Então e o que quer dizer?

Tenho um aluno que não sabe o que significa a palavra perra.

Não sabia. Perguntou-me, expliquei-lhe e agora já sabe. Até aqui, nada fora do normal Um aluno desconhecer o significado de uma palavra e o professor explicar-lhe é algo que acontece todos os dias nas aulas de Português. E não só, imagino.

O problema não é este. O problema é que a palavra surgiu numa frase – e ele achou que a frase estava errada. Seria muito grave, é verdade, mas poderia ter acontecido. A frase aludia a “dobradiças perras” e ele disse-me: “Aqui devia dizer pêras.” Expliquei-lhe o sentido da frase e ele ficou a perceber, mas esta situação, em muito semelhante a muitas outras que vivo todos os dias, permanece no meu espírito e faz-me pensar muito.

Não conhecer o significado de uma palavra é a coisa mais normal do mundo, sobretudo tratando-se de um aluno de quinto ano. É certo que eu acharia que a palavra “perra”, por ser muito utilizada, seria conhecida dos alunos. Mas o que, na minha opinião é preocupante é o facto de o aluno achar que, naquela frase, poderia surgir o nome do fruto, pêra. Uma dobradiça pêra? Isto é que é dramático nesta história. Uma criança de dez anos que não consegue antecipar que aquela palavra de todos os dias não cabe naquela frase e que prefere achar que o texto, publicado num manual escolar, contém um erro.

Este é (mais) um exemplo de como a incapacidade de utilizar o contexto para antecipar as palavras que vão surgir no texto compromete a leitura.

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