Ser Amigo

O sol entrava a rodos pelas janelas da sala de aula e ia brincar nos cabelos dos meninos. Às vezes projectava uma mão na folha de papel, fazendo uma engraçada sombra. E era uma tentação para a pequenada. Alguns às escondidas pegavam num pequeno lápis e desenhavam-na sobre a folha, enquanto a professora ditava: Primavera, nome de Estação, como se escreve, Marco? Marco acordava então das suas divagações de luz e de sombra, e respondia:

— Com letra maiúscula, senhora professora.

A professora continuava… Guidinha, Joãozinho, Antoninho… Venham fazer um trabalho de grupo. E Marco pensava: e eu? E eu? porque sou só Marco e não Marquinho? E quedava-se a pensar… talvez o meu nome não dê jeito… Mas ficava triste, sentia que para ele não havia tanta ternura. Aquele Marco de duas sílabas bem marcadas feriam-no constantemente e sentia-se só… ele que nem sequer tinha irmãos.

Chegou a hora do recreio. Uma manhã inundada de luz. Os passarinhos chilreavam contentes, ostentando a sua bela plumagem e entoando doces trinados. As crianças brincavam tirando das suas saquinhas, que as mães cuidadosamente bordaram os saborosos lanches. E brincavam, riam, pulavam. De repente, junto ao muro da escola, parou uma pobre menina, suja, com um irmãozinho ao colo…

— Como te chamas? — perguntou Marco.

— Sílvia — respondeu a menina embalando o irmãozito que chorava.

Marco pensou: — também ela não era Silviazinha.

— Queres pão?

— Quero.

Marco partilhou a sua merenda com Sílvia e ficaram amigos. Todos os dias a menina aparecia, todos os dias Marco partilhava com ela a sua merenda e a menina trazia-lhe uma flor silvestre, que ele guardava cuidadosamente entre as folhas do seu livro. Marco pensava que a vida era cheia de contrastes de luz e de sombras… Mas também pensou que a amizade e o amor estão nos actos e não nas palavras, que não é por um simples inho ou inha que há mais amor. E, daí em diante, sentia-se mais feliz.

Maria José Craveiro R. Valente
O meu mundinho
Aveiro, Livraria Estante Editora, 1987

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Os (meus) Contadores de Histórias


Hoje, quando começámos a Oficina, os alunos – as alunas, para ser mais precisa – fizeram-me um desabafo, com um ar muito infeliz:
“Isto é pouco. Nós só vamos ler a duas escolas, só no concelho de Vizela, não vamos a outros sítios, nem a todas as escolas de Vizela. Nós podíamos ir a mais escolas: a Guimarães, por exemplo…”
Eu já vi este filme. Meteram na cabeça. Passam-me a batata quente e eu tenho de arranjar maneira de lhes resolver o problema.
O mais espantoso é que estamos a falar de crianças de 12, 13 anos que vão, na única tarde livre que têm em toda a semana, ler aos Jardins de Infância e às escolas do 1º ciclo das suas freguesias – voluntariamente. (Quantos adultos fazem trabalho voluntário?)
Mas o que fazem sabe-lhes a pouco. Querem ler em lares de terceira idade, noutros infantários, noutras escolas. E eu arranjei um colégio em Guimarães onde serão bem recebidos às sexta-feiras de tarde. O único problema é que não posso transportar mais do que quatro alunos de cada vez. Mas posso levar quatro alunos de cada vez!

Vem aí a Prima Vera


Era uma vez uma menina chamada Carolina a quem o carteiro, numa bela manhã, entregou uma carta.
Carolina, depois de abrir o envelope, ficou muito surpreendida ao ler o que na carta estava escrito:
“Chego no dia 21 de Março
Estação Nova
Tua Prima”
Voltou a ler a carta, outra vez e ainda outra, sem nada entender:
– Quem será esta prima que eu não conheço? Bem, só faltam três dias para saber.
Três dias? Tanto tempo para uma menina cheia de curiosidade. Por isso, Carolina não sossegou e, na véspera do importante dia, demorou a adormecer.
O dia 21 de Março amanheceu envolvido por um sol radioso.
A menina levantou-se cedo e, vestida com uma roupa de festa como alguém que esperava visitas, saiu de casa. Apertando numa das mãos a carta, dirigiu-se sem demoras à estação dos comboios (que era nova porque tinha sido construída há pouco tempo). Ao chegar viu um grupo de entusiasmados meninos.
Aproximou-se e percebeu que alguns seguravam um envelope.
Resolveu, então, perguntar-lhes o que faziam ali.
Os meninos contaram que cada um tinha recebido uma carta que dizia:
“Chego no dia 21 de Março
Estação Nova
Tua Prima”
Carolina mostrou-lhes a sua carta, que dizia exactamente o mesmo.
Tudo parecia estranho.
Resolveram esperar. Viram passar um comboio, depois outro e ainda outro… Finalmente aproximou-se da estação, em marcha lenta, um comboio que acabou por parar.
Dele saiu uma bonita menina com um vestido coberto de Flores: malmequeres, papoilas, túlipas, lírios… No seu chapéu, amarelo como o sol, esvoaçavam andorinhas e pardais; os seus sapatos eram verdes como a erva dos campos.
Carregada de malas, dirigiu-se aos meninos:
– Fui eu que vos escrevi. Estou muito feliz por terem vindo esperar-me. Sou a vossa Prima.
– Nossa prima? – perguntaram os meninos, de olhos arregalados.
– Como te chamas? – apressou-se a perguntar, Carolina.
– Ah! Ainda não descobriram? Eu sou a Vera. Sou vossa Prima e de todos os meninos do mundo. Costumo chegar aqui neste dia. Sou a… PRIMA VERA!
– Que surpresa tão grande!
Os meninos ficaram radiantes.
Feitas as apresentações, a Prima Vera começou a abrir suas malas para mostrar os presentes que trouxera: SOL, ANDORINHAS, FOLHAS VERDES, FLORES, BORBOLETAS, JOANINHAS e muita, muita ALEGRIA.
Agradecendo a presença de todos, a Prima explicou que iria, de seguida, ao encontro de outros meninos. Mas voltaria para o ano. Palavra de Prima Vera!
Antes de partir, pediu ainda aos meninos que anunciassem a sua chegada a todas as pessoas.
Eles assim fizeram. Correram até suas casas, sorridentes e ansiosos por contar aos pais, irmãos, avós, amigos e vizinhos que era um dia muito especial: tinha chegado a PRIMAVERA!

Lourdes Custódio

Apenas de passagem

Tradição Judaica

Um turista americano, no século passado,
foi visitar o famoso rabino polaco,
Hofez Chaim.
Admirou-se ele ao ver que a casa do rabino
era pouco mais que um quarto
repleto de livros por toda a parte.
De mobília, tinha só uma mesa e um banco.
«Mas, rabino, onde está a sua mobília?»,
pergunta o americano.
«E a sua, onde é que está?», ecoou o rabino.
«A minha? Mas eu estou apenas de passagem;
sou um visitante na cidade»,
responde o americano.
«Pois eu também estou só de passagem»,
concluiu o Rabino.

Anthony de Mello
O canto do pássaro
Lisboa, Ed. Paulinas, 1998

Conto Contigo

Havia há muito decidido desenvolver uma actividade de incentivo à leitura que envolvesse não só os alunos, mas também o seu agregado familiar. Comecei por “sondar” se os alunos estariam receptivos a ler os contos que eu queria que eles lessem. Logo no início do ano, na primeira aula, em jeito de boas vindas, li-lhes um conto, o Encontro com a Dama das Histórias, de que me pareceu terem gostado muito. Passados uns dias, li um outro e, desta vez, mostraram-se tão entusiasmados que decidi aceder ao seu pedido de lhes fotocopiar conto (O Relógio da Avó).
Quase todas as semanas, e porque eles sabem que tenho sempre contos novos “na manga”, lia-lhes mais um, no final de uma aula que acabasse uns minutos mais cedo, por exemplo.
Como prenda de Natal, ofereci-lhes um novo conto, com uma lindíssima mensagem natalícia: A Surpresa do Pai Natal. Foi como se lhes tivesse dado o Sol.
Entretanto, fui perguntando se falavam dos contos em casa, se liam com os pais os que levavam fotocopiados. Que sim, que os pais adoravam, que queriam voltar a lê-los. Estava preparado o terreno.

Escolhi alguns contos, juntei-lhes um pequeno papelinho: “Gostou de conto que o seu filho leu? Porquê?” e três linhas para o adulto explicar por que tinha ou não gostado. Pequenino o papel e pouco espaço para escrever. Não podia assustá-los pedindo um relatório…
Pensava eu que o terreno estava preparado e que os pais, pelo menos num número aceitável, viriam a aderir à actividade. Enganava-me, no bom sentido. Em resposta ao primeiro conto, recebi duas cartas: “a minha mãe disse que aquele espaço não chegava para escrever tudo o que ela queria.”; “está com a minha letra, mas foi o meu pai que escreveu e eu copiei para esta folha” (um apontamento pela mão do pai, no fim da página, confirmava). Foi uma surpresa muito grande e muito boa.
Os comentários ao terceiro e ao quarto contos eram já mais elaborados do que os primeiros, que, na maioria, se limitavam a dizer que gostaram porque “era bonito” ou porque “era interessante”.
Entretanto, começaram a pedir mais, pais e alunos: “a minha mãe já perguntou quando nos dá mais um conto”, “a minha irmã diz que já lhe marcou falta”.

Poderia dizer que, nesta altura, eu estava em êxtase. Mas ficaria sem palavras para descrever o que senti quando, um dia, a Psicóloga da escola me disse “não sabes o que aconteceu ontem”. E contou-me. No dia anterior havia decorrido a primeira sessão de uma acção de formação para os pais e encarregados de educação intitulada “Pais à Medida”. Entre outros temas, abordou a necessidade de os pais passarem tempo com os filhos – e de esse tempo ser de qualidade. Um pai concordava, exemplificando com a oferta televisiva, que absorve, tantas vezes para programas desadequados, a atenção das crianças/adolescentes, outro pai completava com os jogos de computador, com a Internet. E foi então que um deles disse: “Agora uma professora tem mandado uns contos para casa, para eles nos lerem. Estamos ali juntos enquanto eles lêem. Os contos são sempre muito bonitos. E depois acabamos por ficar meia hora ou mais a falar daquilo.” Outro pai concordava, acrescentava um comentário, uma mãe dizia também qualquer coisa. A Psicóloga confessou: “Eu fiquei pasma a olhar para eles. Deixei-os falar, nem disse nada.” E depois acrescentou “Agora sou eu quem quer ler esses contos”. Falou-me do entusiasmo com que os pais falavam dos contos, recontavam as histórias, diziam do bem que os contos estavam a fazer aos filhos.
Foi nessa altura que achei que podia começar a pedir comentários mais longos um bocadinho: aumentei o número de linhas de três para seis, nos tais papelinhos que acompanhavam o conto. Os pais corresponderam, tal como eu esperava, escrevendo comentários mais elaborados, mais completos.

Aproximando-se o fim do período, escrevi aos pais e também aos alunos agradecendo a colaboração e pedindo que respondessem a um pequeno inquérito, no sentido de fazer uma avaliação do projecto e da pertinência de lhe dar continuidade no terceiro período.
As respostas, que apresento nos gráficos das páginas seguintes, não deixam dúvidas. Os contos foram um sucesso, dentro e fora da sala de aula. Sobretudo fora da sala de aula, diria.
É por vezes muito difícil implementar uma actividade na escola que chegue realmente às casas dos alunos, mas desta vez isso aconteceu de uma maneira muito bonita. Mais ainda por ter sido através da palavra escrita, que tanta reserva suscita em algumas pessoas, de todas as idades.

E, se a participação dos pais foi tão surpreendentemente massiva, parece-me que podemos aprender que, contrariamente ao que por vezes achamos, os pais dos nossos alunos têm muito para dar. Precisam é de uma oportunidade.

O céu e o inferno

Um velho e sábio Mandarim teve um dia o privilégio de visitar o outro mundo. Visitou primeiro o Inferno:
Por mais estranho que parecesse, era um lugar lindíssimo, cheio de jardins, de aves raras, de lagos azulados, de montanhas rosadas cujos cimos brilhavam ao sol.
No centro desse lugar, conduziram-no a um palácio maravilhoso onde, numa esplêndida sala de jantar, eram servidas às pessoas as mais deliciosas iguarias confeccionadas com arroz.
No entanto, toda a gente tinha um ar famélico e infeliz. E o velho mandarim compreendeu porquê quando reparou que, para se servirem, lhes tinham distribuído pauzinhos com dois metros de comprimento, com os quais lhes era obviamente impossível levar a comida à boca.
Angustiado por este espectáculo, pediu que o conduzissem depressa ao Céu.
Aí, surpreendido, verificou que a paisagem era idêntica à do Inferno.
E, num belo palácio, em tudo semelhante ao primeiro, encontrou um mesmo banquete, preparado com as mesmas iguarias.
Apenas no rosto das pessoas via uma expressão tranquila, saciada e feliz, que admirava tanto mais quanto os via empunhar os mesmos pauzinhos com dois metros de comprimento.
Observando melhor, notou então que cada pessoa, com os seus pauzinhos, dava de comer à pessoa que se sentava defronte.

Marian Wright Edelman
I can make a difference
Harper Collins Publishers, NY, 2005
(Tradução e adaptação)