e então… lemos.

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Este ano tenho um quinto ano de Português… muito barulhento. E ainda por cima, como sou directora de turma deles, raro é o da em que não tenho uma queixa. Portam-se mal, pronto. Falam muito. Fazem barulho.

Podem, portanto, imaginar o meu espanto ao verificar que nas minhas aulas, cada vez mais se… ouvem as moscas. Não se ouvem moscas, que não as há, mas ouvir-se-iam, se as houvesse.

Hoje, por exemplo. Entrámos às oito e meia e, nada mais sentarem-se, comecei a ler.

Estamos a ler As Crónicas de Nárnia, comecei, naturalmente, pelo primeiro volume, O Sobrinho do Mágico, e a reacção deles está a ser… um sonho.

Não pare, professora!

Continue, por favor!

Só a primeira página do capítulo…

Só mais um bocadinho…

Não temos um livro para cada aluno, nem sequer um livro em cada mesa, que a biblioteca da escola não chega a tanto. Eu leio, eles ouvem. E ouvem deliciados.

Este livro é riquíssimo. Não apenas pelo trabalho de estímlo à imaginação, mas também pela linguagem. Isto é Literatura, assim, com letra maiúscula, no mais puro sentido do termo. Não é de admirar que faça as delícias de sucessivas gerações e que conheça várias adaptações ao cinema.

Depois da leitura – e porque não convém esquecer que estamos em aula de Português e a (nossa) vida (infelizmente) não é só Nárnia, estivemos a conversar sobre verbos introdutores do diálogo. E, também neste aspecto, este livro é de uma riqueza extraordinária.

Respondeu, retorquiu, disse, perguntou, segredou, replicou, repetiu, prosseguiu, interrompeu, comentou, exclamou, confirmou, gritou, reclamou, concordou, adiantou, sugeriu, contrapôs, murmurou, tratamudeou, declarou, insistiu, explicou, acusou, bradou…

E todos estes só hoje, em dois capítulos.

(Permitam-me este comentário e por favor não me crucifiquem: em A Floresta, de Sophia de Mello Breyner, por exemplo, isto é bem diferente. No primeiro diálogo entre Isabel e o anão, quando se conhecem, o único verbo utilizado é o verbo dizer. E nós que passamos a vida a dizer aos alunos que têm de variar, que não podem usar sempre disse, disse, disse… Sim, eu sei que há uma (UMA) excepção neste diálogo a que me refiro.)

O que eu quero dizer é apenas isto: pensem no Daniel Penac. Pensem em Donalyn Miller. Pensem em Jim Trelease. Leiam. Invistam tempo das vossas aulas na leitura. Ensinem o gosto pela leitura através da leitura e não com teorias estéreis.

Ou deveria dizer, talvez: descubri vós, professores, o prazer da leitura, o prazer supremo de ler uma história, de rir e chorar com as personagens. De descobrir mundos novos.

Repito o que já disse muitas vezes: se os meus alunos (que não são meus amigos aqui no Facebook, mas que seguem, alguns deles, aquilo que torno público, como por exemplo esta Nota) saírem das minhas mãos com o bichinho da leitura, eu terei alcançado o meu objectivo mais querido, aquele que me faz sair da cama todos os dias de manhã.

E, apenas para terminar: eu não coloco aqui fotografias de crianças. Nem das minhas filhas, nem dos meus alunos. Mas a sério que hei-de fotografar a minha Elisa, a minha Telma e os outros todos. A imagem dos vossos olhos, muito abertos, que não pestanejam enquanto leio, é uma imagem que guardarei para sempre.

A primeira ida à biblioteca

Eis o resultado da nossa expedição à Biblioteca Municipal Raul Brandão:

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Aceitam-se apostas: quem escolheu o quê?

Pois… não dá muito que pensar…

Que fascínio! Tantos livros! E um desabafo que me encheu de baba: Aqui há mais livros do que em casa… É que é mesmo a primeira vez que lhes acontece entrar num sítio onde há mais livros do que cá em casa.

Numa nota mais prática: a peqena trouxe livros que a fascinaram e que, sobretudo no caso do Homem-aranha, já não deve ser possível encontrar na livraria.

A grande trouxe um das Tea Sisters que procurava há muito, mas que ninguém tinha para emprestare custa à volta de oito euros. Ao outro , tive-o na mão ontem, na Fnac. Estava em promoção, tinha desconto de 40%. O preço de capa era €8,80. Poupei um pedaço, digam lá.

A menina que detestava livros

Vídeo

Como explicar que filho de peixe não queira nadar?
Os pais de Mina gostam mito de ler. Estão sempre a comprar livros novos, que se amontoam um pouco por toda a casa. Mina tem imensos livros, que os pais lhe foram dando, ao longo dos anos, mas que ela se recusa a ler. Mina detesta livros. Até que um dia… porque tudo é sempre até que um dia e, nisto dos livros, esse dia é aquele em que se descobre que os livros são portas para lugares mágicos, para seres extraordinários e para experiências inesquecíveis. O caso de Mina não deixa de ser uma reacção ao tempo infindável que os pais passam a ler – um aspecto sobre o qual devemos meditar.
Este filme é sempre um dos preferidos dos meus alunos, mas como eu gosto sempre mais de livros, ofereço-lhes o conto. Se quiserem, já sabem: é só dizer e envio por mail.

A prenda de fim-de-ano

Chegaram as férias. As da grande são oficiais, estão consagradas no calendário escolar. As da pequena são oficiosas, estão indexadas às da irmã. O que vale ter uma avó sempre desejosa de ver as meninas livres da “prisão”…

Uma teve boas notas, tem sempre. A outra não tem notas, mas traz todas as boas informações que poderíamos desejar, portanto…

Portanto é-me muito difícil resistir à tentação de as encher de prendas. Deve acontecer com todas as mães. Por mim, se não dou muitas prendas todos os dias é por causa do exagero, não só dos presentes em si, mas também do dinheiro que tal representaria.

Estes dias, pus-me a pensar e era preciso decidir. Um jogo, com que brinquem neste Verão tão tímido. Um brinquedo. Uma boneca nova. Há sempre a hipótese de um livro, que faz as delícias tanto de uma como da outra. Mas já temos tantos em casa. E a mais velha já está na fase em que os lê uma vez e depois disso já são repetidos. Nunca foi tempo de gastar dinheiro à toa, mas nos dias que correm ainda menos. E o dinheiro gasto em livros é tudo menos “à toa”, mas… Uma boa prenda seria tempo passado com elas, sem relógio nem Internet nem telemóvel. Mas para as minhas férias a sério ainda falta. Depois vão ser prolongadas, mas isso é outra coisa. E não é agora.

Decidi que merecem tudo isto. Porque merecem. E então, para cada uma, arranjei um Cartão da Biblioteca. O presente mais barato, aquele cujo valor é inestimável. Trouxe três: um para cada uma.

E então é onde passaremos hoje a tarde. Na Biblioteca Municipal Raul Brandão, aqui em Guimarães.

Ou não. Não sabemos onde os livros nos levarão…

cartão biblioteca

O presente-surpresa do Rei Wod

santa

O rei Wod era muito, muito rico.

Tinha tanto dinheiro que podia encher a meia de Natal de todas as crianças do país – incluindo a tua, se lá morasses – e ainda lhe sobraria muito dinheiro. Por que razão, então, odiava ele o Natal?

A razão era esta. O Rei Wod queria um presente-supresa na manhã de Natal.

Só isso?

Aha… não esqueçamos quão rico ele era. Todos os anos, acontecia a mesma coisa. Por muito maravilhoso que fosse o presente que recebia, nunca era novidade. Por exemplo:

Um cavalo com cascos multicoloridos para andar sobre o arco-íris.

Um livro de respostas a todas as perguntas dos professores.

Um cesto de piquenique que brilhava no escuro quando o levávamos a uma festa depois da meia-noite.

Uma almofada para nos adormecer ao som de uma canção.

Uma poça de água para saltar dentro de casa sem molhar a carpete…

Para quê mais exemplos?

“Já tenho um desses”, dizia sempre o Rei Wod.

Um dia, bem cedo, numa manhã de Natal, mesmo antes de o sol nascer, o Rei perdeu a paciência. Deu um pontapé no trono, rasgou o manto em dois e atirou a coroa pela janela.

— Será que ninguém pode trazer-me um presente-surpresa? — gritou. — Chamem o feiticeiro real!

— Aqui me tendes, Majestade.

— Não fiques aí especado! Faz alguma coisa. Isto é uma ordem!

ABRA – CA – ZAM!

— O que é que aconteceu?

Num abrir e fechar de olhos, o Rei Wod encontrou-se numa floresta escura, coberta de neve.

— Onde estou? No Pólo Norte? — perguntou. — Esperem até eu regressar ao palácio. Aquele feiticeiro não sabe com quem se meteu!

Agora, porém, quem estava em apuros era o Rei Wod. Em alguns sítios, a neve chegava-lhe aos joelhos e, noutros, mesmo aos sovacos. O Rei não sabia onde se encontrava. Em breve estava tão hirto e gelado como um pingente de neve.

— Se não me mexer depressa, acabo por me transformar num pingente. Um pingente gigante. Alto lá, será que estou a ver além uma casa?

Suspirando de alívio, caminhou pesadamente até chegar a uma cabana minúscula, com o telhado coberto de neve, situada na orla da floresta.

A cabana estava vazia.

Não que estivesse abandonada. Havia uma lareira acesa, comida na despensa e mobília confortável na sala de estar.

— Onde estará o dono? — perguntou o Rei. — E porque não há decorações de Natal e uma árvore com luzinhas?

Na cabana não havia o menor indício de Natal. Excepto um calendário do Advento em cima do fogão de sala. Estava aberto no dia 24 de Dezembro.

— É véspera de Natal — disse o Rei.

Isto tornou a cabana ainda mais deserta. O Rei sentia-se só. Será que iria passar o primeiro Natal sozinho da sua vida?

— Para começar, é melhor aquecer-me. E tenho de me manter ocupado.

Foi divertido cortar uma árvore na floresta e colocá-la num canto da sala, especialmente depois de ter encontrado uma grande caixa com decorações de Natal no armário debaixo das escadas.

Também foi divertido pendurá-las, bem como acender a lareira e pôr a mesa para a ceia de Natal.

Depois de ter feito tudo isto, o Rei desenhou um cartão de Natal para o dono da cabana e colocou-o em cima da chaminé. Fez, em seguida, uma embalagem de oferta, dentro da qual colocou um bilhete:

Este espaço está reservado para um presente do Rei Wod. Pode ser um livro de respostas a todas as perguntas dos professores, um cesto de piquenique que brilha no escuro quando o levamos a uma festa depois da meia-noite, um cavalo com cascos multicoloridos para andar sobre o arco-íris… O que lhe apetecer. A escolha é sua.

Colocou, depois, a caixinha debaixo da árvore de Natal. Por último, pôs a mesa para mais uma pessoa.

— Nunca se sabe… — suspirou.

Adormeceu profundamente diante da lareira.

A claridade do dia acordou-o. A claridade e o tilintar de campainhas de trenó. A porta abriu-se de repente e um homem gorducho entrou. Exactamente o tipo de pessoa que esperaríamos ver num sítio como este. Como trazia geada nas sobrancelhas, gelo na barba, flocos de neve a derreter no fato vermelho, e um saco vazio, o Rei Wod demorou algum tempo a reconhecê-lo.

— Pai Natal! — arquejou.

— Como está? Quem é o senhor?

— Sou o Rei Wod. Desculpe esta…

— O Rei Wod?

O Pai Natal olhou o seu visitante com espanto.

— Isso quer dizer que a carta do feiticeiro era verdadeira? A carta que dizia que me ia trazer…

A voz do Pai Natal foi-se apagando, enquanto percorria com os olhos as decorações, a mesa de jantar, o cartão na chaminé, e o presente debaixo da árvore.

— Como é que sabia? — exclamou este.

— Sabia? — perguntou Wod. — Sabia o quê?

— Que nunca tive um Natal a sério?

— Nunca?

— Estou sempre demasiado ocupado antes do Natal. Depois fico demasiado cansado. E agora Vossa Majestade organizou tudo para mim. Que Deus o abençoe! Estou-lhe tão grato. Como se lembrou de um presente-surpresa tão bonito?

— Presente-surpresa?

— O meu próprio Natal — respondeu o Pai Natal. — É o meu primeiro Natal.

— É o primeiro que ofereço — disse o Rei, pensativo.

Mas deu-se logo conta de que não seria o último.

Wod nunca esqueceu a lição que o seu feiticeiro lhe deu. Faz sentido que, quando se é um rei que tem tudo, receber um presente-surpresa é difícil. Mas dar um é fácil.

Algum tempo depois, quando nomeou o feiticeiro seu Primeiro-Ministro, o Rei disse:

— Só há um pequeno problema. O que devo pôr na caixa que deixei debaixo do abeto? O Pai Natal não sabia de que presente gostava mais.

— É simples — sorriu o feiticeiro.

E sussurrou algo ao ouvido do Rei Wod.

Adorava dizer-vos o que ele sugeriu. Mas isso iria estragar a surpresa.

Chris Powling
Sally Grindley (org.)
Christmas stories
London, Kingfisher, 1994
Traduzido e adaptado