A menina e o pássaro encantado

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

* * *

Para o adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…

As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003

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Se tem filhos, leia.

10 factos que os pais precisam de saber sobre a leitura

1. A leitura é a área de aprendizagem mais importante. Porquê? Porque uma criança precisa de saber ler para obter sucesso em todas as disciplinas. É extremamente difícil resolver problemas na Matemática se não se conseguir lê-los. Como responder a perguntas em História ou Ciências se não se conseguir ler o manual?
Se é assim tão importante, como é que uma criança “se torna um craque” na leitura?
Leia.

2. Em todo o mundo, as crianças que lêem mais lêem melhor. Isto aplica-se a todas as classes sociais: ricos e pobres, urbanos e rurais. Em todos os escalões de rendimentos, quanto mais as crianças lêem em casa, melhores notas têm na escola. Os alunos provenientes de famílias mais pobres são os que apresentam um ganho mais significativo quando começam a ler mais.
Então como fazer com que eles leiam em casa?
Leia.

3. Os seres humanos procuram o prazer. Se gostamos de algo, fazemo-lo repetidas vezes. Escolhemos os restaurantes preferidos e pedimos a comida e a bebida de que gostamos – não o que não nos agrada. Então, se quer que o seu filho visite a leitura mais frequentemente, faça com que ele goste de ler.
E como fazer com que eles gostem assim tanto?
Leia.

4. Leia-lhes em voz alta desde a primeira infância. Inicialmente, o som da sua voz será uma fonte de calma, fazendo com que a criança identifique o leitor e o livro com segurança. À medida que a criança cresce, cresce também a quantidade de tempo que deve passar a ler-lhe – começando por poucos minutos e indo até pelo menos vinte minutos, de livros ilustrados até livros mais extensos, em capítulos.
Compreendo os benefícios de ler a crianças, mas pensava que a partir do 1º ano devia ser o meu filho a ler-me. Como é que ele pode melhorar na leitura se for eu a ler?
Leia o próximo parágrafo.

5. A compreensão oral antecede a compreensão escrita. Precisamos de ouvir uma palavra antes de conseguirmos dizê-la, lê-la, escrevê-la. Se nunca tivermos ouvido a palavra “enorme” em contexto, não a compreenderemos quando precisarmos de a ler ou escrever. O cérebro de uma criança tem uma espécie de “reservatório de palavras” e uma das funções dos pais é colocar lá dentro tantas palavras que façam esse reservatório transbordar para o discurso oral e depois para a leitura e para a escrita. Aos quatro anos de idade, uma criança rica terá ouvido 45 milhões de palavras, em família, enquanto uma criança pobre terá ouvido apenas 13 milhões. Esta diferença de 32 milhões de palavras equivale a um ano de vantagem para a criança rica. Factor importante: uma criança passa cerca de 1100 horas por ano na escola e 7600 horas por ano em casa. Quem é o professor mais importante?
A que idade se deve deixar de ler a uma criança?
Leia.

6. As crianças lêem a um nível e ouvem a um nível mais elevado. Normalmente, só pelo 8º ano é que a leitura alcança a audição. Isto significa que uma criança que frequenta o primeiro ano consegue ouvir e compreender livros de 3º e 4º ano, que ainda não consegue ler. Estes livros mais extensos apresentam gradualmente novas palavras, novas ideias, e um mundo para além do bairro em que a criança vive – o que os ajuda a compreender melhor o que precisam de ler nos seus manuais escolares.
E as famílias que não podem comprar livros?
Leiam.

7. Os campeões Olímpicos de esqui vêm de países onde há neve. Há investigações que demonstram que as crianças em cujas casas existe mais material de leitura – livros, revistas, jornais – lêem melhor. Além disso, utilizam a biblioteca mais do que os que têm notas mais baixas. As bibliotecas são o local onde podemos encontrar mais e melhores livros – todos gratuitos. É bom não esquecer que um livro usado que custe 50 cêntimos tem as mesmas palavras que uma cópia novinha em folha que custa € 12,90. As famílias de leitores utilizam um kit de sobrevivência: livros, um cesto com livros na casa de banho e um candeeiro de cabeceira. Coloque um cesto com livros e revistas na casa de banho e outro junto à mesa da cozinha. Coloque um candeeiro na mesa-de-cabeceira do seu filho e conceda-lhe o privilégio de ter a luz acesa durante mais 15 minutos para ler (ou apenas para ver as imagens num livro) na cama. Este poderá ser o mais importante curso nocturno que ele virá a frequentar.

8. Os factos de uma criança ver demasiada televisão e ter más notas na escola estão intimamente ligados. Dito de uma forma simples: aqueles que vêm mais televisão são os que lêem menos. Está demonstrado que ver até 10 horas de televisão por semana (1h15min por dia) não tem impacto no aproveitamento escolar, mas se uma criança vir televisão durante mais tempo as suas notas caem. Hoje em dia, 60% das crianças tem televisão no quarto. Em média, uma criança passa 1460 horas por ano a ver televisão ou DVDs e em jogos de computador, o que equivale a ver E Tudo o Vento Levou 392 vezes num ano.
E que tal comprar daqueles programas de computador ou CDs anunciados na televisão que ensinam a ler?
Leia.

9. O aparelho mais barato para ensinar a ler já está lá em casa. As crianças finlandesas são, em todo o mundo, as que lêem melhor. Utilizam-no com muita frequência e é grátis. São as legendas nos programas de televisão. Liga-se através do telecomando da televisão. Inconscientemente, as crianças absorvem palavras e os seus sons, estabelecendo relações sobre como se utiliza o discurso escrito. Todo o texto escrito conta.
E os audiolivros – contam?
Leia.

10. Embora não seja tão boa como um adulto a ler, ao vivo, que pode interromper para explicar um detalhe da história, uma voz gravada é melhor do que nada. Além de que é uma grande ajuda para um pai ou uma mãe que tenha algum problema relacionado com a leitura ou com a fala, ou para quem o Português não é a língua mãe. (Acontece que ler a uma criança numa língua estrangeira resulta igualmente no enriquecimento do vocabulário e estabelece uma ponte para o amor aos livros e à leitura.) As bibliotecas públicas começam a ter uma boa oferta de audiolivros – todos gratuitos.

Fonte: Jim Trelease

Tens namorada, Jerónimo?

Ainda sou uma criança. O que não significa que seja um bebé.
Bebé é a minha irmã Rosa, que ainda não sabe andar nem falar, e que faz xixi nas fraldas. Uma coisa é ser-se criança, outra é ser-se bebé.
Gosto de ir ao mercado com os meus pais. Paramos numa e noutra banca a fazer compras.
— Olá, Jerónimo — diz o peixeiro.
— Olá — respondo.
— Então, já tens namorada?

***

Hortênsia, a senhora que vende fruta, dá-me sempre alguma coisa: uma tangerina, uvas, uma banana…
— Obrigado — digo, para os meus pais não dizerem que sou mal-educado.
— Gostas?
— Sim.
— Ainda bem, Jerónimo… Já arranjaste uma namorada? — pergunta ela, também.

***

No outro dia, o telefone tocou e, como estava perto, atendi.
— Estou?
— Sou o Leonardo.
Leonardo é um amigo do meu pai. Jogam os dois aos fins-de-semana numa equipa de futebol de salão.
— Como vai isso, Jerónimo?
— Tudo bem.
— E então, como está a tua namorada?

***

No domingo, fomos comer a casa dos meus avós. Foi muito agradável. Também lá estavam os meus tios e primo, que é da minha idade. Quando acabámos de comer, o meu tio, que estava sentado ao meu lado, deu-me uma cotovelada.
— O teu primo já tem namorada. E tu, Jerónimo?

***

O porteiro do meu prédio chama-se Nando. Embora todos o tratem assim, é bastante idoso: tem cabelos brancos e é muito surdo.
Quando vou para a escola de manhã, lá está ele a varrer a entrada do prédio.
— Olá, Jerónimo.
— Olá, Nando.
— Um dia destes vou apresentar-te a uma neta muito linda que tenho — diz-me ele. — Pode ser que se tornem namorados….

***

Pensei muito e, por fim, decidi-me.
Na escola, aproveitei a meia hora do recreio. Em vez de ir jogar, como de costume, fui para junto da Lorena, que estava a desembrulhar a sua sandes.
— A minha é de queijo — disse-lhe. — E a tua?
— De mortadela.
— Se quiseres, podemos dividi-las.
— Está bem.
Como a Lorena aceitou a minha proposta, pensei que isso significasse qualquer coisa. Por isso, perguntei-lhe:
— Queres ser minha namorada?
— Não — respondeu ela.
— Porquê? — insisti.
— Porque desde ontem que sou a namorada do Assis.
Que fracasso! E eu que, ainda por cima, não gosto nada de mortadela!

***

Propus namoro à Noélia, à Mila, à Carolina e à Isabel.
Mas a Noélia já era namorada do Xavier. A Mila namorava com o Luís, a Carolina com o Gustavo e a Isabel com o Ricardo.
Afastei-me delas, um pouco envergonhado.

***

A Bárbara é a minha melhor amiga. Vivemos muito perto e, depois da escola, fico muitas vezes a brincar com ela, a fazer os trabalhos de casa, ou a ver um filme na televisão.
— Bárbara, tens namorado? — perguntei-lhe.
— Não.
Respirei, satisfeito. Sabia que a Bárbara não me deixaria ficar mal.
— Queres ser minha namorada, Bárbara?
— Não.
Fiquei de boca aberta e levei algum tempo a reagir.
— Porquê?
— Porque nunca me vou casar. Quero ser sempre solteira.

***

Porque é que todos os adultos me perguntam se tenho uma namorada?
Não se dão conta de que ainda sou uma criança?
Não percebem que as crianças como eu gostam é de correr no recreio, caminhar nas poças quando chove, ou ir ao parque de diversões?
Além disso, penso fazer como a Bárbara: quero ficar sempre solteiro!

Alfredo Gómez Cerdá
Soy… Jerónimo
Madrid: Bruño, 2006
(Tradução e adaptação)

Para que tu não esqueças…

Tradução do cartoon:

Menina:Tenho que lhe dizer uma coisa, senhor… Tem no seu braço uma tatuagem sem graça nenhuma. É só um monte de números.
Senhor: Bem, teria a tua idade quando ma fizeram. Mantenho-a como uma recordação.
Menina: Oh! … Uma recordação de dias mais felizes?
Senhor: Não, de um tempo em que o mundo ficou louco.
“Imagina-te a ti mesma num país em que os teus compatriotas seguem a voz de um político extremista que não gostava da tua religião.
Imagina que te tiravam tudo, que enviavam toda a tua família para um campo de concentração, para trabalhar como escravos, e serem assassinados sistematicamente. Nesse sítio tiravam-te até o teu nome para ser substituído por um número tatuado no teu braço.
Chamou-se a isso O Holocausto, quando milhões de pessoas foram mortas só pelas sua crenças religiosas…”
Menina: Então tu usas essa tatuagem para recordares o perigo das políticas extremistas!
Senhor: Não, querida. É para que tu o recordes.

Irena Sendler

Durante a 2ª Guerra Mundial, Irena conseguiu uma autorização para trabalhar no Gueto de Varsóvia, como especialista de canalizações.

Mas os seus planos iam mais além… Sabia quais eram os planos dos nazis relativamente aos judeus (sendo alemã!)
Irena trazia meninos escondidos no fundo da sua caixa de ferramentas e levava um saco de sarapilheira, na parte de trás da sua camioneta (para crianças de maior tamanho). Também levava na parte de trás da camioneta, um cão a quem ensinara a ladrar aos soldados nazis quando entrava e saia do Gueto.
Claro que os soldados não queriam nada com o cão e o ladrar deste encobriria qualquer ruído que os meninos pudessem fazer.
Enquanto conseguiu manter este trabalho, conseguiu retirar e salvar cerca de 2500 crianças.
Por fim os nazis apanharam-na e partiram-lhe ambas as pernas e os braços e prenderam-na brutalmente.
Irena mantinha um registo com o nome de todas as crianças que conseguiu retirar do Gueto, que guardava num frasco de vidro enterrado debaixo de uma arvore no seu jardim.
Depois de terminada a guerra tentou localizar os pais que tivessem sobrevivido e reunir a familia. A maioria tinha sido levada para aa câmaras de gás. Para aqueles que tinham perdido os pais ajudou a encontrar casas de acolhimento ou pais adoptivos.
No ano de 2007 foi proposta para receber o Prémio Nobel da Paz… mas não foi seleccionada. quem o recebeu foi Al Gore por uns diapositivos sobre o Aquecimento Global.

As minhas leituras

É difícil situar no tempo o meu primeiro contacto com os livros. Lembro-me de ter livros desde sempre, de brincar com eles, eram de pano os primeiros, liam-mos, eu memorizava-os e fingia que os lia. Como faz hoje a minha filha de três anos.

As histórias, contadas ou cantadas, foram uma constante ao longo da primeira infância. Pela voz da minha mãe, inevitavelmente, das minhas tias – são muitas.
Foi assim, claro, que conheci o Capuchinho Vermelho, a Cinderela, Os Três Porquinhos e que aprendi a ter medo do lobo mau. Algumas histórias assustavam-me, como João e Maria e uma outra a que chamavam Rola, Rola Cabacinha. Uma tia alterava-lhe piedosamente o final, por achar, também ela, que a criada que lha contara exagerara na fidelidade ao original.

Os primeiros livros que li foram, inevitavelmente, os da Anita. Foram os meus favoritos durante muito tempo, não só para ler, mas também para oferecer às amigas nos seus aniversários.
Nas manhãs de sábado, deliciava-me à roda das mesas de uma livraria desaparecida há quase trinta anos, escolhendo o livro dessa semana.
Eu, a minha irmã e as primas trocávamo-los, depois, o que nos permitia expandir a biblioteca.
Os livros da colecção Formiguinha tinham o tamanho ideal: iam, aos seis de cada vez, no bolso da bata, para ler durante o recreio, no Colégio – e tinham a dimensão certa também quanto ao texto em si. Evitavam-me a vergonha do mau jeito para participar nas brincadeiras mais “físicas” das amigas e davam-me o conforto de uma pausa mais “à minha maneira”.
Como todas as meninas da minha geração, li toda a Condessa de Ségur, que havia deliciado as minhas tias, também, no seu tempo, e devorei a Enid Blyton: Os Cinco, Os Sete, As Gémeas… À mistura com os contos de Andersen, o preferido durante muitos anos, tantos que ainda hoje ocupa um lugar especial, Grimm, as fábulas de La Fontaine.
Mais tarde, O Principezinho fez as minhas delícias: reli-o vezes sem conta, coleccionei-o em todas as línguas – numas li, noutras não, claro. Marcava maratonas de leitura com as amigas: “Começamos todas às nove. Amanhã contamos a que horas acabámos.” Os telemóveis, as mensagens, os mails, eram uma realidade nem sequer sonhada.

Ainda durante a adolescência, passei por Júlio Dinis e algumas coisas de Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós, desta vez pela mão do meu pai, mas também pela curiosidade que uma lombada me suscitava, entre tantas, numa prateleira. Ou pelo bem que me sabia ler o que o avô tinha lido, à luz da vela.

O ponto de viragem nas minhas leituras aconteceu numa aula de Filosofia, no 10º ano – tinha eu quinze anos. O professor desafiou-me a ler A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera. Digo que me desafiou porque foi isso mesmo que ele fez: “Não sei se vais conseguir.” Não apenas consegui: devorei. E as minhas leituras mudaram de rumo. Li todos os livros do Kundera e daí passei para uma série de outros autores – quase sempre estrangeiros – que escolhia por pertencerem à mesma colecção e terem títulos chamativos, ou por sugestão de professores, muitas vezes, mas sobretudo de um livreiro amigo, que foi o maior amante de livros que conheci. E acertava sempre.

Na altura em que estalou a polémica em torno de Os Versículos Satânicos, de Salman Rushdie, e na indisponibilidade deste título em tradução portuguesa, comecei por outros dois do mesmo autor: Vergonha e Os Filhos da Meia-Noite. Pela mesma altura, li O Perfume, de Patrick Süskind, que continuo a considerar um dos mais belos romances. (Tenho muitos nesta categoria…)

Gabriel García Márquez entrou na minha vida com O Amor nos Tempos de Cólera, que já reli umas vezes. Depois, Cem Anos de Solidão e só mais tarde, quando comecei a frequentar a Feira do Livro do Porto, conheci os seus contos e novelas. Não vou citar títulos: li todos. Encontrava-os já à saída da feira, numa pequenina banca da Gradiva e excedia sempre o orçamento que impusera a mim própria à entrada. Posso dizer que é o meu autor preferido. Lê-lo é como tomar o pequeno-almoço sobre um enorme relvado de frente para o mar das Caraíbas. É assim que imagino o sítio onde ele escreve.
Por gostar tanto dos seus livros, cheguei a outros latino-americanos, também sob a égide do realismo mágico: Carlos Fuentes, Isabel Allende, Mário Vargas Llosa.
William Somerset Maugham parece-me o exemplo maior de que escrever bem é escrever simples. Os seus livros, assim como os de García Márquez, embora em estilos muito diferentes, juntam o melhor de dois mundos: contam belíssimas histórias, escritas de forma magistral.

Mais recentemente, A História de Lucy Gault, de William Trevor, Memórias de um Anão Gnóstico, de David Madsen, A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, As Velas Ardem até ao Fim, de Sándor Márai, e Gaspar, Belchior e Baltazar, de Michel Tournier, foram livros que me marcaram, também.

Entretanto, comecei a perceber que o Inglês que ensino (quinto e sexto anos de escolaridade) é muito pouco para manter viva uma língua estrangeira. Percebi que eu, que estudei Shakespeare na Faculdade, um dia não saberia Inglês suficiente para fazer check-in num hotel, para pedir uma refeição num restaurante… Decidi que não leio traduções se a língua de partida for o Inglês. E só tenho a ganhar. Uma tradução, muitas vezes, parece-me impressa em papel vegetal, através do qual se vê o texto original. E isso é terrível. Outras vezes deturpa o original, como que o recria. E não para melhor, pelo menos no caso de Lolita, de Vladimir Nabokov, em que abandonei a tradução e optei pela versão inglesa. Quando leio uma tradução, não sei porquê, dou comigo a tentar adivinhar as palavras que o autor usou, em Inglês. É impossível ler assim…

Quanto aos contos, que prefiro em alturas de mais trabalho, em que tenho menos disponibilidade intelectual para me dedicar à complexidade de um romance e da sua galeria de personagens, e depois de García Marquez, que vem sempre à cabeça, gosto dos autores russos, sobretudo de Tchékov.

Não me preocupa que me acusem de ser uma devoradora de livros – na verdade, é isso mesmo que sou. Sou selectiva no que diz respeito ao que leio, mas leio muito. Sinto um imenso prazer no acto da leitura de boas histórias, bem contadas. Não raras vezes, ofereceram-me livros de autores que não conhecia. Em conversa com o tal livreiro de quem já falei, e cujo nome me parece que não devo citar, ouvia-o sentenciar: “Escreve a metro!”. Foi assim que alguns livros acabaram por permanecer na prateleira. Talvez um dia chegue a sua vez.

Já disse tanto e falta falar de tantos livros, de tantos autores. Faltam, por exemplo, os portugueses que comecei a ler nos tempos de Faculdade, sugeridos por professores, oferecidos pelos meus pais, escolhidos através de críticas que lia em revistas, em jornais, e de que devo destacar Vergílio Ferreira, José Saramago, Jorge de Sena, Eugénio de Andrade – estes dois já no campo da poesia.

Fica para outra vez.