinado passarem juntos umas férias por ano. Por isso, Andi foi com o pai para Itália. Para dizer a verdade, até gostou bastante. Ficaram numa terrinha entre vinhas, davam passeios e visitavam igrejas antigas, mas não em demasia.
Certo dia, que seria diferente dos outros, passeavam pelo mercado de uma pequena aldeia. Compraram tomates e alhos para o molho do esparguete, e ainda pêssegos e uvas para a sobremesa. Num pequeno bar, o pai de Andi tomou café e Andi bebeu um sumo de laranja, que em Itália se diz “aranciata”. Dirigiram-se depois, devagar, para o local onde o carro ficara estacionado.

Andi foi o primeiro a ver os pássaros. Parou, horrorizado. Numa parede batida pelo sol estavam dependuradas cerca de vinte minúsculas gaiolas, cada uma com um pássaro fechado dentro. Pardais, tentilhões, um melro. Num desespero evidente, arremessavam-se para cima e para baixo contra as grades das pequenas gaiolas.

— Que maldade! — disse Andi.

O pai de Andi olhou pensativamente e não proferiu palavra.

De resto, mais ninguém parecia incomodar-se com os pássaros encarcerados. As pessoas passavam, falavam, riam, e não prestavam a mínima atenção àquele arremeter e piar de desespero.

O pai de Andi aproximou-se de uma gaiola. O pardal, prisioneiro e em pânico, tentava bater as asas, mas a gaiola era tão pequena que as asas embatiam contra as grades de madeira. Num gesto rápido e resoluto, o pai de Andi abriu a porta da gaiola. Teve de retirar primeiro o recipiente da água e só depois é que pôde abrir a porta de arame. O pardal mais parecia dar cambalhotas do que voar. Pousou por um instante na rua, atordoado, mas depois voou e desapareceu. O pai de Andi abriu todas as gaiolas uma por uma.

— Estão a olhar para nós — disse Andi. — Despacha-te!

Mas só quando abriu a última gaiola, é que o pai pegou no saco de papel que tinha pousado no chão e deu a mão a Andi.

— Não vão deixar-nos passar — disse Andi com medo.

Um pouco mais à frente, havia pessoas paradas na rua, que falavam em voz baixa umas com as outras e olhavam para eles com um ar severo.

Agora íamos precisar de Renzo Romano, pensou Andi, deitando um olhar de soslaio ao pai. Que esquisito! Teria crescido em pouco tempo? Parecia muito maior do que de costume, muito decidido e fazia uma cara… Isso, exactamente como Renzo Romano antes de um duelo de vida ou de morte.

Contrariadas, mas sem nada fazerem, as pessoas da rua afastaram-se, deixando o caminho livre a Andi e ao pai.

Quando dobraram a esquina, estugaram o passo e, em poucas passadas, chegaram ao carro. Andi voltou a olhar para o pai para se certificar. Será que alguém na idade dele podia ainda crescer? E tão de repente? Devia ter sido uma ilusão.

Deixaram a pequena aldeia para trás, mas nenhum dos dois falava. Andi olhou mais do que uma vez discretamente pelo espelho. Nenhum perseguidor. À sua frente, estendiam-se montes raiados de cor-de-rosa, violeta e azul-claro. Ciprestes escuros erguiam-se contra o azul leitoso de um céu de Verão. Os dois continuavam ainda em silêncio.

Mais tarde, sentaram-se então debaixo de uma oliveira, a comer pêssegos sumarentos. Sobre as suas cabeças, pousado num ramo coberto de folhas prateadas, cantava um pássaro.

— Este é um dos do teu grupo de admiradores! — disse Andi.

Está ansioso por saber o que Alexandre, Rafael e Gino irão dizer desta acção de salvamento.

Edith Schreiber-Wicker

Brigitte e Wilhelm Meissel (org.)
Fernweh
Wien, Herder Verlag, 1980

Vem aí a Prima Vera


Era uma vez uma menina chamada Carolina a quem o carteiro, numa bela manhã, entregou uma carta.
Carolina, depois de abrir o envelope, ficou muito surpreendida ao ler o que na carta estava escrito:
“Chego no dia 21 de Março
Estação Nova
Tua Prima”
Voltou a ler a carta, outra vez e ainda outra, sem nada entender:
– Quem será esta prima que eu não conheço? Bem, só faltam três dias para saber.
Três dias? Tanto tempo para uma menina cheia de curiosidade. Por isso, Carolina não sossegou e, na véspera do importante dia, demorou a adormecer.
O dia 21 de Março amanheceu envolvido por um sol radioso.
A menina levantou-se cedo e, vestida com uma roupa de festa como alguém que esperava visitas, saiu de casa. Apertando numa das mãos a carta, dirigiu-se sem demoras à estação dos comboios (que era nova porque tinha sido construída há pouco tempo). Ao chegar viu um grupo de entusiasmados meninos.
Aproximou-se e percebeu que alguns seguravam um envelope.
Resolveu, então, perguntar-lhes o que faziam ali.
Os meninos contaram que cada um tinha recebido uma carta que dizia:
“Chego no dia 21 de Março
Estação Nova
Tua Prima”
Carolina mostrou-lhes a sua carta, que dizia exactamente o mesmo.
Tudo parecia estranho.
Resolveram esperar. Viram passar um comboio, depois outro e ainda outro… Finalmente aproximou-se da estação, em marcha lenta, um comboio que acabou por parar.
Dele saiu uma bonita menina com um vestido coberto de Flores: malmequeres, papoilas, túlipas, lírios… No seu chapéu, amarelo como o sol, esvoaçavam andorinhas e pardais; os seus sapatos eram verdes como a erva dos campos.
Carregada de malas, dirigiu-se aos meninos:
– Fui eu que vos escrevi. Estou muito feliz por terem vindo esperar-me. Sou a vossa Prima.
– Nossa prima? – perguntaram os meninos, de olhos arregalados.
– Como te chamas? – apressou-se a perguntar, Carolina.
– Ah! Ainda não descobriram? Eu sou a Vera. Sou vossa Prima e de todos os meninos do mundo. Costumo chegar aqui neste dia. Sou a… PRIMA VERA!
– Que surpresa tão grande!
Os meninos ficaram radiantes.
Feitas as apresentações, a Prima Vera começou a abrir suas malas para mostrar os presentes que trouxera: SOL, ANDORINHAS, FOLHAS VERDES, FLORES, BORBOLETAS, JOANINHAS e muita, muita ALEGRIA.
Agradecendo a presença de todos, a Prima explicou que iria, de seguida, ao encontro de outros meninos. Mas voltaria para o ano. Palavra de Prima Vera!
Antes de partir, pediu ainda aos meninos que anunciassem a sua chegada a todas as pessoas.
Eles assim fizeram. Correram até suas casas, sorridentes e ansiosos por contar aos pais, irmãos, avós, amigos e vizinhos que era um dia muito especial: tinha chegado a PRIMAVERA!

Lourdes Custódio

O céu e o inferno

Um velho e sábio Mandarim teve um dia o privilégio de visitar o outro mundo. Visitou primeiro o Inferno:
Por mais estranho que parecesse, era um lugar lindíssimo, cheio de jardins, de aves raras, de lagos azulados, de montanhas rosadas cujos cimos brilhavam ao sol.
No centro desse lugar, conduziram-no a um palácio maravilhoso onde, numa esplêndida sala de jantar, eram servidas às pessoas as mais deliciosas iguarias confeccionadas com arroz.
No entanto, toda a gente tinha um ar famélico e infeliz. E o velho mandarim compreendeu porquê quando reparou que, para se servirem, lhes tinham distribuído pauzinhos com dois metros de comprimento, com os quais lhes era obviamente impossível levar a comida à boca.
Angustiado por este espectáculo, pediu que o conduzissem depressa ao Céu.
Aí, surpreendido, verificou que a paisagem era idêntica à do Inferno.
E, num belo palácio, em tudo semelhante ao primeiro, encontrou um mesmo banquete, preparado com as mesmas iguarias.
Apenas no rosto das pessoas via uma expressão tranquila, saciada e feliz, que admirava tanto mais quanto os via empunhar os mesmos pauzinhos com dois metros de comprimento.
Observando melhor, notou então que cada pessoa, com os seus pauzinhos, dava de comer à pessoa que se sentava defronte.

Marian Wright Edelman
I can make a difference
Harper Collins Publishers, NY, 2005
(Tradução e adaptação)

O encontro com a Dama das Histórias

Pedro vivia com os pais, com o gato Afonso e com o seu coelho branco, numa linda casa de ardósia. Era um rapazinho “quase” como os outros…, com a diferença de que nunca parava de fazer perguntas. Cem por hora, dez por minuto! Pequenino, ainda antes de saber falar, apontava para uma coisa com ar interrogativo e, se a resposta tardava, punha-se a berrar e ficava muito vermelho. “Porque é que o chocolate é castanho? E porque é que os coelhos não gostam de chocolate? E porque é que o açúcar é doce? E como se faz o açúcar? E porque é que se diz que os Marcianos são verdes se ainda ninguém os viu?” Os pais olhavam para o céu à procura de solução, mas não caía nenhuma resposta.
Quanto mais o Pedro crescia, mais eles coçavam a cabeça porque, com a idade, as questões tornam-se cada vez mais complicadas. Era, por exemplo: “De onde vêm as doenças? Porque é que os velhos acabam sempre por morrer? E porque é que eu sou eu e não sou o Robin dos Bosques? E onde é que eu estava antes de nascer?” Eram perguntas que exigiam um pouco mais de tempo, e quando os pais estão ocupados a mudar um pneu do carro ou a fazer o jantar, é-lhes difícil responderem. Quando fazia certas perguntas (sobre os bebés, as doenças, a morte, por exemplo) a mãe abanava a cabeça e respondia:
— Hum… É uma pergunta muito delicada, meu filho. Dá-me tempo para pensar — e, sistematicamente, ou por se ter esquecido, ou porque também ela não sabia organizar as frases, a mãe de Pedro ficava calada.
Há uma idade em que, à força de se fazer muitas perguntas e de não se obter resposta, se acaba por desistir. Foi por isso que, no dia em que Pedro encontrou o Coelho Branco morto na gaiola, não fez qualquer pergunta à mãe, com receio de a embaraçar. “Com certeza”, pensava ele, “certas palavras como morte, doença, fazer bebés, são palavrões. “
Então, o rapazinho enterrou o coelho em silêncio e, com ele, a sua pergunta. Refugiou-se no jardim, na tenda que tinha só para si, como fazem com frequência os filhos únicos, e reflectiu na vida, na existência, e tudo aquilo gerou uma pequena nuvem negra que lhe dava voltas dentro da cabeça. Ficou triste e sentiu frio. Não sabia que àquilo se chamava “solidão”. Um dia, a meio da tarde, estava Pedrito refugiado na tenda, quando ouviu uma voz muito meiga. Viu então uma senhora de olhos profundos e escuros que o observava a sorrir. Podia tê-la encontrado no sótão, no meio das coisas velhas, no céu durante um baptismo de ar num helicóptero, durante a pesca, ou num concurso de música.
— Bom dia, Pedro — disse-lhe a senhora. — Sabes quem sou? Sou a Dama das Histórias.
— A Dama das Histórias?!
— Venho visitar os meninos como tu, que têm uma nuvem negra no coração. Para lhes dizer que nos livros há histórias que podem dar-lhes respostas.
— Respostas a todas as MINHAS perguntas? — perguntou Pedrito arregalando os olhos.
A Dama das Histórias hesitou:
— Não vais encontrar forçosamente TODAS as respostas, mas sim TODAS as tuas perguntas. Verás, ao leres, que outros fazem as mesmas perguntas que tu. É por isso que os livros são feitos para os meninos curiosos, para aqueles que têm milhares de perguntas e que, além disso, querem viver várias vidas ao mesmo tempo. Podes ser, ao mesmo tempo, Robin dos Bosques ou Peter Pan, sem precisares de qualquer requisito especial! E o mais maravilhoso é que, nos livros, aprendes a viver, a respirar, a experimentar coisas, a brincar… A fazer muitas coisas que não conhecias! Apenas com algumas palavras, papel e muita imaginação…
A dama entregou-lhe um livro, que ele agarrou com avidez. À medida que lia, a pequena nuvem negra desaparecia e Pedro sentia-se tão aliviado que teve vontade de cantar. O vento nas árvores murmurava: “Lê, lê… É tão bom ler!” E os pássaros juntavam-se no ninho para o verem saborear o livro.
Quando o folheava, Pedrito teve a impressão que ouvia os murmúrios dos gnomos que, com ele, viravam as páginas. Na realidade, ele já não se encontrava no jardim. Já não estava na cabana. Tanto podia estar num avião, num barco, como num castelo, com o rei Artur.
Era tudo isto ao mesmo tempo. Sentia coisas que nunca antes tinha vivido. O gosto do mar nos lábios, ele que nunca vira o mar, o sabor de um bolo de limão, ele que nunca o tinha provado, o coração que pula no peito quando se está apaixonado, ele que era tão tímido com as raparigas!
Levantou os olhos do livro para perguntar à Dama das Histórias como é que simples páginas, tinta e papel, e talvez também imaginação, podiam produzir aquele efeito.
Mas a Dama das Histórias já tinha desaparecido. Ao longe, ouviu a sua voz doce dizer-lhe (ou talvez fosse o murmúrio do vento nas árvores!):
— Pedro, hei-de voltar. Existem centenas de milhares, milhões de livros!
A nuvem escura das perguntas condensadas tinha desaparecido. No seu lugar, havia uma nuvem transparente, cheia de desejo de ler os milhares e milhões de livros do mundo inteiro.
A partir daquele dia, Pedro nunca mais se sentiu oprimido pelas perguntas. Quando começava a ter frio, a sentir-se só e tristonho, pegava num livro e a magia recomeçava.

Sophie Carquain