Harold Skeels

Nos Estados Unidos, em meados do séc XX, foi feito um estudo muito interessante. Passou-se num orfanato que recebia crianças sem pais ou sem vínculos e que esperavam ser seleccionadas para adopção, o que, naquele tempo, estava vedado a crianças com danos biológicos ou psicológicos graves. Harold Skeels, um psicólogo recém-formado que encontrou neste estabelecimento o seu primeiro emprego, reparou em duas meninas que tinham sido abandonadas pelas mães e chamou-lhe a atenção o seu ar desnutrido, pálido, o cabelo sem cor, o ar de infinito, o balançar constante, o choro sofrido. As suas idades de desenvolvimento eram de seis meses, embora tivessem já dezasseis e vinte e um meses. Não puderam, portanto, ser seleccionadas para adopção. Foram, então, transferidas para uma instituição de senhoras com grande atraso mental, como se dizia na época. Três meses depois, quando foi visitá-las, o próprio Skeels não podia acreditar no que via. As meninas haviam sido adoptadas por duas daquelas mulheres, que tinham uma idade mental entre cinco e nove anos. As meninas sorriam, tinham um ar alerta e interagiam com aquelas mulheres, que lhes tinham dado o seu afecto, brincavam juntas, jogavam e conversavam. Dois anos depois, em nova avaliação, a idade de desenvolvimento das meninas correspondia à sua idade cronológica.

Quando foi nomeado director da instituição, Skeels decidiu fazer uma experiência. Seleccionou dois grupos de crianças todas na idade do início de marcha. Um dos grupos era integrado por crianças com atraso, não seleccionáveis para adopção, e transferiu-as para o internato de senhoras com deficiência mental. No segundo grupo, colocou crianças da mesma idade, mas com um desenvolvimento correspondente à idade cronológica, que permaneceram no orfanato, aguardando adopção. À partida, as crianças do grupo experimental tinham um QI médio inferior a 64, enquanto no grupo de controlo o QI médio era superior a 82. Dois anos depois, os valores médios dos QI estavam invertidos. As crianças do grupo experimental tinham sido adoptadas por senhoras do asilo e subiram, em média, 30% no seu quociente de desenvolvimento. As crianças do grupo de controlo, por terem perdido sensivelmente o mesmo número de pontos, deixaram de preencher os requisitos necessários para serem adoptadas, o que veio a acontecer, cinco anos depois, com onze das treze crianças do grupo experimental: foram adoptadas por famílias da comunidade.

Trinta anos depois, em 1996, foi publicado um follow-up desta história. Grupo experimental: onze das treze crianças foram adoptadas, doze casaram, quase todas fizeram pelo menos o 12º ano, tiveram 28 filhos, com um QI médio de 104. A história de deterioração do grupo de controlo não parou. Nenhuma das crianças foi adoptada, permaneceram em instituições, com uma vida cada vez mais degradada, o máximo que conseguiram estudar foi a terceira classe, só duas casaram, tiveram cinco filhos, alguns com atraso.

Todos concordaremos que as crianças que foram adoptadas por senhoras deficientes mentais não receberam qualquer estímulo do ponto de vista cognitivo. A diferença está na ternura que receberam. Foi o que fez a diferença para terem sentido de pertença e, a partir daí, sentido de coerência na vida, resiliência.

Apenas por curiosidade: recentemente, a Universidade do Minessotta conferiu um grau honorífico a Skeels pelo seu estudo. O Reitor que lhe entregou o diploma fez um breve discurso elogiando as suas qualidades científicas e humanas. No fim acrescentou o que disse ser um pormenor, mas também mais uma razão para estar ali, emocionado. É que, disse ele, “Eu fui uma daquelas crianças que o senhor salvou!”…

Moral da história: mais do que de jogos fantásticos, os nossos filhos precisam de mimo, de beijos, de colo. Um dos conselhos mais sábios que recebi quando estava grávida da minha primeira filha veio de uma tia, que me disse: “Não te dou mais conselhos, mas dá-lhe muito mimo. E leva-a para a tua cama.”

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Lendo “O Dia-da-Presença”

Há vários aspectos a reter nesta história do Jorge. O mais importante é o paralelo que se estabelece entre brincar com os pais e festejar o aniversário. O aniversário festeja-se uma vez por ano, daí ser um acontecimento mágico. Para o acto de brincar com os pais ser igualmente mágico tem de ser igualmente raro. Sendo os filhos o bem mais precioso que temos na vida, como não arranjamos tempo para estar com eles – a brincar ou a fazer qualquer outra coisa?

Na verdade, levamos sempre uma vida tão agitada que os dias começam e acabam sem darmos conta e sem conseguirmos fazer nada que nos dê prazer. E todos os dias juramos que Hoje vai ser diferente. Hoje, quando for buscá-los à escola, vou estar de cara alegre, vou ter calma enquanto os ajudo a fazer os trabalhos de casa, não vou levantar a voz.

Mas acabamos por cair numa tentação, sempre a mesma: Então, que fizeste na escola? Com quem brincaste? Tens testes marcados? Quando são pequenitos, respondem com silêncio, mas à medida que vão crescendo verbalizam o que lhes vai na alma: Lá vem o interrogatório!

Eles têm razão. Coloquemo-nos no lugar deles: quando chegamos a casa, no final de um dia de trabalho, o que nos apetece é despir o dia. E se enfrentássemos uma série de perguntas sobre o patrão prepotente, o colega falso, o cliente que não paga, o fornecedor que falhou… Socorro! Deixem-me chegar a casa! Eu quero tirar os sapatos, mudar de roupa, chegar a casa! Já repararam como por vezes o simples gesto de fechar a porta de casa atrás de nós nos acalma, como se todos os problemas ficassem do lado de fora?

Os nossos filhos também precisam de sair do trabalho, que, no caso deles, é a escola, precisam de chegar a casa. Ao tentar saber tudo sobre o dia deles, estamos a impedi-los de fechar esse capítulo do dia, a obrigá-los a permanecer no trabalho.

Mas a verdade é que, quando são muito pequenos e os deixamos no infantário, parece que passamos o dia inteiro sem um braço ou sem uma perna e quando vamos buscá-los ao fim do dia precisamos de reaver aquele pedaço de vida deles de que estivemos ausentes. Então como conseguir isso sem fazer o tal interrogatório? Através da leitura.

Se conseguirmos criar o hábito de ler todos os dias com os nossos filhos, à noite, ao deitar, que é aquela hora mágica em que eles relaxam e se confessam, matamos muitos coelhos com a mesma cajadada. A história à hora de deitar pode funcionar como uma trégua, depois de todas as birras e ralhetes.

Criamos uma relação de proximidade com eles que vai fazer com que nos contem, sem que perguntemos, as coisas importantes que se passaram durante o dia. Mas fazemos muito mais do que isso. Fazemos com que eles associem a leitura a um momento de prazer, como um oásis de tranquilidade no fim de mais um dia agitado. Identificando a leitura com um momento de prazer, eles aprendem a gostar de ler e, na mais básica relação de causa e efeito, tornam-se bons alunos.

Devemos começar a ler-lhes muito cedo. Tão cedo quanto possível. Devemos ler aos nossos filhos a partir dos primeiros meses, das primeiras semanas, dos primeiros dias de vida. Nunca é cedo de mais. Mas também nunca é demasiado tarde para introduzir um novo bom hábito.

Ler a um filho é a contribuição mais importante que um pai ou uma mãe pode dar para o seu sucesso escolar. Embora diversos agentes educativos enfatizem a importância de fornecer um local de estudo adequado, com boa iluminação, silêncio, etc, uma criança que tenha competências de leitura e de escrita insuficientes nunca alcançará bons resultados escolares.

Um bom leitor tem um vocabulário rico e sabe utilizar correctamente a linguagem oral e escrita, de forma a veicular adequadamente as suas ideias – e obterá bons resultados académicos em todas as áreas, tanto das letras como das ciências. O motivo é muito simples: as capacidades de compreender um problema de Matemática, um texto em Ciências e de responder a um teste de História dependem da fluência de linguagem que a criança possui.

A pergunta que os pais fazem com mais frequência é esta: A partir do momento em que aprende a ler, não deve ser a própria criança a ler? Esta é uma pergunta legítima. Afinal, o que vai condicionar o sucesso escolar da criança é a sua própria capacidade para utilizar a língua – não a dos pais. Acontece que ler a uma criança é a melhor maneira de a tornar fluente na leitura autónoma. O aspecto que distingue as crianças que aprendem a ler sozinhas não é o seu QI, nem o nível socioeconómico ou académico dos pais, mas o facto de os seus pais lhes lerem regularmente, frequentemente, a partir dos materiais mais variados.

Muitos pais são muito cuidadosos com a leitura aos filhos, por exemplo à hora de deitar, mas deixam de lhes ler quando entram na escola, supondo que, uma vez que está a aprender a ler, a criança deve ler sozinha. Na verdade, os pais devem continuar a ler aos seus filhos ao longo de toda a infância e até à adolescência.

Uma criança em idade pré-escolar beneficia da leitura efectuada por um adulto porque é exposta ao nível de linguagem que um dia utilizará, da mesma forma que uma criança de dez anos beneficia ao ouvir um nível de linguagem mais difícil do que já consegue utilizar. Um texto complexo, em estrutura e vocabulário, para um aluno de oitavo ano pode ser complicado de ler, mas facilmente compreendido se for ouvido. Os mecanismos cerebrais envolvidos na audição e na leitura são diferentes.

Sabemos que educamos sobretudo pelo exemplo. Além de ler aos filhos, incutiremos neles o gosto pela leitura se eles nos virem ler. Se eles perceberem que, para nós, ler é bom, vão querer ler também.

E devemos criar em casa um clima favorável à leitura. Devemos ter livros, jornais, revistas… Todo o tipo de material de leitura. E devemos colocá-lo à mão de semear: nos locais onde as pessoas estão paradas, sem distracção… Um cesto com livros na casa de banho, outro junto à mesa da cozinha (quem nunca leu o rótulo de uma caixa de cereais?), basicamente… espalhemos material de leitura por toda a casa.

Leituras de Verão

Está demonstrado que os maiores danos à competência da leitura ocorrem fora da escola – durante o Verão. Mas não em todas as crianças.

Muitos pais, especialmente aqueles cujos filhos têm dificuldades na escola, levam à letra a ideia de que o Verão é sinónimo de férias escolares. “Todas as pessoas precisam de férias!”, exclamam. “O meu filho precisa de desligar da escola e relaxar. O próximo ano será um novo começo.”

Esta atitude pode ser muito nefasta, principalmente para um leitor medíocre, que enquanto “relaxa” se afasta ainda mais do colega que lê seis livros durante o mesmo Verão. Dentro de alguns anos, quando a distância entre os dois for ainda maior, o pai culpará a escola por não ter ajudado o seu filho. Alvo errado.

Um estudo realizado pela Universidade de Johns Hopkins, nos Estados Unidos, junto de 3000 estudantes ao longo de dois anos concluiu que todos – bons e maus alunos – têm um ritmo de aprendizagem mais lento durante o Verão, mas alguns, mais do que abrandar, regridem nas aprendizagens. Bons e maus alunos têm ritmos de aprendizagem semelhantes ao longo do ano mas, durante as férias de Verão, a criança que parte desfavorecida regride vários meses de aprendizagem. Com sucessivas perdas, ao longo de vários Verões, essa criança estará cada vez mais atrasada.

Esta diferença é provocada por um grande número de factores.

O Verão de uma criança fluente na leitura inclui: uma família de leitores, que ensina pelo exemplo; uma casa rica em material impresso, que inclui livros, revistas e jornais; visitas ao centro comercial com passagens pelas livrarias e bibliotecas; umas férias em família, em que novas pessoas, novos lugares e novas experiências ampliam a cultura geral e oferecem novo vocabulário; e uma grande probabilidade de ver e ouvir programas educativos e informativos na televisão e na rádio – e não apenas programas com orientação comercial.

Pelo contrário, o Verão da criança em risco inclui muitas vezes uma casa sem leitura, o que pode ser fatal. Num estudo realizado junto de estudantes de classe média-baixa, permitiu-se a 852 crianças que escolhessem 12 livros. Outras 478 crianças receberam puzzles e livros de actividades. Depois das férias de Verão, os testes revelaram que as crianças “dos livros” tinham evoluído duas vezes mais do que o grupo “dos puzzles”.

As crianças que passam um Verão sem ler perdem grande parte das suas competências de leitura.

Sem adultos que promovam a leitura através do exemplo e alguém que lhes leia, sem material de leitura e sem novas experiências, as competências de leitura enferrujam.

Como prevenir a perda de Verão na leitura? As pesquisas realizadas até à data dão grande ênfase à leitura – ler à criança e ler pela criança. A leitura de quatro a seis livros (livros em capítulos) durante o Verão é suficiente para aliviar a perda típica do Verão. Além disso, se a escola pedir um trabalho sobre um livro lido durante as férias, ou se os pais verificarem que a criança lê pelo menos um livro durante esse período, aumentam significativamente as probabilidades de a criança ler um livro.

As crianças que lêem mais fora da escola são também aquelas que lêem melhor. Por outras palavras: quantas mais páginas, melhores notas.

Inscreva o seu filho na biblioteca municipal, dê passeios com ele, mesmo que se desloque apenas a locais dentro da cidade, como o quartel dos bombeiros, um museu, converse com ele, ouça-o.

Quanto aos livros, a biblioteca pública tem todos os que poderemos desejar – gratuitos. E não se esqueça que um livro usado que custe €0,50 tem as mesmas palavras que um livro novo que custa €15.

Para uma criança que não está habituada a ler durante mais do que breves períodos de tempo, é importante limitar o seu tempo de leitura em solitário a dez a quinze minutos. Mais tarde, quando estiverem habituados a ler sozinhos e se sentirem mais envolvidos com a leitura, esse período de tempo pode estender-se – muitas vezes a pedido da criança.

É importante ter uma variedade de material disponível – revistas, jornais, ficção e livros ilustrados. Uma visita semanal à biblioteca resolve este problema. Quanto mais variado o material de leitura existente em casa, melhor o aproveitamento escolar.

Obrigar uma criança a ler não desmotiva?

Não mandamos os nossos filhos escovar os dentes diariamente? E mudar a roupa interior? E preocupa-nos a ideia de eles, tornando-se adultos, deixarem de escovar os dentes e de mudar de roupa, só porque eram coisas que os obrigávamos a fazer quando eram pequenos?

A capacidade de uma criança para alcançar objectivos maiores depende directamente da sua competência de leitura.

Quando nada se pede, habitualmente nada se recebe.

Como obrigar as crianças a ler e conseguir que a leitura continue a ser um acto de prazer? É bom recordar que o prazer não se ensina (o que significa – ler em voz alta). Depois:

  • Assegure-se de que você (o adulto modelo) é visto a ler diariamente. Funciona melhor se ler ao mesmo tempo que a criança.
  • Para crianças mais novas, ver livros de imagens e virar as páginas é “ler”.
  • Deixe que a criança escolha os livros que quer ler sozinha, mesmo que eles não vão de encontro às escolhas que gostaria que ela fizesse.
  • Nas viagens de carro, leve CDs com histórias gravadas – também contam.
  • Estabeleça parâmetros temporais, curtos no início e mais longos à medida que a criança cresce e lê mais.
  • Jornais, revistas e até bandas desenhadas devem ser contabilizados como tempo de leitura. Tudo isto constitui exposição à palavra impressa.
  • A selecção e o interesse da criança são importantes. Deixe a criança ler o que lhe interessa.

O objectivo é criar um leitor para toda a vida.

E todos aqueles que lêem pela vida fora passaram os Verões a ler.

Fonte: Jim Trelease

(Tradução e adaptação)

Leituras de Verão-leaflet

Se tem filhos, leia.

10 factos que os pais precisam de saber sobre a leitura

1. A leitura é a área de aprendizagem mais importante. Porquê? Porque uma criança precisa de saber ler para obter sucesso em todas as disciplinas. É extremamente difícil resolver problemas na Matemática se não se conseguir lê-los. Como responder a perguntas em História ou Ciências se não se conseguir ler o manual?
Se é assim tão importante, como é que uma criança “se torna um craque” na leitura?
Leia.

2. Em todo o mundo, as crianças que lêem mais lêem melhor. Isto aplica-se a todas as classes sociais: ricos e pobres, urbanos e rurais. Em todos os escalões de rendimentos, quanto mais as crianças lêem em casa, melhores notas têm na escola. Os alunos provenientes de famílias mais pobres são os que apresentam um ganho mais significativo quando começam a ler mais.
Então como fazer com que eles leiam em casa?
Leia.

3. Os seres humanos procuram o prazer. Se gostamos de algo, fazemo-lo repetidas vezes. Escolhemos os restaurantes preferidos e pedimos a comida e a bebida de que gostamos – não o que não nos agrada. Então, se quer que o seu filho visite a leitura mais frequentemente, faça com que ele goste de ler.
E como fazer com que eles gostem assim tanto?
Leia.

4. Leia-lhes em voz alta desde a primeira infância. Inicialmente, o som da sua voz será uma fonte de calma, fazendo com que a criança identifique o leitor e o livro com segurança. À medida que a criança cresce, cresce também a quantidade de tempo que deve passar a ler-lhe – começando por poucos minutos e indo até pelo menos vinte minutos, de livros ilustrados até livros mais extensos, em capítulos.
Compreendo os benefícios de ler a crianças, mas pensava que a partir do 1º ano devia ser o meu filho a ler-me. Como é que ele pode melhorar na leitura se for eu a ler?
Leia o próximo parágrafo.

5. A compreensão oral antecede a compreensão escrita. Precisamos de ouvir uma palavra antes de conseguirmos dizê-la, lê-la, escrevê-la. Se nunca tivermos ouvido a palavra “enorme” em contexto, não a compreenderemos quando precisarmos de a ler ou escrever. O cérebro de uma criança tem uma espécie de “reservatório de palavras” e uma das funções dos pais é colocar lá dentro tantas palavras que façam esse reservatório transbordar para o discurso oral e depois para a leitura e para a escrita. Aos quatro anos de idade, uma criança rica terá ouvido 45 milhões de palavras, em família, enquanto uma criança pobre terá ouvido apenas 13 milhões. Esta diferença de 32 milhões de palavras equivale a um ano de vantagem para a criança rica. Factor importante: uma criança passa cerca de 1100 horas por ano na escola e 7600 horas por ano em casa. Quem é o professor mais importante?
A que idade se deve deixar de ler a uma criança?
Leia.

6. As crianças lêem a um nível e ouvem a um nível mais elevado. Normalmente, só pelo 8º ano é que a leitura alcança a audição. Isto significa que uma criança que frequenta o primeiro ano consegue ouvir e compreender livros de 3º e 4º ano, que ainda não consegue ler. Estes livros mais extensos apresentam gradualmente novas palavras, novas ideias, e um mundo para além do bairro em que a criança vive – o que os ajuda a compreender melhor o que precisam de ler nos seus manuais escolares.
E as famílias que não podem comprar livros?
Leiam.

7. Os campeões Olímpicos de esqui vêm de países onde há neve. Há investigações que demonstram que as crianças em cujas casas existe mais material de leitura – livros, revistas, jornais – lêem melhor. Além disso, utilizam a biblioteca mais do que os que têm notas mais baixas. As bibliotecas são o local onde podemos encontrar mais e melhores livros – todos gratuitos. É bom não esquecer que um livro usado que custe 50 cêntimos tem as mesmas palavras que uma cópia novinha em folha que custa € 12,90. As famílias de leitores utilizam um kit de sobrevivência: livros, um cesto com livros na casa de banho e um candeeiro de cabeceira. Coloque um cesto com livros e revistas na casa de banho e outro junto à mesa da cozinha. Coloque um candeeiro na mesa-de-cabeceira do seu filho e conceda-lhe o privilégio de ter a luz acesa durante mais 15 minutos para ler (ou apenas para ver as imagens num livro) na cama. Este poderá ser o mais importante curso nocturno que ele virá a frequentar.

8. Os factos de uma criança ver demasiada televisão e ter más notas na escola estão intimamente ligados. Dito de uma forma simples: aqueles que vêm mais televisão são os que lêem menos. Está demonstrado que ver até 10 horas de televisão por semana (1h15min por dia) não tem impacto no aproveitamento escolar, mas se uma criança vir televisão durante mais tempo as suas notas caem. Hoje em dia, 60% das crianças tem televisão no quarto. Em média, uma criança passa 1460 horas por ano a ver televisão ou DVDs e em jogos de computador, o que equivale a ver E Tudo o Vento Levou 392 vezes num ano.
E que tal comprar daqueles programas de computador ou CDs anunciados na televisão que ensinam a ler?
Leia.

9. O aparelho mais barato para ensinar a ler já está lá em casa. As crianças finlandesas são, em todo o mundo, as que lêem melhor. Utilizam-no com muita frequência e é grátis. São as legendas nos programas de televisão. Liga-se através do telecomando da televisão. Inconscientemente, as crianças absorvem palavras e os seus sons, estabelecendo relações sobre como se utiliza o discurso escrito. Todo o texto escrito conta.
E os audiolivros – contam?
Leia.

10. Embora não seja tão boa como um adulto a ler, ao vivo, que pode interromper para explicar um detalhe da história, uma voz gravada é melhor do que nada. Além de que é uma grande ajuda para um pai ou uma mãe que tenha algum problema relacionado com a leitura ou com a fala, ou para quem o Português não é a língua mãe. (Acontece que ler a uma criança numa língua estrangeira resulta igualmente no enriquecimento do vocabulário e estabelece uma ponte para o amor aos livros e à leitura.) As bibliotecas públicas começam a ter uma boa oferta de audiolivros – todos gratuitos.

Fonte: Jim Trelease