Inquérito sobre hábitos de leitura

Elaborei este inquérito, que se destina a recolher informações sobre os hábitos de leitura dos adolescentes e jovens portugueses, entre os 10 e os 18 anos.

Solicito a todas as pessoas cuja idade se encontre dentro do intervalo referido que respondam. E peço a todas as outras que o divulguem – junto dos seus filhos, amigos, familiares, conhecidos, alunos…

A ideia é chegar ao maior número de pessoas possível.

As respostas são anónimas, pelo que todos devem sentir-se à vontade, no sentido de darem respostas o mais honestas possível. Ninguém vai ser avaliado!

O inquérito está aqui.

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e então… lemos.

Chronicles-of-narnia-map

 

Este ano tenho um quinto ano de Português… muito barulhento. E ainda por cima, como sou directora de turma deles, raro é o da em que não tenho uma queixa. Portam-se mal, pronto. Falam muito. Fazem barulho.

Podem, portanto, imaginar o meu espanto ao verificar que nas minhas aulas, cada vez mais se… ouvem as moscas. Não se ouvem moscas, que não as há, mas ouvir-se-iam, se as houvesse.

Hoje, por exemplo. Entrámos às oito e meia e, nada mais sentarem-se, comecei a ler.

Estamos a ler As Crónicas de Nárnia, comecei, naturalmente, pelo primeiro volume, O Sobrinho do Mágico, e a reacção deles está a ser… um sonho.

Não pare, professora!

Continue, por favor!

Só a primeira página do capítulo…

Só mais um bocadinho…

Não temos um livro para cada aluno, nem sequer um livro em cada mesa, que a biblioteca da escola não chega a tanto. Eu leio, eles ouvem. E ouvem deliciados.

Este livro é riquíssimo. Não apenas pelo trabalho de estímlo à imaginação, mas também pela linguagem. Isto é Literatura, assim, com letra maiúscula, no mais puro sentido do termo. Não é de admirar que faça as delícias de sucessivas gerações e que conheça várias adaptações ao cinema.

Depois da leitura – e porque não convém esquecer que estamos em aula de Português e a (nossa) vida (infelizmente) não é só Nárnia, estivemos a conversar sobre verbos introdutores do diálogo. E, também neste aspecto, este livro é de uma riqueza extraordinária.

Respondeu, retorquiu, disse, perguntou, segredou, replicou, repetiu, prosseguiu, interrompeu, comentou, exclamou, confirmou, gritou, reclamou, concordou, adiantou, sugeriu, contrapôs, murmurou, tratamudeou, declarou, insistiu, explicou, acusou, bradou…

E todos estes só hoje, em dois capítulos.

(Permitam-me este comentário e por favor não me crucifiquem: em A Floresta, de Sophia de Mello Breyner, por exemplo, isto é bem diferente. No primeiro diálogo entre Isabel e o anão, quando se conhecem, o único verbo utilizado é o verbo dizer. E nós que passamos a vida a dizer aos alunos que têm de variar, que não podem usar sempre disse, disse, disse… Sim, eu sei que há uma (UMA) excepção neste diálogo a que me refiro.)

O que eu quero dizer é apenas isto: pensem no Daniel Penac. Pensem em Donalyn Miller. Pensem em Jim Trelease. Leiam. Invistam tempo das vossas aulas na leitura. Ensinem o gosto pela leitura através da leitura e não com teorias estéreis.

Ou deveria dizer, talvez: descubri vós, professores, o prazer da leitura, o prazer supremo de ler uma história, de rir e chorar com as personagens. De descobrir mundos novos.

Repito o que já disse muitas vezes: se os meus alunos (que não são meus amigos aqui no Facebook, mas que seguem, alguns deles, aquilo que torno público, como por exemplo esta Nota) saírem das minhas mãos com o bichinho da leitura, eu terei alcançado o meu objectivo mais querido, aquele que me faz sair da cama todos os dias de manhã.

E, apenas para terminar: eu não coloco aqui fotografias de crianças. Nem das minhas filhas, nem dos meus alunos. Mas a sério que hei-de fotografar a minha Elisa, a minha Telma e os outros todos. A imagem dos vossos olhos, muito abertos, que não pestanejam enquanto leio, é uma imagem que guardarei para sempre.

Lendo “O Dia-da-Presença”

Há vários aspectos a reter nesta história do Jorge. O mais importante é o paralelo que se estabelece entre brincar com os pais e festejar o aniversário. O aniversário festeja-se uma vez por ano, daí ser um acontecimento mágico. Para o acto de brincar com os pais ser igualmente mágico tem de ser igualmente raro. Sendo os filhos o bem mais precioso que temos na vida, como não arranjamos tempo para estar com eles – a brincar ou a fazer qualquer outra coisa?

Na verdade, levamos sempre uma vida tão agitada que os dias começam e acabam sem darmos conta e sem conseguirmos fazer nada que nos dê prazer. E todos os dias juramos que Hoje vai ser diferente. Hoje, quando for buscá-los à escola, vou estar de cara alegre, vou ter calma enquanto os ajudo a fazer os trabalhos de casa, não vou levantar a voz.

Mas acabamos por cair numa tentação, sempre a mesma: Então, que fizeste na escola? Com quem brincaste? Tens testes marcados? Quando são pequenitos, respondem com silêncio, mas à medida que vão crescendo verbalizam o que lhes vai na alma: Lá vem o interrogatório!

Eles têm razão. Coloquemo-nos no lugar deles: quando chegamos a casa, no final de um dia de trabalho, o que nos apetece é despir o dia. E se enfrentássemos uma série de perguntas sobre o patrão prepotente, o colega falso, o cliente que não paga, o fornecedor que falhou… Socorro! Deixem-me chegar a casa! Eu quero tirar os sapatos, mudar de roupa, chegar a casa! Já repararam como por vezes o simples gesto de fechar a porta de casa atrás de nós nos acalma, como se todos os problemas ficassem do lado de fora?

Os nossos filhos também precisam de sair do trabalho, que, no caso deles, é a escola, precisam de chegar a casa. Ao tentar saber tudo sobre o dia deles, estamos a impedi-los de fechar esse capítulo do dia, a obrigá-los a permanecer no trabalho.

Mas a verdade é que, quando são muito pequenos e os deixamos no infantário, parece que passamos o dia inteiro sem um braço ou sem uma perna e quando vamos buscá-los ao fim do dia precisamos de reaver aquele pedaço de vida deles de que estivemos ausentes. Então como conseguir isso sem fazer o tal interrogatório? Através da leitura.

Se conseguirmos criar o hábito de ler todos os dias com os nossos filhos, à noite, ao deitar, que é aquela hora mágica em que eles relaxam e se confessam, matamos muitos coelhos com a mesma cajadada. A história à hora de deitar pode funcionar como uma trégua, depois de todas as birras e ralhetes.

Criamos uma relação de proximidade com eles que vai fazer com que nos contem, sem que perguntemos, as coisas importantes que se passaram durante o dia. Mas fazemos muito mais do que isso. Fazemos com que eles associem a leitura a um momento de prazer, como um oásis de tranquilidade no fim de mais um dia agitado. Identificando a leitura com um momento de prazer, eles aprendem a gostar de ler e, na mais básica relação de causa e efeito, tornam-se bons alunos.

Devemos começar a ler-lhes muito cedo. Tão cedo quanto possível. Devemos ler aos nossos filhos a partir dos primeiros meses, das primeiras semanas, dos primeiros dias de vida. Nunca é cedo de mais. Mas também nunca é demasiado tarde para introduzir um novo bom hábito.

Ler a um filho é a contribuição mais importante que um pai ou uma mãe pode dar para o seu sucesso escolar. Embora diversos agentes educativos enfatizem a importância de fornecer um local de estudo adequado, com boa iluminação, silêncio, etc, uma criança que tenha competências de leitura e de escrita insuficientes nunca alcançará bons resultados escolares.

Um bom leitor tem um vocabulário rico e sabe utilizar correctamente a linguagem oral e escrita, de forma a veicular adequadamente as suas ideias – e obterá bons resultados académicos em todas as áreas, tanto das letras como das ciências. O motivo é muito simples: as capacidades de compreender um problema de Matemática, um texto em Ciências e de responder a um teste de História dependem da fluência de linguagem que a criança possui.

A pergunta que os pais fazem com mais frequência é esta: A partir do momento em que aprende a ler, não deve ser a própria criança a ler? Esta é uma pergunta legítima. Afinal, o que vai condicionar o sucesso escolar da criança é a sua própria capacidade para utilizar a língua – não a dos pais. Acontece que ler a uma criança é a melhor maneira de a tornar fluente na leitura autónoma. O aspecto que distingue as crianças que aprendem a ler sozinhas não é o seu QI, nem o nível socioeconómico ou académico dos pais, mas o facto de os seus pais lhes lerem regularmente, frequentemente, a partir dos materiais mais variados.

Muitos pais são muito cuidadosos com a leitura aos filhos, por exemplo à hora de deitar, mas deixam de lhes ler quando entram na escola, supondo que, uma vez que está a aprender a ler, a criança deve ler sozinha. Na verdade, os pais devem continuar a ler aos seus filhos ao longo de toda a infância e até à adolescência.

Uma criança em idade pré-escolar beneficia da leitura efectuada por um adulto porque é exposta ao nível de linguagem que um dia utilizará, da mesma forma que uma criança de dez anos beneficia ao ouvir um nível de linguagem mais difícil do que já consegue utilizar. Um texto complexo, em estrutura e vocabulário, para um aluno de oitavo ano pode ser complicado de ler, mas facilmente compreendido se for ouvido. Os mecanismos cerebrais envolvidos na audição e na leitura são diferentes.

Sabemos que educamos sobretudo pelo exemplo. Além de ler aos filhos, incutiremos neles o gosto pela leitura se eles nos virem ler. Se eles perceberem que, para nós, ler é bom, vão querer ler também.

E devemos criar em casa um clima favorável à leitura. Devemos ter livros, jornais, revistas… Todo o tipo de material de leitura. E devemos colocá-lo à mão de semear: nos locais onde as pessoas estão paradas, sem distracção… Um cesto com livros na casa de banho, outro junto à mesa da cozinha (quem nunca leu o rótulo de uma caixa de cereais?), basicamente… espalhemos material de leitura por toda a casa.

Leituras de Verão

Está demonstrado que os maiores danos à competência da leitura ocorrem fora da escola – durante o Verão. Mas não em todas as crianças.

Muitos pais, especialmente aqueles cujos filhos têm dificuldades na escola, levam à letra a ideia de que o Verão é sinónimo de férias escolares. “Todas as pessoas precisam de férias!”, exclamam. “O meu filho precisa de desligar da escola e relaxar. O próximo ano será um novo começo.”

Esta atitude pode ser muito nefasta, principalmente para um leitor medíocre, que enquanto “relaxa” se afasta ainda mais do colega que lê seis livros durante o mesmo Verão. Dentro de alguns anos, quando a distância entre os dois for ainda maior, o pai culpará a escola por não ter ajudado o seu filho. Alvo errado.

Um estudo realizado pela Universidade de Johns Hopkins, nos Estados Unidos, junto de 3000 estudantes ao longo de dois anos concluiu que todos – bons e maus alunos – têm um ritmo de aprendizagem mais lento durante o Verão, mas alguns, mais do que abrandar, regridem nas aprendizagens. Bons e maus alunos têm ritmos de aprendizagem semelhantes ao longo do ano mas, durante as férias de Verão, a criança que parte desfavorecida regride vários meses de aprendizagem. Com sucessivas perdas, ao longo de vários Verões, essa criança estará cada vez mais atrasada.

Esta diferença é provocada por um grande número de factores.

O Verão de uma criança fluente na leitura inclui: uma família de leitores, que ensina pelo exemplo; uma casa rica em material impresso, que inclui livros, revistas e jornais; visitas ao centro comercial com passagens pelas livrarias e bibliotecas; umas férias em família, em que novas pessoas, novos lugares e novas experiências ampliam a cultura geral e oferecem novo vocabulário; e uma grande probabilidade de ver e ouvir programas educativos e informativos na televisão e na rádio – e não apenas programas com orientação comercial.

Pelo contrário, o Verão da criança em risco inclui muitas vezes uma casa sem leitura, o que pode ser fatal. Num estudo realizado junto de estudantes de classe média-baixa, permitiu-se a 852 crianças que escolhessem 12 livros. Outras 478 crianças receberam puzzles e livros de actividades. Depois das férias de Verão, os testes revelaram que as crianças “dos livros” tinham evoluído duas vezes mais do que o grupo “dos puzzles”.

As crianças que passam um Verão sem ler perdem grande parte das suas competências de leitura.

Sem adultos que promovam a leitura através do exemplo e alguém que lhes leia, sem material de leitura e sem novas experiências, as competências de leitura enferrujam.

Como prevenir a perda de Verão na leitura? As pesquisas realizadas até à data dão grande ênfase à leitura – ler à criança e ler pela criança. A leitura de quatro a seis livros (livros em capítulos) durante o Verão é suficiente para aliviar a perda típica do Verão. Além disso, se a escola pedir um trabalho sobre um livro lido durante as férias, ou se os pais verificarem que a criança lê pelo menos um livro durante esse período, aumentam significativamente as probabilidades de a criança ler um livro.

As crianças que lêem mais fora da escola são também aquelas que lêem melhor. Por outras palavras: quantas mais páginas, melhores notas.

Inscreva o seu filho na biblioteca municipal, dê passeios com ele, mesmo que se desloque apenas a locais dentro da cidade, como o quartel dos bombeiros, um museu, converse com ele, ouça-o.

Quanto aos livros, a biblioteca pública tem todos os que poderemos desejar – gratuitos. E não se esqueça que um livro usado que custe €0,50 tem as mesmas palavras que um livro novo que custa €15.

Para uma criança que não está habituada a ler durante mais do que breves períodos de tempo, é importante limitar o seu tempo de leitura em solitário a dez a quinze minutos. Mais tarde, quando estiverem habituados a ler sozinhos e se sentirem mais envolvidos com a leitura, esse período de tempo pode estender-se – muitas vezes a pedido da criança.

É importante ter uma variedade de material disponível – revistas, jornais, ficção e livros ilustrados. Uma visita semanal à biblioteca resolve este problema. Quanto mais variado o material de leitura existente em casa, melhor o aproveitamento escolar.

Obrigar uma criança a ler não desmotiva?

Não mandamos os nossos filhos escovar os dentes diariamente? E mudar a roupa interior? E preocupa-nos a ideia de eles, tornando-se adultos, deixarem de escovar os dentes e de mudar de roupa, só porque eram coisas que os obrigávamos a fazer quando eram pequenos?

A capacidade de uma criança para alcançar objectivos maiores depende directamente da sua competência de leitura.

Quando nada se pede, habitualmente nada se recebe.

Como obrigar as crianças a ler e conseguir que a leitura continue a ser um acto de prazer? É bom recordar que o prazer não se ensina (o que significa – ler em voz alta). Depois:

  • Assegure-se de que você (o adulto modelo) é visto a ler diariamente. Funciona melhor se ler ao mesmo tempo que a criança.
  • Para crianças mais novas, ver livros de imagens e virar as páginas é “ler”.
  • Deixe que a criança escolha os livros que quer ler sozinha, mesmo que eles não vão de encontro às escolhas que gostaria que ela fizesse.
  • Nas viagens de carro, leve CDs com histórias gravadas – também contam.
  • Estabeleça parâmetros temporais, curtos no início e mais longos à medida que a criança cresce e lê mais.
  • Jornais, revistas e até bandas desenhadas devem ser contabilizados como tempo de leitura. Tudo isto constitui exposição à palavra impressa.
  • A selecção e o interesse da criança são importantes. Deixe a criança ler o que lhe interessa.

O objectivo é criar um leitor para toda a vida.

E todos aqueles que lêem pela vida fora passaram os Verões a ler.

Fonte: Jim Trelease

(Tradução e adaptação)

Leituras de Verão-leaflet

Mãos de Mãe

Noite após noite, a minha mãe vinha aconchegar-me, mesmo quando eu já deixara há muito de ser criança. Tal como outrora, inclinava-se sobre mim, afastava o meu cabelo comprido e beijava-me a testa.

Não me lembro de quando o gesto das suas mãos a afastar o meu cabelo começou a irritar-me. Mas aborrecia-me deveras que ela passasse as mãos ásperas e gastas pelo trabalho sobre a minha pele macia. Uma noite gritei, zangada:

—Não faças mais isso! As tuas mãos são muito ásperas!

A minha mãe não disse nada, mas nunca mais aquele gesto de amor rematou os meus dias. Continuei acordada muito tempo depois de ter proferido aquelas palavras, que agora me perseguiam. Contudo, o orgulho abafou a consciência e não consegui dizer-lhe o quanto lamentava tê-las proferido.

Os anos foram passando, sem que a memória daquela noite se apagasse. O incidente, que ora parecia recente ora se afigurava longínquo, nunca me saiu da mente e eu comecei a ter saudades daquele gesto que reprimira.

Hoje a minha mãe já ultrapassou os setenta anos e as mãos que outrora achei tão ásperas ainda trabalham para mim e para os meus. É ela que tem sido a nossa médica, ao procurar no armário o remédio para aliviar uma dor de estômago ou de um joelho ferido dos mais novos. É ela que faz o melhor frango frito do mundo, que tira as nódoas das calças de ganga como eu nunca consegui, que ainda insiste em servir gelado a qualquer hora do dia ou da noite. Ao longo dos anos, as mãos da minha mãe trabalharam durante horas incontáveis, muito antes de haver máquinas de lavar e tecidos resistentes que não engelham.

Agora, os meus filhos já são crescidos e independentes e o meu pai já faleceu. Em ocasiões especiais, vou passar a noite com ela.

E foi assim que, numa véspera do Dia de Ação de Graças, quando eu começava a adormecer no quarto da minha infância, senti uma mão conhecida, que passava, hesitante, pelo meu rosto, para afastar o cabelo da minha testa. Quando um beijo, sempre igualmente gentil, pousou no meu sobrolho, recordei, pela milésima vez, a noite em que a minha voz jovem e ríspida soara indignada:

—Não faças mais isso. As tuas mãos são muito ásperas!

Então, segurando a mão da minha mãe, disse-lhe o quanto lamentava aquela noite. Pensei que, como eu, ela se lembrasse… Mas a minha mãe não sabia do que eu estava a falar, pois há muito que tinha esquecido e perdoado.

Naquela noite, adormeci profundamente grata pela presença da minha mãe e pelo carinho das suas mãos.

E a culpa que eu tinha carregado durante tantos anos desvaneceu-se.

Louisa Godissart McQuillen
Jack Canfield, Mark Victor Hansen
A Second Chicken Soup for the Woman’s Soul
HCIbooks, Deerfield Beach, 1998
(Tradução e adaptação)

Aquelas sapatilhas

Até sonhava com aquelas sapatilhas. Eram pretas, com duas riscas brancas.
— Avó, quero aquelas sapatilhas.
— Cá em casa não se usa a palavra “quero”; só se usa a palavra “preciso”. E do que tu precisas é de um par de botas para o inverno.
O Bruno levava umas sapatilhas daquelas para a escola, e dizia que agora era ele o corredor mais rápido. O corredor mais rápido era eu, antes de as sapatilhas terem aparecido. O Nelo também trazia umas sapatilhas daquelas para a escola. O António e eu contávamos as vezes que ele ia à casa de banho, só para se exibir no corredor, para lá e para cá. A seguir, foram o Tiago e o Zeca que compraram um par…
Um dia, a meio do jogo de futebol, uma das minhas sapatilhas desfez-se.
— Parece que vais ter de arranjar um par novo, Jaime — disse o Prof. Alfredo.
Depois, foi ao armário dele e tirou para fora uma caixa enorme com sapatos e outras coisas, que costumava trazer para os miúdos que mais precisavam. Ajudou-me a encontrar o único par de sapatilhas que me servia — umas Velcro, iguais às que o meu primo Manel calçava. Tinham a imagem de um animal que eu nunca tinha visto em nenhum desenho animado.
Quando regressei à sala de aula, o Zeca olhou para as minhas sapatilhas e riu-se. O Tiago, o Bruno e os outros todos também se riram. O único que não se riu foi o António.
Em casa, a minha avó comentou:
— O Prof. Alfredo é muito simpático.
Disse que sim com a cabeça e virei costas. Não ia chorar por causa de umas estúpidas sapatilhas. Mas, mais tarde, quando estava a copiar as palavras difíceis, cada palavra me trazia à mente a palavra “sapatilhas”. Então, agarrei o lápis com tanta força que até tive medo que ele partisse.
No sábado seguinte, a minha avó disse:
— Vamos lá dar uma vista de olhos às tais sapatilhas que tu tanto queres. Tenho algum dinheiro de parte; não sei se chega, mas nunca se sabe.
Na sapataria, a minha avó virou as sapatilhas para ver o preço. Quando o viu, até se sentou.
— Se calhar, escreveram mal o preço – disse eu.
A minha avó abanou a cabeça. Foi então que me lembrei das lojas que vendem coisas em segunda mão.
— E se tiver havido algum miúdo rico a quem já não sirvam as que tem, ou que tenha tido dois pares pelo Natal e tenha decidido dar um?
Apanhámos o autocarro para a primeira loja. Botas pretas à cowboy, chinelos cor-de-rosa, sandálias, sapatos de tacão alto – não faltava calçado; só não havia era sapatilhas como as que eu queria. Apanhámos o autocarro para a segunda loja. Nem sequer havia sapatilhas à vista. Ao virar da esquina, vi uma terceira loja… e qualquer coisa na montra. Eram umas sapatilhas pretas com duas riscas brancas.

SAPATILHAS EM BOM ESTADO
5 Euros

O meu coração batia com força à medida que descalçava as minhas sapatilhas e as meias largueironas.
— Sinto-me tão contente! — disse a minha avó. — Qual é o número?
Enfiei o meu pé na primeira e encolhi os dedos para o calcanhar poder entrar.
— Parece-me que servem.
A minha avó ajoelhou-se e apalpou a sapatilha para ver se os meus dedos chegavam à ponta.
— Oh filho, tem paciência, mas eu não posso gastar dinheiro em sapatilhas que não te servem.
Enfiei a outra e tentei caminhar um pouco.
— Parecem-me bem — disse, quase sem respirar, e rezando para que os dedos encolhessem… para os pés caberem nas sapatilhas. Mas os meus dedos não encolheram. Comprei-as com o meu dinheiro, calcei-as e fui a mancar até à paragem do autocarro. Alguns dias mais tarde, a minha avó colocou um par de botas novas de inverno no meu armário e não disse nada acerca da figura que eu fazia a andar com aquelas sapatilhas.
— Às vezes as sapatilhas alargam — disse eu.
A minha avó deu-me um abraço. Mas, por muito que eu quisesse, as sapatilhas não alargaram. Acabei por levar as do Prof. Alfredo para a escola.
Um dia, estávamos nós a ter Matemática, deu-me para olhar para as sapatilhas do António. Uma delas já tinha fita adesiva e os pés dele pareciam mais pequenos do que os meus. Depois da escola, fui até ao parque para pensar. O António foi comigo. O António é o único miúdo da escola que não se ri das minhas sapatilhas. Fizemos alguns passes de basquete e a fita adesiva da sapatilha do António batia no cimento de cada vez que ele saltava. E eu pensei: “Não consigo”. Saltámos por cima dos baloiços. E eu pensei, outra vez: “Não consigo”. Corremos de um lado para o outro do parque e eu gritei:
— Não consigo!
— Não consegues o quê? — perguntou o António, já sem fôlego.
A minha avó chamou-me para jantar e convidou o António. Depois do jantar, fomos dar uma espiadela às sapatilhas.
— Porque não as usas? — perguntou-me.
Encolhi os ombros. Tinha as palmas das mãos a transpirar. Até conseguia sentir o quanto ele desejava ter aquelas sapatilhas.
Nessa noite, passei muito tempo acordado a pensar no António. Mal amanheceu, experimentei as sapatilhas mais uma vez. Antes de mudar de ideias, enfiei-as no bolso do casaco.
Começou a nevar quando atravessei a rua para ir a casa do António. Coloquei as sapatilhas em frente à porta, toquei à campainha e fugi. O António entrou na escola com as sapatilhas calçadas e um sorriso de orelha a orelha. Fiquei feliz por o ver contente e furioso quando olhei para as minhas Velcro. Quando, mais tarde, estávamos no intervalo, aconteceu uma coisa inesperada. De repente, ficou tudo cheio de neve. Então, o professor avisou:
— Deixem as sapatilhas no corredor e calcem as botas.
Foi quando me lembrei do que tinha na mochila. Botas novas. Botas novas e pretas, como nunca nenhum daqueles miúdos tinha calçado.
O António chegou perto de mim e disse: “Obrigado.”
Sorri, dei-lhe uma cotovelada, e desafiei-o:
— Toca a correr!

Maribeth Boelts
Those shoes
Cambridge, Massachusetts, Candlewick Press, 2007
(Tradução e adaptação)

Tens namorada, Jerónimo?

Ainda sou uma criança. O que não significa que seja um bebé.
Bebé é a minha irmã Rosa, que ainda não sabe andar nem falar, e que faz xixi nas fraldas. Uma coisa é ser-se criança, outra é ser-se bebé.
Gosto de ir ao mercado com os meus pais. Paramos numa e noutra banca a fazer compras.
— Olá, Jerónimo — diz o peixeiro.
— Olá — respondo.
— Então, já tens namorada?

***

Hortênsia, a senhora que vende fruta, dá-me sempre alguma coisa: uma tangerina, uvas, uma banana…
— Obrigado — digo, para os meus pais não dizerem que sou mal-educado.
— Gostas?
— Sim.
— Ainda bem, Jerónimo… Já arranjaste uma namorada? — pergunta ela, também.

***

No outro dia, o telefone tocou e, como estava perto, atendi.
— Estou?
— Sou o Leonardo.
Leonardo é um amigo do meu pai. Jogam os dois aos fins-de-semana numa equipa de futebol de salão.
— Como vai isso, Jerónimo?
— Tudo bem.
— E então, como está a tua namorada?

***

No domingo, fomos comer a casa dos meus avós. Foi muito agradável. Também lá estavam os meus tios e primo, que é da minha idade. Quando acabámos de comer, o meu tio, que estava sentado ao meu lado, deu-me uma cotovelada.
— O teu primo já tem namorada. E tu, Jerónimo?

***

O porteiro do meu prédio chama-se Nando. Embora todos o tratem assim, é bastante idoso: tem cabelos brancos e é muito surdo.
Quando vou para a escola de manhã, lá está ele a varrer a entrada do prédio.
— Olá, Jerónimo.
— Olá, Nando.
— Um dia destes vou apresentar-te a uma neta muito linda que tenho — diz-me ele. — Pode ser que se tornem namorados….

***

Pensei muito e, por fim, decidi-me.
Na escola, aproveitei a meia hora do recreio. Em vez de ir jogar, como de costume, fui para junto da Lorena, que estava a desembrulhar a sua sandes.
— A minha é de queijo — disse-lhe. — E a tua?
— De mortadela.
— Se quiseres, podemos dividi-las.
— Está bem.
Como a Lorena aceitou a minha proposta, pensei que isso significasse qualquer coisa. Por isso, perguntei-lhe:
— Queres ser minha namorada?
— Não — respondeu ela.
— Porquê? — insisti.
— Porque desde ontem que sou a namorada do Assis.
Que fracasso! E eu que, ainda por cima, não gosto nada de mortadela!

***

Propus namoro à Noélia, à Mila, à Carolina e à Isabel.
Mas a Noélia já era namorada do Xavier. A Mila namorava com o Luís, a Carolina com o Gustavo e a Isabel com o Ricardo.
Afastei-me delas, um pouco envergonhado.

***

A Bárbara é a minha melhor amiga. Vivemos muito perto e, depois da escola, fico muitas vezes a brincar com ela, a fazer os trabalhos de casa, ou a ver um filme na televisão.
— Bárbara, tens namorado? — perguntei-lhe.
— Não.
Respirei, satisfeito. Sabia que a Bárbara não me deixaria ficar mal.
— Queres ser minha namorada, Bárbara?
— Não.
Fiquei de boca aberta e levei algum tempo a reagir.
— Porquê?
— Porque nunca me vou casar. Quero ser sempre solteira.

***

Porque é que todos os adultos me perguntam se tenho uma namorada?
Não se dão conta de que ainda sou uma criança?
Não percebem que as crianças como eu gostam é de correr no recreio, caminhar nas poças quando chove, ou ir ao parque de diversões?
Além disso, penso fazer como a Bárbara: quero ficar sempre solteiro!

Alfredo Gómez Cerdá
Soy… Jerónimo
Madrid: Bruño, 2006
(Tradução e adaptação)